Perder um familiar ou um amigo num acidente é algo que marca a vida de qualquer um. Não há forma de abordar a situação, porque não há palavras que descrevam o sentimento, como afirma Joaquim Freire, pai de Daniel, o jovem que perdeu a vida num acidente em Penafiel e que motivou uma vigília de motards na saída da A4. Este domingo, 20 de novembro, assinala-se o Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada. Era também o dia em que Daniel Freire ia comemorar os 33 anos.

00h02 de dia 7 de agosto de 2022. Os bombeiros foram acionados para uma colisão de uma moto com um carro junto à saída da A4 Penafiel Norte. Joaquim Freire tinha acabado de se sentar a ver televisão. Pouco tempo depois, a campainha tocou. Era a GNR: “O Daniel sofreu um acidente e foi fatal”.

Daniel Freire tinha 32 anos e vivia com os pais e a irmã. Era um homem “amigo, honesto, sério, trabalhador” e que colocava “a família acima de tudo”. Apesar de admitir que é suspeito para falar sobre o filho, recorda a relação de ambos como se de um amigo se tratasse. “Os filhos são aqueles que surgem, um amigo já não, é diferente. É pelo carácter da pessoa que se consegue ser amigo”, afirma.

Tratava-o carinhosamente por “velhinho” e ficavam os dois horas “a conversar à lareira”, ou a “ver as estrelas”, no verão. “Era uma relação maravilhosa”, recorda. Trabalhou na área de Hotelaria e Restauração durante algum tempo por conta própria, mas agora era motorista de longo curso e o pai estava a passar-lhe as responsabilidades de uma exploração agrícola que tem.

Em casa, Daniel era “o pilar” da família. A irmã tem um tumor cerebral e sofre de epilepsia e a mãe tem também problemas de saúde. O pai, reformado, tem problemas de visão. “Com tudo isto, ainda mais falta faz o Daniel”, confessa.

Joaquim Freire comentava, por vezes, entre amigos, quando via notícias de “tragédias idênticas”, que nem queria “imaginar o sofrimento de um pai, ter de suportar uma dose destas”. “Mal eu imaginava que me ia acontecer”, lamenta.

Daniel costumava ir dar “as suas voltinhas” de moto, mas chegou a comentar com o pai que pensava em vender a sua “bichinha, porque, qualquer dia, isto pode correr mal”. Sempre que saía de casa, as palavras dos pais eram como as de qualquer outro: de preocupação. “Vê se não vens muito tarde, porque não consigo dormir. Os filhos são sempre ‘putos’ para nós”, sublinha.

De sua casa, “ouvia-o bem a fazer o circuito da mota e conhecia perfeitamente o ronco da mota”. Naquela noite de verão, havia uma festa numa das localidades em volta, então, de repente, ouviram-se foguetes. “Eu deixei de ouvir a mota. Foi precisamente nesse momento que isso aconteceu, mas eu não sabia de nada. Voltei para a cozinha e sentei-me a ver a TV”, conta.

Por volta da uma hora da manhã, foi obrigado a levantar-se com o toque da campainha.

“É terrível. É uma ferida que fica aberta, não consegue cicatrizar. É um vazio enorme.”

“Acho que deixei de aproveitar a vida. Não tenho vontade para viver. Não tem sentido nenhum. Perde-se o ânimo, perde-se a razão de estar, ainda por cima a minha situação é crítica nesse aspeto porque não tenho onde me agarrar”, acrescenta.

“Não há palavras para consolar pais que estão na situação em que estou. Não há palavras que descrevam, não há consolo. É um desespero”, conclui.

Segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, entre janeiro e julho de 2022, registaram-se no continente e nas Regiões Autónomas, 18.889 acidentes de viação com vítimas, 253 mortais, 1.398 feridos graves e 22.021 feridos leves.

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