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Resende
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Um romance para "curar" corações: Natália Paiva escreve sobre um amor proibido

A escrita é o seu refúgio desde menina, mas só agora, aos 56 anos, Natália Paiva concretiza o sonho de publicar. Sobrevivente oncológica e técnica de farmácia, residente em Resende, quis lançar a sua biografia, mas recebeu um conselho da editora.

A sugestão transformou-se numa oportunidade: pegou nos seus poemas de amor e construiu à volta deles um romance sobre as escolhas difíceis da vida. "Obrigada por Gostares de Mim da Forma Como Gostas" é apresentado este domingo, dia 25 de janeiro, e promete ser um espelho onde ninguém gosta de se ver, mas muitos se irão reconhecer.

Natália Paiva sabe que a vida real raramente tem finais de contos de fadas. Residente na vila de Resende, esta técnica de farmácia de 56 anos lida diariamente com a fragilidade humana, tanto a física, que se cura com medicamentos, como a emocional. 

O livro, que será apresentado publicamente, no Auditório Municipal de Resende, é um romance denso sobre uma paixão proibida.

O desafio que fez nascer a ficção

A urgência da escrita surgiu como uma catarse. "Eu queria escrever um livro sobre a minha vida real. Mandei para a editora o meu testemunho", conta a autora. A resposta da editora foi um banho de realidade comercial: "Oh Natália, nunca escreveu nada, como é que as pessoas vão comprar um livro sobre a sua vida?".

Natália entendeu a dica. Percebeu que, para uma estreante desconhecida, a biografia não era o caminho. Mas, nas gavetas guardava uma paixão antiga: a poesia. "Sempre gostei de escrever, desde 'novita'. E gosto do amor que dê luta. Gosto da ideia de um amor impossível", explica, com a franqueza de quem conhece os altos e baixos das relações.

Ao enviar os seus poemas, versos sobre mulheres que sofrem por amar, para a editora, a reação foi diferente. Eram bons, mas precisavam de um fio condutor. Foi assim, num processo de engenharia literária inversa, que Natália Paiva teceu uma narrativa para servir de casa aos seus poemas. "Nasceu uma história inventada, claro, mas que fizesse sentido com aqueles versos".

Ana, Miguel e a crise dos 40 anos

A protagonista chama-se Ana, tem 40 anos, é divorciada e mãe de dois filhos. A sua vida, aparentemente resolvida, entra em turbilhão quando reencontra Miguel, um amigo de infância. "Sim podemos dizer que a roda girou", diz a autora. Se na juventude ela não olhava para ele, agora, na maturidade, o fruto proibido tornou-se irresistível.

A escolha da idade dos personagens não foi inocente. "Dizem que os 40 anos é aquela idade da loucura, em que ficamos com muitas dúvidas e questionamos tudo", reflete Natália. Miguel vive um casamento de 20 anos que está saturado; Ana vive a solidão de quem quer amar.

O título da obra, "Obrigada por Gostares de Mim da Forma Como Gostas", é a frase chave que Miguel diz a Ana. É o agradecimento de um homem que se sente amado "de forma simplista", com todos os seus defeitos, algo que deixou de sentir em casa.

Para dar vida a Ana, a "amante", Natália teve de mergulhar numa pele que não é a sua, mas à qual emprestou muitas das suas emoções. "Pus-me na pele dela. Ela ama muito o Miguel, mas não quer ser amante. Logo, vive uma vida que não quer viver", descreve. O objetivo não é julgar, mas humanizar. "A Ana simplesmente apaixonou-se pelo homem errado".

Um final trágico a caminho

Enquanto se prepara para enfrentar o público em Resende, Natália Paiva não está parada. A escrita, que começou como terapia, tornou-se um vício. "Já escrevi outro livro, falta-me só mesmo o final", revela. Intitulado "Nunca Vou Desistir de Ti", a autora antecipa que será fiel à sua visão de que o amor tem de ser perpetuado.

Por agora, o foco está em Ana e Miguel. A capa do livro, com o mar em destaque (o local onde os personagens se reencontram) serve de convite para a sessão de domingo. Natália não pede aos leitores que aprovem a traição, apenas que a compreendam. "Não é para apontar o dedo. É para entenderem o amor e a dor que a Ana sente".

Domingo, às 16h00, Resende não vai apenas conhecer um livro. Vai conhecer a visão do mundo de uma mulher que, 'impedida' de contar a sua própria história, decidiu contar a história de tantas outras.