Nas últimas semanas, temos sido inundados, nas redes sociais, com notícias sobre a depressão nos mais novos, sendo um dos casos mais mediáticos e recentes o da jovem Amélie, que desapareceu e foi encontrada, já sem vida na Praia dos Ingleses. Apesar de a causa da morte ainda não ser conhecida, muitos foram os apelos à valorização da saúde mental que correram pelas redes sociais. A juntar a este alerta, muitas personalidades também se fizeram ouvir com campanhas a apelar à importância desta problemática.

O Jornal A VERDADE entrevistou o psiquiatra da Infância e da Adolescência do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (CHTS), João Caseiro, que destacou a importância de se diagnosticarem os casos de depressão e esgotamentos junto dos mais novos. De acordo com o profissional de saúde, apesar de “não existirem estudos científicos que analisem a região do Tâmega e Sousa em particular”, acredita que “a realidade não parece diferir daquela que é a da população portuguesa e demais populações das sociedades ocidentais”.

De acordo com o médico, em números gerais, e num dado momento, “apresentam um quadro clínico de depressão de uma a duas crianças em cada 100 e cerca de cinco, em cada 100 adolescentes. Começam a surgir alguns estudos que apontam um aumento de prevalência durante o período da pandemia, possivelmente, devido ao maior isolamento e à quebra das rotinas diárias. Importa referir que Portugal, particularmente as regiões do Centro e Norte, parecem ter uma das taxas de suicídio entre adolescentes mais baixa do mundo. Não foi estudado o motivo, apesar de se admitir que a coesão social e familiar é um fator protetor”.

Para João Caseiro, a causa da depressão nos mais jovens é “complexa”, defendendo que é “resultado de interações entre fatores sócio-ambientais e vulnerabilidades biológicas. Estas últimas resultantes, tanto de uma predisposição genética, como de fatores pré-natais. Naturalmente que eventos adversos de vida, como perdas de entes queridos, podem também aumentar o risco de depressão”, explicou.

Para o médico, “associar depressão a suicídio é, na minha opinião, uma simplificação de uma realidade altamente complexa. Por um lado, o suicídio não é um resultado frequente de um episódio depressivo. Por outro, a depressão está muito longe de ser o fator causal chave do suicídio. Estima-se que entre aqueles que cometem o suicídio, cerca de 80 por cento apresentem doença mental. Entre estes, a perturbação depressiva maior justificará apenas uma parte”.

Segundo o psiquiatra “pensar pontualmente na hipótese de suicídio não é uma coisa anormal”, afirmando que a “matriz cultural judaico-cristã, que o vê como um pecado ou um ato egoísta, é que nos pode levar a considerar o mesmo um pensamento extremo. Problemático é quando este pensamento se torna muito frequente, sendo o suicídio visto como a única saída para a situação em que a pessoa se encontra. Os sentimentos de abandono e desespero, com fraca rede de apoio e isolamento social, bem como a vivência de situações abusivas, parecem ter um papel fundamental na instalação de pensamentos de morte”, lamentou.

João Caseiro alerta também para os principais indícios que apontam para uma depressão nos mais novos. “É importante ter presente que, no caso das crianças e dos adolescentes, as manifestações da depressão podem ser um pouco diferentes das do adulto. Se no adulto encontramos mais um quadro de tristeza, com pouco prazer nas atividades da vida diária, isolamento e alterações tanto ao nível do padrão alimentar como do sono, nas crianças e adolescentes é importante estar atento à irritabilidade e às alterações comportamentais. O adolescente que altera o seu padrão comportamental típico, tendo comportamentos disruptivos que nunca teve e que se apresenta muito irritável, passando a responder de forma desadequada a familiares, professores ou colegas deve preocupar-nos. Este pode estar deprimido e estas alterações comportamentais estarem a ser interpretadas como parte da adolescência ou má educação”, alertou.

O médico deixa, por fim, um conjunto de conselhos para todos os jovens e famílias: “que se aproveite o momento presente tanto em família como, quando possível, com os amigos. O pensamento é importante, mas não nos podemos esquecer que ele é uma realidade abstrata, que só existe dentro da nossa cabeça. Não podemos deixar que situações do passado, ou anseios em relação ao futuro, condicionem o nosso bem-estar e felicidade presente”.