Amarante

Jovens de Amarante querem criar "laboratório para a sustentabilidade"

Ana Regina Ramos

30-04-2021

"Horta Urbana de Amarante" foi o vencedor da edição deste ano do Orçamento Participativo Jovem. O Jornal A VERDADE esteve à conversa com um dos integrantes do projeto.

Foto: Horta Urbana de Amarante

"Horta Urbana de Amarante" é o nome do projeto vencedor da edição deste ano do Orçamento Participativo Jovem de Amarante e pretende consciencializar para "práticas sustentáveis de produção agrícola e consumo responsável".

Quatro jovens amigos, Sérgio Jesus, Catarina Cunha, Manuel Pinto e Samuel Pereira, juntaram-se para tentar "fazer alguma coisa para mudar esta cidade". A ideia surgiu do facto de Amarante, "por mais preparada que esteja para ser uma cidade onde se vive bem e seja uma cidade com natureza e fáceis acessos e custo de vida normal, a verdade é que, a longo prazo ou a médio prazo, não é uma cidade sustentável", explica ao Jornal A VERDADE Sérgio Jesus.

"Foi a nossa loucura que nos fez participar e foi quase um desejo tão grande de fazer, ao contrário de todas as outras coisas que eu especificamente tento fazer na minha vida, penso em demasia e acabo por não fazer", diz em relação à participação no OPJ.

Sérgio Jesus explicou que não estão ligados à agricultura profissional, mas que é dessa necessidade "de aprender mais sobre" que despertou o interesse para este tema. "Exatamente por não estarmos à vontade com o assunto e só estarmos, no meu caso especificamente e único - era o único que já tinha construído uma horta, era o único que sabia gerir isso -, isso fez-nos procurar mais pessoas que eram especializadas nisso e isso construiu uma proposta muito mais sólida", continua.

Este projeto vencedor da sexta edição do OPJ de Amarante irá receber até 15 mil euros para a sua implementação e foi divulgado na Conferência Municipal da Juventude “Next Level”, que decorreu no fim de semana de 10 e 11 de abril. Na cerimónia, o presidente da Câmara Municipal de Amarante, José Luís Gaspar, entregou o Diploma e o Prémio a Sérgio Jesus, representante dos vencedores.

"Ficámos os quatro super contentes, porque, apesar de termos tido papeis diferentes no projeto, isto é um alívio tremendo, é uma concretização de um grande objetivo na nossa vida neste momento", comenta.

Foto: Município de Amarante

Mas em que consiste, afinal, a "Horta Urbana de Amarante"?

"É um espaço para a horticultura de lazer, é um espaço da comunidade e é um laboratório para a sustentabilidade", descreve. Este espaço, que promove a agricultura biológica e sustentável, livre de aditivos artificiais, incluirá 20 talhões de 35 metros quadrados cada um, a serem distribuídos aos munícipes através de um processo de candidatura.

Além da construção objetiva da horta, o projeto pressupõe também uma vertente educativa presente em ações de formação que vão ser desenvolvidas sobre a temática e numa série de IGTV que tem vindo a ser publicada na sua página de Instagram. O objetivo dessas atividades é "a consciencialização para as práticas sustentáveis de produção agrícola e consumo responsável", refere a descrição do projeto.

Com vista à "inerente sensibilização para a redução do desperdício alimentar", a iniciativa pretende ainda a criação de um compostor comunitário - o processo de compostagem consiste em transformar excedentes de matéria orgânica, como estrume, folhas e restos de comida, em material semelhante ao solo, a que se dá o nome de composto, e que pode ajudar a fertilizar as terras para cultivo.

A "Horta Urbana de Amarante" ainda não tem data para avançar, mas já se sabe que vai estar dividida em três fases.

A primeira fase incluirá a criação da horta, que será ajudada pelos parceiros que o projeto selecionou, e englobará a análise do solo, a construção da vedação e da casa de apoio e a aplicação de composto orgânico. Será desenvolvida a ação de formação “Agricultura Biológica”, sobre Agricultura biológica/Proteção de culturas/Inseticidas, Fungicidas e Estimulantes vegetais caseiros/Consociação de Plantas.

