Da paixão pelo desporto a treinadora de futsal da equipa do CCD Ordem, Ana Leal é uma das mulheres “num mundo onde reinam os homens”. Acredita que, apesar de já se notarem diferenças, “ainda há muito trabalho” a fazer no que toca à liderança de projetos masculinos por parte de mulheres.

O desporto sempre foi uma constante na sua vida. Desde os sete anos que pratica várias modalidades. Fez parte de uma equipa de voleibol, mas “a paixão era o futebol”, só que não existia na zona onde vivia, então, optou pelo futsal, que jogou durante 15 anos e foi a modalidade que escolheu também na faculdade.

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Surgiu a possibilidade de treinar a formação de futsal, acompanhou uma equipa de formação desde benjamins até juniores, que depois foram bicampeões da Associação de Futebol do Porto, e decidiu parar um ano. Entretanto, teve a proposta para treinar os seniores do CCD Ordem, clube de Lousada, o que achou que era “loucura”. “Uma treinadora que só tinha treinado formação, que tinha alguns resultados, mas era na formação, que é completamente diferente… e, custa-me muito dizê-lo, o facto de ser mulher também fez com que o passo fosse muito pensado, porque, infelizmente, temos o dobro das dificuldades num mundo onde reinam os homens. Para uma mulher é extremamente difícil”, conta.

“Tive dois senhores que acreditaram em mim e que me fizeram acreditar em mim no projeto e foi graças a eles que eu aceitei o desafio”, explica. Acabou por aceitar a proposta há cerca de três anos e renovou, recentemente, com o clube, algo que conjuga com a sua profissão como professora de Educação Física. Na semana passada, o CCD Ordem confirmou a subida à Terceira Divisão Nacional na época 2022-2023.

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“Simboliza fruto de um trabalho reestruturado com muita paciência, muita luta, muita união e de muita dificuldade. No ano passado estivemos muito perto, não conseguimos. Ficou ali um gostinho amargo porque perdemos na meia-final em penáltis e, este ano, tivemos de nos reerguer e acreditar outra vez que era possível. Foi uma das épocas mais difíceis da minha vida, com muitas lesões, muitos incidentes que não estávamos à espera. Tivemos de nos reerguer e acreditar mesmo até ao último segundo que era possível. Foi o culminar de um trabalho de ano e meio – porque no primeiro ano estivemos meio ano parados por causa do COVID – com um prémio merecido”, comenta ao Jornal A VERDADE.

Para a próxima época “o objetivo é sempre tentar fazer melhor do que na época anterior, sempre com os pés bem assentes, sempre com a noção do quão difícil vai ser a época”. “Mas somos ambiciosos e vamos trabalhar para fazer melhor do que na época anterior”, continua.

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Apesar de já ter sentido na pele por diversas vezes diferenças no tratamento por ser mulher, internamente na equipa tal não acontece. “Ninguém acredita no trabalho de uma mulher num mundo que é de homens. Internamente, nunca tive esse problema, quer de atletas, quer da estrutura, mas externamente passei por momentos um bocadinho difíceis”, sublinha, referindo, contudo, que já se notam diferenças e há treinadores que “respeitam e valorizam imenso” o seu trabalho, bem como atletas.

“Tem vindo a melhorar. Inicialmente, foi mais difícil. Acho que as pessoas se têm vindo a habituar e os meus atletas também têm um sentido de proteção e de respeito comigo que são do outro mundo. Acredito e sinto que as coisas têm vindo a mudar relativamente a nós, mulheres, liderarmos projetos masculinos, porque os resultados também ajudam. Felizmente, como tive alguns resultados, acho que tenho e espero ter vindo a ajudar nessa caminhada tão difícil”, acrescenta a treinadora natural de Penamaior, Paços de Ferreira.

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“Estou muito bem onde estou. Sinto-me bem. Renovei ontem com o mesmo clube. Se há coisa que eu não sou é ingrata. Tinha outros projetos que não aceitei porque eu sou muito grata e foram as primeiras pessoas a acreditar em mim sem resultados em seniores, por isso, a minha prioridade vão ser sempre eles”, conclui.