Este sábado, dia 1 de outubro, assinala-se o Dia Mundial da Urticária. Para desmistificar explicar esta doença, o Jornal A VERDADE traz-lhe o artigo de Miguel Vieira, coordenador da Unidade de Imunoalergologia do Centro Hospitalar Tâmega e Sousa, e dois testemunhos de doentes com urticaria crónica espontânea.

A urticária é uma doença da pele, que afeta entre 15% a 25% da população em geral 1, ou seja, 1 em cada 4 a 5 portugueses sofrerá pelo menos um episódio de urticária ao longo da sua vida, podendo afetar qualquer idade.

A maioria dos casos é de urticária aguda, com resolução em menos de 6 semanas. Cerca de 1% da população geral tem urticária crónica.

A doença pode manifestar-se por manchas avermelhadas e com relevo, com comichão intensa (prurido). Estas manchas podem surgir em qualquer parte do corpo e desaparecem em minutos ou horas (geralmente até 24 horas), sem deixar qualquer marca na pele. Em alguns casos, pode surgir inchaço (angioedema) com envolvimento frequente das mucosas (lábios, por exemplo). 

Embora a urticária seja uma doença comum, permanece ainda desconhecida de grande parte da população, que tende a desvalorizá-la, sendo habitual que muitos doentes demorem anos a ter um diagnóstico e tratamento corretos.

Quais as causas da Urticária?

Apesar dos doentes associarem muitas vezes os episódios de urticária a reações alérgicas, nomeadamente alergia a alimentos ou a medicamentos, as lesões de urticária não têm, na sua maioria, doenças alérgicas por base.

A urticária aguda é na maior parte das vezes idiopática (não se identifica nenhuma causa) ou infeciosa em que existe associação a uma infeção viral ou vírica. Apenas 9% dos casos se associa a alergia a fármacos e 1% a alimentos. No caso da urticária crónica cerca de 2/3 dos casos são de urticária espontânea (UCE), isto é não é causada por nenhum agente externo mas sim pelo próprio organismo 3.

fatores que podem agravar os sintomas: situações de stress ou ansiedade, medicamentos anti-inflamatórios, alimentos libertadores de histamina (como é o caso do chocolate, morangos, etc.), mas não são os causadores!

Existe outro tipo de urticária crónica, designada urticária crónica indutível na qual, fatores externos como frio, calor, exposição ao sol, vibração, contato com a água, pressão física sobre a pele e até mesmo a prática de exercício físico podem desencadear os sintomas.

Qual o impacto na vida dos doentes?

Apesar de a urticária aguda ser mais frequente, a urticária crónica tem um impacto muito mais significativo na qualidade de vida, pela persistência das lesões, imprevisibilidade dos seus sintomas e pela busca incessante dos doentes por uma causa para a sua doença.

A comichão é o sintoma mais incomodativo, associando-se a 2,4 : desconforto grave, perturbações do sono (49% dos doentes com afetação do sono e 79% referem cansaço 4 ); alterações psicológicas e mesmo perturbações do humor, tais como ansiedade e depressão.

Para além disso, os doentes afetados sofrem de isolamento social, restrições no vestuário, limitação nas atividades lúdicas, diminuição da exposição solar, interferência na sexualidade e vergonha de expor o corpo (uma vez que as lesões cutâneas afetam a aparência física do doente 4 e a urticária, é muitas vezes erradamente considerada pela sociedade como doença contagiosa).

Qual o impacto económico da urticaria crónica grave em Portugal?

Todos estes fatores acima referidos têm implicações na produtividade laboral/escolar do doente, traduzindo-se em perdas de produtividade de até 25 a 30% 3. Em Portugal o custo médio de tratamento de um doente com UCE grave está estimado em 6234€/5 anos, dos quais 4220€ são custos diretos para o SNS e 2004€ custos indiretos, sendo o custo médio anual de 1244€ / doente 5.

Como se trata?

Apesar de não ter cura, a UCE tem tratamento e pode ser controlada com medicação adequada. A abordagem terapêutica baseia-se num tratamento sintomático, tendo como objetivo o controlo total dos sintomas, não se limitando apenas a uma melhoria. Os fármacos de primeira linha são os anti-histamínicos.

No entanto, mais de 25% dos casos de UCE não são controlados com esta primeira abordagem mesmo em doses mais alta, sendo necessário, encaminhar para uma consulta especializada de Imunoalergologia para, em casos mais graves, serem administrados fármacos biológicos de uso hospitalar.

Na Consulta da Imunoalergologia do CHTS, são seguidos doentes com urticária de vários graus de gravidade. Os casos de urticária crónica grave são geralmente candidatos a terapêuticas biológicas (Omalizumab) administradas em Hospital de Dia sob vigilância de um Imunoalergologista, com excelentes resultados (tais como os testemunhos seguintes…)

Miguel Vieira, Imunoalergologista, Coordenador da Unidade de Imunoalergologia do Centro Hospitalar Tâmega e Sousa

Testemunhos

Damos-lhe a conhecer dois testemunhos que sofrem de urticária crónica espontânea, a mais frequente dentro da doença crónica. Atualmente, estão controlados com anti-histamínico na dose mais baixa ou apenas em SOS.

José Soares, de 52 anos, descobriu a doença em 2021, e relata-nos todo o processo: “Tinha muita comichão e ficava com o corpo com bolhas. Limitava o meu dia a dia, porque ficava com muitas dores no corpo. Quando fui ao médico, foi-me diagnosticada urticária. Nunca tinha tido episódios deste género, e na minha família nunca ninguém teve. Por isso, foi a primeira vez e assustou-me, mas perguntei ao médico se tinha cura e como me disse que sim fiquei mais descansado. Comecei logo os tratamentos e hoje já não tenho quase nada, graças ao Dr. Miguel que me ajudou muito. Aconselho a que procurem ajuda logo no início dos sintomas, porque depois é mais difícil”.

Há cerca de um ano, Maria Gomes, de 52 anos, foi diagnosticada com urticária e conta como a doença alterou a sua rotina: “A alergia começou a inchar-me o rosto e os lábios. Depois passou para o corpo. Parecia um monstro. Trabalhava nas limpezas, num escritório, e era muito difícil pelo esforço, calor da roupa, é um desconforto horrível. Fui a vários sítios e foi no CHTS que encontrei o Dr. Miguel. Com o tratamento e medicação certas vi melhorias. O Dr. Miguel alterou a minha vida completamente. Hoje, a doença está controlada. Devemos intervir cedo, logo nos primeiros sintomas”.

Referências:

1. Fricke j, et al. Allergy.2019; 423-32

2. O’Donnell et al. Br J Dermatol. 1997;136 -197.

3. Thompson et al, J Am Acad Dermatol. 2000; 43-24

4. Maurer et al, Allergy. 2009;64-581

5. Carrasco J et al A. R.Portuguesa de Imunoalergologia 2015. XXIII (Supl): 56(PO29)