Abraços, suspiros de alívio e muita emoção marcaram a manhã desta quarta-feira, dia 16 de março, em Paredes. A missão foi cumprida: chegaram ao concelho os 21 refugiados ucranianos que foram transportados com o apoio de seis voluntários que partiram no sábado para a fronteira da Ucrânia com a Polónia.

O cansaço da viagem de quatro dias “sem parar” era notório, mas também surgiu o sorriso de felicidade por encontrarem um destino onde podem estar em paz.

Zoya Melnyk está em Portugal há 22 anos e reencontrou-se esta manhã com a esposa do seu primo e a respetiva mãe e filha. Emocionada, não poupou em agradecimentos aos responsáveis por este reencontro: “A fronteira onde eles passaram era muito longe de Varsóvia, mas eles conseguiram arranjar tudo e o trabalho que eles fizeram agradeço imenso. Não desejo a ninguém passar tudo o que passamos esta semana. São mesmo de Kiev, onde tudo começou e fugiram pelo lado pior. Para chegarem à fronteira tiveram de dar muitas voltas, mas, graças a Deus e aos portugueses, eles estão aqui, não faltou mesmo nada”.

A viagem agora será até São Tomé de Negrelos, em Santo Tirso, onde já têm uma “casinha pronta, mobilada e roupinha”. “Aqui vão ter tudo”, garantiu.

Contudo, a tristeza escorreu pelo rosto quando lembrou os homens das suas familiares que ficaram na Ucrânia e do irmão que tem na Rússia. “Vamos pensar que isto acaba rápido e que consigam voltar e juntarem-se, pelo menos”, disse.

“Foi uma coisa muito dolorosa, mas, ao mesmo tempo, quando chegamos aqui, levamos com um choque de adrenalina. Estávamos todos de rastos e, quando vimos aqui as famílias a virem buscar os seus, foi das coisas mais deliciosas que podem acontecer”, contou Raul Ribeiro, um dos voluntários que rumou à fronteira da Ucrânia com a Polónia.

“Estávamos a sair na portagem e eles estavam completamente – no fundo – admirados a pensarem onde é que estavam e para onde é que iam. Quando chegaram aqui e viram os familiares, puseram-se logo em pé. Foi uma coisa maravilhosa. Portanto, eles sentiram logo ali o apoio que estava cá e saíram daquele conflito que é muito complicado”, continuou.

Chegados à fronteira, o ponto de encontro era a Gare 8. Foi tudo combinado pelo WhatsApp, feita a ponte entre o consulado, a Associação da Ucrânia no Porto e a autarquia, que identificaram as pessoas que viriam nas carrinhas, garantindo determinadas condições, como o acompanhamento pelos familiares de todas as crianças transportadas, bem como o assegurar da família de retaguarda na chegada a Portugal.

“Nunca vi tanta gente junta, nunca vi pessoas a saírem de um comboio com um documento na mão e, possivelmente, algum dinheiro, irem buscar roupa, que estava armazenada em alguns locais, e irem embora. É indescritível”, recordou Raul Ribeiro, explicando que tiveram até de mudar o ponto de encontro tanta era a quantidade de pessoas a sair daquele local. A zona estava repleta de autocarros e tiveram de ter a ajuda da polícia para conseguirem passar.

Quando o grupo de refugiados chegou junto das carrinhas destes voluntários, a pressa de entrarem nas viaturas e arrancarem para logo saírem dali era muita. “Notava-se que eles queriam era sair dali desesperadamente. Foi doloroso. A ajuda é brutal ali, mas há muita gente a querer sair e não vai conseguir sair toda a gente. A nossa é uma migalha, uma gotinha de esperança”, completou, referindo que a maior dificuldade que encontrou foi indicar-lhes que eram amigos e estavam “ali com um propósito positivo e bom”.

Para Alexandre Almeida, presidente da Câmara Municipal de Paredes, esta foi “uma semana de emoções muito fortes” e, no sábado, foi “com muita expectativa, muita emoção” que viram partir as carrinhas com voluntários.

“Hoje foi com muita satisfação que os recebemos. Correu tudo bem. A missão foi cumprida e esperamos que esta seja a primeira daquelas que pudermos fazer, porque, neste momento, não podemos poupar a esforços para tirar de uma situação que, para nós, é inimaginável”, comentou, indicando que dos 21 refugiados, só três pessoas vão ficar em Paredes com familiares que iniciaram os contactos para esta expedição.