Penafiel

“Ela ficou com um bocadinho de mim, agora posso dizer realmente que ela é minha filha”

Ana Regina Ramos

02-05-2021

Conheça a história de Eva Cruz que doou o rim a Marta, filha adotiva.

Este domingo, 2 de maio, comemora-se o Dia da Mãe e o Jornal A VERDADE traz a história de Marta que tem “um bocadinho” da mãe dentro de si.

Há cerca de 26 anos, em Penafiel, Eva Cruz e o marido decidiram adotar uma criança para poderem aumentar a família e partilhar mais amor. A recetora desse carinho chama-se Marta, que foi adotada pelo casal quando tinha apenas meio ano.

A felicidade e a realização tinham tomado conta da casa de Eva Cruz, mas, ao fim de três semanas, a menina começou a ter convulsões, “começou-se logo a notar toda a deficiência que ela tinha”. Marta foi diagnosticada com hidrocefalia, que “afetou a parte motora e cognitiva”, e tinha de andar sempre em consultas e terapias.

Aos oito anos, foi detetada uma nova doença, a púrpura, que lhe afetou o rim, tornando-se necessário um transplante. “Foi uma coisa muito difícil. Era complicado para ela, porque não podíamos sair para lado nenhum; se fôssemos, tínhamos que ir acompanhadas do material todo, ou vir a casa fazer a diálise”, conta. Depois de alguns anos de “muitos internamentos e isolamentos”, Marta completou 18 anos, idade que esperava para poder realizar essa operação.

Desde logo e por iniciativa própria, a mãe fez todos os exames necessários “para quando chegasse a hora estar tudo bem”.

De início, disse logo que doava o meu, se fosse compatível, e foi, em todos os aspetos positivos e negativos. Não a podia deixar partir sabendo que tinha um rim que lhe podia salvar a vida.

Foi em dezembro de 2013 que se deu o grande dia. Entraram as duas para o bloco operatório no Hospital de Santo António, no Porto, e de mais nada se lembram até quando acordaram. A Marta “recuperou muito bem da operação”, já Eva Cruz, que tinha, na altura, 55 anos, demorou “mais tempo”, mas foi mais cedo para casa. Todos os dias ia visitar a filha, que ficou mais tempo internada, pois, apesar de a operação ter corrido bem, tinha alguns problemas de saúde associados.

“Cada dia que passava era uma batalha, porque ela teve várias complicações. Quando veio embora, era tratada como se fosse uma flor de estufa. A recuperação foi se dando até que viemos embora e foi um dia que ficou marcado para a história das nossas vidas”, explica, lembrando que foi “um meio ano em que ela esteve mais vezes internada do que em casa” e que chegou a escrever um diário de todos os passos que davam.

Desde então, Marta “nunca mais teve problemas” relacionados com esta doença. Inicialmente, “não tinha muita noção, mas, com o tempo, foi se consciencializando, porque, pelo menos, não tem que andar sempre a correr para o hospital” - agora, já só vai de quatro em quatro meses. No caso de Eva Cruz, explica que é acompanhada pelos médicos, mas que, “até agora”, não teve “nenhum percalço em relação ao rim, as coisas correram todas bem”.

Foi uma mudança de vida radical para ela e para mim. Assim, ela ficou com um bocadinho de mim lá dentro. Agora posso dizer realmente que ela é minha filha! Acabou por trazer uma ligação mais forte entre nós.

Eva Cruz sente-se “muito feliz” por ter adotado a filha e “muito mais feliz por lhe ter salvado a vida”. Acredita que, na altura do transplante, “era a primeira mãe adotiva a doar um rim compatível à filha”.

Desta forma, aconselha “todas as pessoas que têm saúde e que podem salvar a vida de outra, sendo familiar ou próximo, seja quem for, que não tenham medo de doar o rim”, pois “a maior parte não fica com sequelas nenhumas e assim pode salvar a vida de outra pessoa” que se ama. “A pessoa que recebe o rim vai ter uma qualidade de vida muito melhor e pode durar mais anos. Não pensem duas vezes, se forem saudáveis, e deem um bocado de si à pessoa que mais precisa”, remata.