O 11 de Setembro de 2001 foi um dia trágico que mudou o mundo e o futuro de Virgínia Ferreira. Na manhã daquela terça-feira, quatro aviões comerciais americanos foram sequestrados. Os relógios marcavam 08h46 quando uma das duas torres do World Trade Center, em Nova York, foi atingida por um avião com 92 pessoas a bordo. “O David ligou-me a dizer que alguma coisa se estava a passar, que havia um incêndio numa das torres”, começa por contar Virgínia.

Menos de 20 minutos depois, a outra torre foi alvo de um segundo avião, com 65 passageiros a bordo. Os outros dois atingiram o Pentágono e outro caiu numa área desabitada no Estado da Pensilvânia. As televisões começaram a transmitir os acontecimentos e Virgínia “tentava ligar” ao namorado “mas não conseguia. Trabalhei até às 19h00, sempre a tentar ligar-lhe. Eu estava na estação de comboios a receber pacientes que vinham cobertos com o pó, e com a preocupação de tentar encontrá-lo, mas continuava sem conseguir”.

A portuguesa conta que estava “como supervisora e decidia para que hospital iam os pacientes. Felizmente, não precisavam de ir para o hospital, o que me dava a possibilidade de continuar a focar a minha energia a tentar saber onde estava o David”.

As horas iam passando, e o “desespero e a angústia” de Virgínia também. “O meu turno acabou e disseram-me que tinha de ficar o resto do dia, porque havia falta de pessoal. Eu disse que não ficava, porque não sabia o que se estava a passar e queria ir tentar investigar”.

No total, 2.977 pessoas morreram nos ataques, além dos 19 sequestradores dos aviões. Entre as vítimas, estava David Lemagne, o namorado de Virgínia. “Fui até à casa dele, estava a mãe, alguns amigos à espera e à meia noite anunciaram que ele era um dos 37 polícias que estava desaparecido”, recorda.

11 de setembro

Quando percebeu que o namorado tinha morrido, a “angústia” tomou conta de Virgínia. “Não quis acreditar. Pensava que ainda o íamos encontrar vivo”.

Ela com 24 e ele com 27 faziam planos para uma vida futura em conjunto. “Planeava ficar o resto da minha vida com ele. Tínhamos falado de casamento, filhos, quantos queríamos ter, onde íamos viver, reformar. Por isso, quando ele faleceu, o meu futuro foi com ele”, diz.

David era um americano filho de mãe porto riquenha e pai cubano e “fascinado” por Portugal. “Nesse verão tínhamos ido a Portugal para ele conhecer a família. Ele adorou. Íamos ficar duas semanas e acabamos por ficar três”, relembra.

Uma terceira semana que acabou por “levar” à sua morte. “Ele foi trabalhar nesse dia, porque como ficamos mais tempo, ele pediu a colegas para trabalharem essa semana por ele. O David não costumava trabalhar de manhã, mas nesse dia só foi porque tinha de repor essas horas. Foi por isso que esteve lá”, recorda emocionada.

As memórias desse dia ainda estão bem presentes na mente de Virginia, que desde então não voltou “a namorar mais a sério. Tive muitos anos sem ter relacionamentos, porque tinha medo de me apegar a alguém. É um grande trauma. Foi talvez a pior parte da minha vida, porque era jovem”.

Mas não só as lembranças marcam os dias de Virgínia, também o local onde vive a transportam para aquele dia trágico. “É algo que ainda está muito presente. Quando saio do apartamento olho para a esquerda e vejo o Empire State Building, olho para a direita e vejo a Estátua da Liberdade. Portanto, sim foi um dia horrível na história e na minha vida”.

O corpo de David Lemagne foi encontrado em janeiro de 2002 e foi “um reviver de tudo”. Passados 21 anos, Virgínia confessa que vai lidando com a experiência com o pensamento de “um dia de cada vez. Até há cerca de dois anos dizia ‘para mim o 11 de setembro é todos os dias, porque eu sentia a falta dele todos os dias’. Marcou a minha vida porque estive presente para ver, mas também porque levou o futuro que eu tinha planeado”

A viver nos Estados Unidos da América desde os 11 anos, tem perto de si a mãe, o irmão e amigos, que são “um grande suporte”, mas Virgínia garante não nunca mais esquecer o 11 de setembro que “será sempre o dia em que perdi o David, o amor da minha vida. Ficou muito por dizer”.