Saúde e Bem Estar

COVID-19 e AVC

31-03-2021

Artigo de opinião de Luísa Fonseca, coordenadora do Núcleo de Estudos da Doença Vascular Cerebral da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.

Desde janeiro de 2020 que o número de casos de infeção por SARS-CoV-2 tem vindo a aumentar, assim como a mortalidade associada a esta doença.

Em Portugal o primeiro caso foi diagnosticado a 02 de março de 2020 e desde essa data, tudo mudou. A obrigatoriedade de utilização de máscara, o teletrabalho, as condicionantes impostas pelos sucessivos estados de emergência, a limitação de contacto físico com pais e avós, a angústia de contágio, a revolta de alguns pela restrição da liberdade individual, todas estas novas realidades às quais nos estamos a adaptar. Sendo o regresso à “normalidade” ainda uma miragem.

A pandemia colocou ainda uma enorme pressão sobre os serviços de saúde, com natural implicação nos cuidados de saúde prestados quer aos doentes COVID-19, quer aos doentes não COVID-19, condicionando ainda o comportamento dos mesmos perante a doença.

Em novembro foi apresentado, no congresso do NEDVC, um estudo realizado em 9 unidades de AVC do país, com o objetivo de avaliar os cuidados prestados aos doentes internados por AVC durante o período de vigência do primeiro estado de emergência, em comparação com o período homólogo de 2019. Este estudo revelou que nestas unidades, no total, foram internados menos 15% de doentes e que o prognóstico funcional dos doentes internados foi pior comparativamente ao ano anterior. Também o número de doentes que realizou tratamento de fase aguda (trombólise e/ou trombectomia) foi cerca de 18% inferior em relação ao ano transato. Eventualmente, o receio de contágio influenciou o acesso aos cuidados de saúde. Os doentes com sintomas minor ou transitórios acabaram por não recorrer aos cuidados de saúde e os que mantinham sintomas recorreram mais tardiamente o que condicionou a não realização de terapêutica de fase aguda e o pior prognóstico.

Assim, apesar de ser importante cumprir as determinações da DGS e respeitar as regras de confinamento, é igualmente premente alertar a população para a necessidade de ativar o 112 sempre que for identificado um dos sinais de alerta de AVC: a face descaída, dando uma sensação de assimetria do rosto; a diminuição da força num braço ou numa perna, ou em ambos, que pode ser acompanhada por uma sensação de desequilíbrio; a dificuldade na fala, fala arrastada, dificuldade em ter qualquer tipo de discurso ou existência de discurso pouco compreensível e sem sentido. Estes sinais e sintomas são conhecidos como os “3 F’s”. São também sinais de alerta uma forte dor de cabeça ou a falta súbita de visão, diminuição abrupta de visão num ou em ambos os olhos (podendo ser definidos como os “5 F’s”), assim como a dificuldade em coordenar movimentos. A ativação do 112 permite que os doentes sejam corretamente orientados, de modo que possa ser realizado o tratamento de fase aguda adequado, sendo que a rapidez de atuação é fundamental para que se possa evitar sequelas.

É importante referir que, além do possível envolvimento pulmonar, cardíaco e do risco aumentado de eventos trombóticos, o SARS-CoV-2 pode também atingir o cérebro. Os sintomas mais frequentemente descritos são a cefaleia (dor de cabeça), anosmia (perda de olfato) e ageusia (perda de sabor), os dois últimos com registo, em alguns registos europeus, de uma prevalência de 88%. No entanto, estão também descritas outras manifestações neurológicas, que incluem a doença vascular cerebral, as infeções do sistema nervoso central, as crises epiléticas e as manifestações neuromusculares. Em relação ao risco de AVC nos doentes infetados está descrito que cerca de 1,5% dos doentes com COVID -19, em especial os com infeções mais graves, têm AVC. O AVC, nestes doentes com COVID-19, tende a ser mais grave o que leva a uma maior mortalidade. Os doentes com AVC e COVID-19 em comparação com os doentes com AVC sem COVID-19 são mais jovens, sendo a causa do AVC na maioria das vezes associada a fenómenos trombóticos.

Por tudo isto é fundamental manter as medidas e seguir as orientações das entidades de saúde, prevenindo a COVID-19 e suas potenciais consequências. É possível tal estratégia e o regresso paulatino à normalidade que todos desejamos.

Luísa Fonseca, coordenadora do Núcleo de Estudos da Doença Vascular Cerebral da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna

Luísa Fonseca, coordenadora do Núcleo de Estudos da Doença Vascular Cerebral da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna