A 17 de novembro, assinala-se o Dia Mundial da Prematuridade e o Jornal A VERDADE traz-lhe o testemunho de Helena Monteiro, uma jovem de 27 anos, natural da freguesia de Santo Isidoro e Livração, mãe do pequeno Martim Freitas, de apenas um ano. Um bebé que se mostrou lutador a partir das 30 semanas de gestação.

Depois de um aborto, em 2020, Helena voltou a engravidar em fevereiro de 2021. Uma “gravidez tranquila” e com “alguma ansiedade” devido ao que tinha já passado. Mas às 23 semanas chega a notícia que não estava à espera. “Na segunda ecografia morfológica detetaram um possível problema no coração”, recorda.

A confirmação chegou, mais tarde, com um ecocardiograma fetal. “Após este exame, a médica confirma que o Martim tem algo no coração. Contudo, só havia certezas quando nascesse”. Apesar deste diagnóstico, nada previa que Helena tivesse um parto prematuro.

Mas a 3 de setembro de 2021, com 30 semanas e um dia, após chegar a casa de uma consulta de obstetrícia, começaram os primeiros sinais. “Senti-me molhada, tive de me trocar e fui às compras. Quando estava a sair do carro, voltei a ter a mesma sensação. Liguei à minha obstetra a explicar a situação e ela disse-me que tinha uma rutura das membranas (comumente conhecida como rutura da bolsa de água)”, explicou.

Helena seguiu de urgência para o hospital e os dias que se seguiram foram “desesperantes”. Internamento, início de medicação para maturação dos pulmões do bebé, antibiótico porque tinha a bolsa rota e medicação para atrasar o parto. “Foram dias duros, não me podia sentar, nem levantar e tinha de estar sempre deitada, de fralda. Davam-me banho deitada, porque se me levantasse, saía mais líquido amniótico e não era o que se queria”, descreve.

As memórias continuam e Helena relembra o dia 6 de setembro, data em que “deixaram de captar os batimentos cardíacos do bebé. Tinha medo de o perder, como na primeira vez”.

Foi, então, submetida a uma cesariana de urgência e lembra-se da “azáfama” à sua volta. “Fizeram-me muitas perguntas, vestiram-me, desinfetaram-me. A médica deu-me a mão e disse-me: ‘o bebé vai ter de nascer, temos oito minutos para o tirar’. Comecei a chorar e perguntei “vai correr tudo bem?” e ela olha-me nos olhos de mão dada comigo e diz ‘não sei, mas farei de tudo para que sim’”.

Martim Ferraz nasceu às 30 semanas e quatro dias, com 810 gramas e 34 centímetros, no dia 6 de setembro de 2021. Seguiu-se um processo “duro, muito angustiante e desafiador”, num total de 54 dias de internamento. “Tive ao meu lado o meu marido, a pessoa mais positiva desde o início e que me deu mais força”, refere.

Helena admite que “chorava só de olhar para a incubadora” e só ao terceiro dia de vida do pequeno Martim é que conseguiu “ver a cara sem a máscara de oxigénio”. A boa notícia, no meio de tanta “turbulência”, foi que “o problema de coração não se confirmou. Os enfermeiros diziam que nos tinha saído o euromilhões”.

Dez dias depois, pais e bebé foram transferidos para a neonatologia de Guimarães para o Hospital Senhora da Oliveira. “Não conhecia, mas foi a melhor coisa que aconteceu. Ambiente acolhedor, enfermeiros e médicos extremamente meigos”, frisou.

“Foi aprender a vê-lo a ser manipulado e picado a cada três horas, rezar para ouvir todos os dias que estava estável, celebrar cada dia de superação, foi viver na Neo e para a Neo. Foi aprender a ler o monitor e pedir saturações sempre a 100, celebrar não haver sinais de infeção, festejar cada grama aumentada e chorar a cada perda, foi tirar leite com a bomba e vê-lo a ser alimentado pela sonda. Foi ficar com as mãos em ferida de tanto desinfetar com álcool gel, foi aprender a cada três horas medir a temperatura para ver se o corpo conseguia ter a temperatura ideal adaptada ao ambiente, mudar a fralda e dar o biberão sem haver dessaturação, aprender a deixar de ler o monitor. Foi fazer o método canguru, pele com pele, todos os dias, durante horas”, descreveu.

A alta surgiu no dia 29 de outubro de 2021, com o Martim a pesar 1.950 kg e com 39 centímetros. “Foram meses de muito medo. Não deixava ninguém pegar nele. Só a família o vinha ver e de máscara e mãos desinfetadas, ele era tão frágil. Mas eu e o meu marido fomos uma equipa desde início e tudo acabou por dar certo”, disse.

Para os pais que, tal como Helena, estejam a passar pelo processo da neonatologia, a jovem deixa a mensagem: “Ser mãe de um bebé prematuro, é ser mãe de um ser muito especial, guerreiro, é mesmo a palavra correta. A quem hoje estiver a passar pelo que passei, pensamento positivo, fé muita fé, porque na neonatologia vive-se minuto a minuto mas sobretudo amor, se e quando há amor, há um final feliz”.