Na segunda fase, será construído o compostor comunitário e desenvolvida a ação de formação “Compostagem”, sobre Conceitos de compostagem e Vermicompostagem. A ideia é que esse compostor esteja dentro da horta, acessível pela parte exterior, para que todos possam depositar os seus resíduos no desperdício orgânico, "que depois servirá para húmus para a própria terra também na horta".

Já a última fase do projeto é a altura da colheita, em que "metaforicamente" vão colher algo. A ação de formação será "Nutrição e Saúde", sobre o conceito do “Produto Biológico”/ Consumo Sazonal. "É o final do ciclo disto tudo. Além de sabermos de onde vêm os produtos, também convém saber como ingeri-los", remata Sérgio Jesus.

O conceito da horta é de auto gestão, pois ninguém irá "interagir com aquilo de forma direta", apenas os parceiros é que terão um trabalho pago para fazer a gestão, de três em três meses, "para perceberem como é que está tudo, para rodarem o composto".

Foto: Horta Urbana de Amarante

"É um espaço também de confronto geracional e troca de aprendizagens"

Sérgio Jesus lembra a questão do "conflito de gerações" que este projeto também acaba por causar, uma vez que "a geração de há 40 anos ou há duas gerações era, obrigatoriamente, uma geração de produtores - consumidores, por muito que já praticassem uma agricultura mais ofensiva para o solo, e assim foram habituados". Por outro lado, a sua geração é de consumidores, "daí que muita gente não saiba a época dos alimentos, não sabe a vantagem de determinados alimentos, não sabe cultivá-los".

Portanto, o objetivo do projeto passa pelo "trabalhar da terra" e pela "parte educativa": "não numa de aprender a área, mas consciencializar-se para a necessidade de também nos tornarmos produtores".

"É um espaço também de confronto geracional e troca de aprendizagens porque a agricultura que alguém talvez reformado possa querer praticar lá já está muito inflamada pelo uso de agroquímicos, por exemplo, mas uma geração nova, que está a despertar para isso para tornar se produtor, não, é exatamente contra isso. Esse embate de uma forma positiva pode ser muito construtivo para todos", acredita.

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Presença digital tem ajudado a começar a educar

Quando criaram o projeto, os jovens marcaram também, desde logo, a sua identidade visual e presença digital. Fizeram uma série educativa, com quatro episódios, em que explicaram os conceitos usados na horta.

"Antes de a proposta sequer ganhar e ser votada até, já estávamos a educar e isso é um ponto muito importante. Tens de pensar como uma entidade que quer um lobby, que quer pressionar para a sustentabilidade verdadeira e o orçamento participativo foi o veículo para começarmos a difundir essa ideia", sublinha.

A recetividade das pessoas, conta, foi boa, já que foram recebendo mensagens a dizer que queriam "mesmo que isto fosse implementado na cidade". "Influenciou verdadeiramente as pessoas, tanto para se aperceberem que é necessária essa mudança, como as que queriam mesmo ficaram super felizes quando o público assim também quis. Portanto, existe uma recetividade por parte do público à nossa promoção online e por parte das outras associações [que participam nessas séries educativas publicadas no Instagram] também, acabamos por promovê-los muito com isto também", conclui.

"Se a nossa ideia não vencesse o Orçamento Participativo Jovem, ia ter de ser aplicada de outra forma qualquer porque esse é o efeito de tu fazeres este lobby positivo na comunidade, é que as pessoas iam querer envolver-se nisso e não íamos simplesmente deitar fora tudo o que fizemos", revela.

O jovem de Amarante acredita que "existe um marasmo muito grande" em termos de participação jovem na comunidade e confessa que, quando decidiram avançar com o projeto, pensaram: "Tem que ser possível criar um movimento forte e online para que as pessoas realmente fiquem comovidas pela ideia e realmente façam parte do grupo".

Deste modo, destaca: "se tiveres uma ideia que realmente e benéfica para todos ou para um nicho da sociedade e se a estruturares e se a apresentares online; se criares quase um problema que as pessoas nem sabiam que existia e se as ensinares a pensar sobre ele, consegues mudar o mundo, consegues mudar a tua comunidade mais próxima".