“Deus, Pátria, Família”. Eis uma das mais icónicas e destrutivas trilogias que já viu a luz do dia em Portugal. Foram 41 anos de um regime do chamado “Estado Novo” e do qual já todos ouviram histórias; histórias de como a maioria da população vivia, em termos crus, na miséria; histórias de como pensar alto, ou dizer o que se pensava poderia constituir um verdadeiro ato suicida, histórias do lápis azul, ou de como todos os opositores ao regime eram desumanamente torturados (seja lá o que “desumanamente” possa acrescentar à definição de torturados); histórias de como Portugal atravessou um período de Ditadura.

Atualmente, e decorridos quase 48 anos desde a revolução de 25 de abril de 1974, esta zona negra da história de Portugal parece pertencer a um passado longínquo, quase mítico, relembrado apenas nos eventos celebrativos que a si são dedicados.

E o quão perigoso isto é….

Portugal encontra-se atualmente a menos de um mês de umas eleições legislativas (antecipadas). Umas eleições que, apesar da falta de consciência social que o faça parecer, decidem em grande escala o rumo que o país vai tomar pelos próximos tempos. Não fosse esse facto por si só importante em qualquer outra circunstância, possuímos a agravante de atravessarmos um período global perigosamente instável a todos os níveis, com uma (maior ou menor) crise económica e social, com a possibilidade de conflitos despoletarem um pouco por todo o mundo, e os que já eclodiram, tomarem proporções megalómanas; tudo sob o constante perigo de afundarmos (literalmente) a nossa existência com a escalada desenfreada das alterações climáticas.

E mesmo com tudo isto, mesmo com tão pouco tempo restante até às eleições, a ideia que fica em termos gerais é que uma parte bastante significativa da população simplesmente não quer saber.

E a verdade é que este não é um problema de hoje, ao longo dos últimos 40 anos (ou seja, desde que foi recuperado o elementar direto de voto), a taxa de abstenção tem aumentado vertiginosamente, colocando Portugal num fortíssimo Top 5 da Europa no que refere à não votação (Portugal, de resto, um país habituado à maioria “Tops” da Europa, seja pela elevada taxa de vacinação ou pela maior ainda carga de impostos).

Estes valores exorbitantes de abstenção constituem um verdadeiro rastilho para a ascensão de movimentos populistas, extremistas, extremo-nacionalistas, e outros -istas que, no fundo, ameaçam o mais básico estado de direito democrático. E Portugal sabe muito bem disso, mas parece esquecer-se; parece esquecer-se que a ditadura ainda foi há menos de 50 anos. E é por este motivo que a abstenção tem aumentado. Logo após o 25 de abril, a taxa de abstenção ficou abaixo dos 10%, porque toda a gente estava consciente do risco que era o poder nas mãos de quem não o devesse ter. Ninguém queria voltar ao tempo do silêncio, da opressão, em que os atos de oposição tinham de ser extremos, como a tomada do Santa Maria ou o desvio de um avião da TAP.

Mas hoje, essa abstenção aproxima-se dos 50% e isso não significa que os mesmos perigos não estejam presentes na sociedade, estão simples e perigosamente esquecidos.

Não obstante, isto é o reflexo do país, um país que se deixou tomar por uma inércia social e uma resignação alarmante face a qualquer problema que não seja do mundo futebolístico (únicos capazes de fazer acordar a veia de ação da população). Um país que mesmo sem as sobras da LUAR ou das FP-25, continua sem consciência suficiente do poder que tem sobre si próprio.

E mesmo assim, seguimos em frente, cegamente e quase sem travões, num comboio noturno, não para Lisboa, mas rumo ao abismo que se pode tornar Portugal.

Artigo de opinião por Duarte Miguel Ribeiro Lopes.