Penafiel

Emigrante de Penafiel: "É uma experiência que devia passar por toda a gente porque aprende-se imenso"

Ana Regina Ramos

10-06-2021

Marcelo Bessa vive na Bélgica há cerca de sete anos e confessa que tenta encontrar o "equilíbrio" entre a qualidade de vida que tem e as saudades que sente da família e amigos.

Esta quinta-feira, 10 de junho, comemora-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. O Jornal A VERDADE conversou com um emigrante de Penafiel que está na Bélgica para contar a sua história.

Marcelo Bessa tem 31 anos e é natural de Duas Igrejas, em Penafiel. Há cerca de sete anos emigrou para a Bélgica e lá permanece até aos dias de hoje, embora sublinhe as muitas saudades da família e amigos que deixou em Portugal.

A decisão de ir para outro país foi pensada em conjunto com a namorada, que, atualmente, é a sua esposa. Primeiro emigrou ela e, meses depois, Marcelo Bessa despediu-se da empresa onde estava desde a altura em que acabou a Licenciatura em Engenharia de Segurança no Trabalho e seguiu de malas feitas para a Bélgica. Foi "sem proposta de trabalho", "procurar uma oportunidade diferente", por isso, emigrar "aconteceu de forma um bocadinho natural, não por necessidade".

Deixámos muitas das coisas às quais estávamos habituados, quer amigos, quer a vida social, quer atividades que se faziam no dia a dia, a própria família e vai se recomeçar, no fundo, num local onde se é estranho, tudo é novo ou quase tudo é novo e a adaptação é sempre um bocadinho difícil e complicada e, até certo ponto, às vezes, dá muita vontade de desistir como acontece a muitos dos que emigram.

Contudo, o penafidelense consegue matar saudades do país com mais facilidade do que muitos, pois o grupo onde trabalha tem uma empresa que opera apenas em Portugal, por isso, tem que se deslocar cá "com alguma frequência". Mas claro que, "quando se vai em modo profissional, não se pode aproveitar tanto como quando se vai de férias". De qualquer forma, Marcelo Bessa consegue vir a Portugal, "mais ou menos, de dois em dois meses, de três em três meses", sendo o objetivo futuro passar a "ir todos os meses", só que "o coronavírus veio atraiçoar um bocadinho os planos".

Atualmente, é diretor operacional numa empresa de construção e já viu a família aumentar para seis membros: um bebé e três cães. Criou, entretanto, um projeto, que ainda está a dar os primeiros passos, mas que pretende "partilhar de forma genuína e pura o dia-a-dia de quem deixou tudo para abraçar o mundo", o blog pessoal chamado "Diário D'Emigrante".

Quando emigrou, a ideia inicial era "fazer uma experiência de cinco anos". "Entretanto, passaram sete e, neste momento, voltamos a projetar a possibilidade de regressar em breve, só que, às vezes, as coisas acontecem de forma tão rápida e tão inesperada e tão fora do controlo que acabamos por ficar mais um ano, mais um ano e isso significa que também não estamos mal aqui, senão também tínhamos tomado essa decisão de partir muito mais cedo", explica ao Jornal A VERDADE, esclarecendo que, "no geral", sente-se realizado.

"Há alturas em que projetamos: no próximo ano ou, o mais tardar, daqui a dois anos, vou fazer as malas e vou embora porque sinto falta da família, dos amigos, de ir tomar um café à noite... coisas básicas que quando estamos aí é tão rotineiro que nem sentimos falta, mas quando estamos cá fora fazem a diferença. Não é que aqui não se possa fazer a mesma coisa, pode-se, mas não há a mesma ligação com as pessoas daqui como se criou com as pessoas daí", completa, acrescentando que, noutras alturas, o poder económico que conseguem alcançar quando estão fora, "a nível de salário, a nível de qualidade de vida, no sentido de ter um melhor poder de compra, também conforta, também dá uma certa segurança e um certo conforto".

Por isso, quanto a regressar em definitivo para Portugal, "é um misto dos dois" e tentam vir cá mais vezes para conseguirem um "equilíbrio".

Há vontade de ficar por uma razão e há vontade de partir por outra. Agora, dependendo de como acordemos de manhã, a nossa vontade muda também.

Neste Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Marcelo Bessa acredita que quem emigra "é um verdadeiro lutador, que anda à procura de algo mais que não conseguiu encontrar em Portugal" e deixa "uma palavra de apreço nesse sentido e de esperança": "Que possam organizar-se, porque acredito que seja a vontade de todos, de forma a um dia poderem regressar às suas origens de uma forma tranquila, de uma forma que os possa permitir uma qualidade de vida que esperam, assim como espero para mim; seja a longo prazo, seja a curto prazo, mas que aconteça".

"Acredito que a palavra 'emigrar' tem uma conotação um bocadinho negativa, no geral, porque a pessoa associa a abandonar tudo, a ter de sair por necessidade, porque precisa de ganhar um melhor salário, porque tem despesas em Portugal que não consegue colmatar. Por outro lado, acredito que é uma experiência que devia passar por toda a gente porque aprende-se imenso, cresce-se imenso, seja a nível pessoal, seja a nível profissional também", desafia, apontando que, em contrapartida, a pessoa irá "sentir o que faz falta realmente em Portugal para quem esta cá fora, que é a família, os amigos, os pequenos momentos com eles - essas pequenas coisas que, quando se regressa de forma definitiva, vão ter outro sabor".

É uma experiência enriquecedora a todos os níveis, independentemente da saudade, que, às vezes, aperta e que é inevitável.