O ser humano vive com e de sentimentos: tristeza, alegria, recompensa, partilha e entre outros os sentimentos de ganho e de prazer. Os tempos que temos vivido têm sido muito difíceis e os sentimentos são sobretudo de perda e, em certas circunstâncias, de desespero. Na base dos nossos sentimentos têm influência inúmeros fatores, como a vivência diária e a relação interpessoal. Nesta base há a ter em conta a forma como certos neurotransmissores condicionam o nosso estado de espírito. O nosso corpo tem capacidade de produzir e regular certas substâncias como é o caso da dopamina (mediador químico do prazer) da serotonina, da noradrenalina, entre outros, que influenciam o nosso bem ou mal-estar e como tal o comportamento.

No que diz respeito à dopamina este neurotransmissor tem importância fundamental na motivação, concentração, produtividade e no impulso, com relação muito estreita com estados de depressão, dependências, défices de atenção e hiperatividade. Os seus níveis estão diretamente relacionados com a capacidade de planear, resistir aos impulsos, sendo um importante responsável pelos sentimentos de prazer e recompensa. Níveis adequados permitem, por exemplo, ter bom controlo do apetite, boa concentração e a atingir níveis de felicidade de forma saudável. O seu défice está diretamente relacionado com a depressão e apatia, diminuindo imenso a capacidade do juízo crítico. Traduz-se na falta de entusiasmo pela vida, de motivação, fadiga, incapacidade de sentir prazer, diminuição da líbido, dificuldades no sono e alterações de humor. Pode, em situações mais extremas, levar ao desespero e perda de memória. Por outro lado, o seu excesso leva-nos a procurar o prazer, a recompensa e a repetição exagerada de comportamentos.

A sua produção pelo nosso organismo necessita de compostos designados de aminoácidos (L-tirosina e L-fenilalanina), que estão presentes em certos alimentos. É muito frequente nas pessoas que têm défice de dopamina procurarem formas de a conseguirem aumentar, como é o caso do consumo de certas substâncias. Em regra, trata-se de comportamentos autodestrutivos em que as pessoas perdem o autocontrolo e tentam atingir níveis de satisfação que esgotam a energia do seu corpo, colocando em sério risco a sua saúde mental e física. Exemplos são os casos de abuso de cafeína, álcool, açúcar, drogas, comportamentos compulsivos e os jogos de azar. Existem formas naturais de aumentar a dopamina, com alimentos ricos nos aminoácidos importantes para a sua produção, que existem nos produtos de origem animal, e noutros, como as amêndoas, o abacate, a banana, a beterraba, o cacau, os vegetais de folha verde, o chá verde, o feijão, os cereais de trigo e a melancia.

Alimentos ricos em probióticos como o iogurte natural e certos medicamentos também pode ajudar a aumentar os níveis. Vitaminas como o ferro e vitamina B3, ácido fólico e vitamina B6 são importantes para a síntese deste neurotransmissor. Certos comportamentos ou atividades também podem ajudar, como o exercício físico, a meditação, a música, a definição de objetivos, sendo recomendável um planeamento de objetivos a curto prazo, para assim ser possível manter níveis de dopamina adequados ao nosso bem estar e, como tal, manter o foco e a atenção necessárias para satisfazer e alcançar os objetivos de médio/longo prazo. A dopamina tem, também, relação muito importante com a depressão. A depressão que tem na sua base maior relação com a diminuição da dopamina, com a serotonina ou com ambas, tem caraterísticas distintas. É frequente numa depressão pela falta de dopamina, esta ser traduzida pela tristeza associada à letargia e falta de motivação. Na depressão em que a serotonina é o neurotransmissor mais deficitário, o ser humano apresenta tristeza acompanhada pela ansiedade e pela irritabilidade e isso permite-nos perceber qual a orientação e ajudas mais adequadas para a saúde mental. A vida é feita sentimentos.

Miguel Carvalho – Médico, especialista em Medicina Geral e Familiar na SCMMC