Tecnologia

Quando a religião se converteu ao mundo digital

A Verdade

24-04-2021

O digital pode ser encontrado em todas as áreas da nossa vida e a religião não poderia ser exceção.

O digital pode ser encontrado em todas as áreas da nossa vida e a religião não poderia ser exceção. Atualmente existe uma fusão cada vez maior entre nós e as máquinas, fusão essa que leva a mudanças.

Para que seja mantida a espiritualidade humana como a conhecemos atualmente, será necessário manter a nossa atenção, consciência, compaixão, inteligência social e relacional, principalmente enquanto exploramos as novas tecnologias.

Relação entre a tecnologia e a religião

De acordo com a pesquisa anual do British Social Attitudes, o número de britânicos que acreditam que “acreditamos muitas vezes na ciência e não o suficiente na fé e nos sentimentos”, desceu para 27% - sendo que 43% era a percentagem anterior.

Com base nessa informação, e pensando que a tecnologia nos pode tirar o foco da atenção, inteligência social e relacional, entre outros, seria de esperar que as religiões organizadas não mostrassem interesse pela tecnologia, mas não foi o sucedido.

Pelo contrário, algumas dessas religiões usam a tecnologia como forma de interação com as comunidades, numa tentativa de que sejam criados laços e promovido o envolvimento com a religião. Mas, claro, a criação desses laços – e mesmo a educação religiosa – está a mudar com o aparecimento das redes sociais, pois estas permitem que leigos se conectem com padres ou outras figuras religiosas.

Desde o início da pandemia, principalmente, a tecnologia tornou-se uma excelente aliada – embora já fosse uma realidade em algumas religiões. Esta tem permitido o acesso a websites repletos de informação, o uso de aplicações para dispositivos móveis, o agendamento de consultas remotas e muito mais.

A tecnologia permite ainda que pessoas em situações difíceis, ou que vivam numa região pouco servida de locais religiosos, tenham acesso a um espaço próprio, só que no meio digital.

Limitações entre a religião e a exploração das tecnologias no digital

Apesar de a tecnologia trazer benefícios à religião – principalmente ao aproximar pessoas que se encontram afastadas geograficamente –, também cria algumas limitações.

Por exemplo, na província de Xinjiang, no noroeste da China, a tecnologia é usada para limitar a liberdade religiosa. Nessa região vive uma minoria muçulmana, uighur, que é perseguida e vigiada 24 horas por dia, através de dispositivos de reconhecimento facial e rastreamento de telemóveis. Grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que estas tecnologias pretendem suprimir a minoria.

Além da limitação da liberdade religiosa, a tecnologia também veio diminuir as receitas financeiras dos locais de culto. Mesmo com o elevado número de visitantes nas plataformas de streaming, as doações diminuíram significativamente após o início da pandemia.

Isso acontece porque, apesar de tudo, o digital não consegue garantir a experiência que a presença física oferece. Um balanço no uso das duas formas iria garantir os benefícios adquiridos em ambas.

Impacto da pandemia nas crenças. Qual o papel da tecnologia?

As grandes religiões do mundo sobreviveram a várias dificuldades, mas como estão, agora, a encarar a pandemia?

Os religiosos que se encontram em Nova Iorque estão a usar a tecnologia para ajudar fiéis de todo o mundo a aguentar a pandemia. Dessa forma podem manter-se unidos, aprofundar a espiritualidade durante o isolamento e manterem-se em segurança, em casa.

Este é, sem dúvida, um bom momento para aprofundar a espiritualidade e tal não seria conseguido sem o digital. E embora já existissem algumas atividades que podiam ser feitas com recurso ao digital, outras foram aceleradas pela pandemia.

Várias pessoas juntam-se todos os dias para participar de eventos ou, apenas, manter um momento de oração. Outras dedicam-se à visita de igrejas de outras regiões do mundo, através de documentários ou tour virtual.

As aplicações para dispositivos móveis também são uma preferência para alguns – e, inclusivamente, é uma opção recomendada pelo Papa Francisco –, enquanto que outros preferem as transmissões ao vivo em redes sociais.

O comércio eletrónico também veio melhorar as receitas dos locais de culto, como é mostrado pela Holyart.pt, uma loja dedicada à venda de artigos religiosos e arte sacra. Com apenas alguns cliques, pode comprar produtos religiosos e recebê-los em casa, sem complicações.

Apesar das dificuldades, as religiões irão continuar a usar a tecnologia como ferramenta de aproximação e não só. M. Ahmad Fairiz, fundador do Recite Lab, afirma que “o progresso tecnológico é inevitável” e “é uma solução para a desconexão com a religião na sociedade atual”.