“Foi o meu amor incondicional às crianças que me levou a entrar nesta missão”. Foi desta forma que Ricardo Afonso, natural de Marco de Canaveses, descreveu a sua motivação para ingressar numa missão humanitária até Medyka, na Polónia, para ajudar os refugiados ucranianos. De lá, traz “histórias para a vida” e uma “experiência inesquecível”. Testemunhos de crianças, jovens e adultos que viram as suas vidas mudar radicalmente após o início da guerra, em fevereiro deste ano. Em entrevista ao Jornal A VERDADE, o polícia de profissão e criador do grupo “A Família do Etoo”, no Facebook, que ajuda pessoas necessitadas, contou esta experiência, admitindo que “foi dura, mas importante”

De onde surgiu a vontade de ir à Polónia ajudar os refugiados ucranianos?

A minha vontade de ajudar aquele povo muito se deve ao amor incondicional que tenho por crianças, sobretudo, crianças carenciadas. Assim que começou a guerra na Ucrânia, na minha cabeça, só tinha o sofrimento que aquelas pobres crianças estariam a viver.

Eu sabia que a minha vontade em ir ajudá-los não iria resolver nada infelizmente, mas, ao mesmo tempo, sentia que talvez fizesse mais falta lá do que cá para as receber. Felizmente, vivemos num país bastante solidário e, nesse sentido, atendendo a minha experiência no auxílio aos mais pequenos, fizesse mais sentido nas fronteiras da Ucrânia do que propriamente cá em Portugal.

Como foi toda a logística de organização da viagem?

Quando decidi efetuar a deslocação, sabia que o ideal seria encher a minha carrinha com alimentação, medicação e brinquedos e fazer a viagem até Medyka. Contudo, tinha recorrido, há pouco mais de seis semanas, a uma intervenção cirúrgica, o que me impossibilitava de permanecer sentado tantas horas de viagem e pensar numa deslocação de avião seria o ideal para a minha saúde. 

Confirmei, então, a disponibilidade de duas coisas importantes: voo para a cidade de Cracóvia, na Polónia, e aluguer de viatura no aeroporto para a deslocação até as fronteiras da Ucrânia, neste caso, até ao centro de refugiados de Medyka (Polónia).

Toda essa logística (financeira) foi assumida pessoalmente. No fundo, foram as reservas financeiras que tinha para as “férias” de 2022! E que férias!

Na vida, por vezes, temos de fazer escolhas daquilo que realmente é mais importante para nós. Podia ter escolhido facilmente um resort na República Dominicana, mas o meu amor por crianças será sempre maior que qualquer tarde de sol!

Ao chegar à Polónia, qual foi o cenário com que se deparou?

Foi horrível! Foi, possivelmente, a maior tristeza que já senti até aos dias de hoje! 

Cheguei a Medyka por volta das 18h00, estavam temperaturas negativas e vi algo que nunca mais irei esquecer na vida: uma fila interminável com milhares de crianças ao frio, acabadas de chegar à Polónia, muitas delas de uma caminhada com 300/400km, cansadas, doentes, com os pés numa lástima e a precisar urgentemente de cuidados médicos.

Foi um sentimento de revolta e impunidade tão grande. Aí, tive a certeza de uma coisa: eu não estava preparado para aquilo! 

“E agora?! Onde vou encontrar força psicológica para tudo isto?”, pensei eu. Nesse momento, uma menina vem na minha direção e abraça a minha perna! Queria colo!

Eu não queria, confesso, mas as lágrimas correram-me pelo rosto. Ainda hoje sinto, no meu corpo, aquelas mãozinhas geladas! Percebi que a minha missão ia ser dura, mas importante. Aquelas crianças precisavam de algo que eu tinha para elas: AMOR.

Qual foi o momento mais difícil?

Decidir entrar na Ucrânia, na deslocação a Lviv no dia 14 abril. Tinha “prometido” aos meus que não o iria fazer, ajudar sim, mas entrar não. Contudo, em Medyka, intervenientes da Cruz Vermelha, responsáveis por ajudar no resgate de autocarro entre a cidade de Lviv, na Ucrânia, e Medyka, na Polónia, questionaram-me sobre a possibilidade de integrar essas equipas de auxílio nesse corredor humanitário e, depois de lá estar, como se diz que não às seguintes palavras: “Ricardo, se tu, com toda a tua experiência militar, policial e de solidariedade, não aceita esta missão, quem vai aceitar?!”.

Como foi essa parte da missão? 

13 de abril, 19h00, estação de comboio de Przemysl na Polónia. Apanhei o único comboio que tinha disponível para Lviv. Nos próximos quatro dias, estava tudo completamente lotado. 

No fundo, sabia que ia para Lviv, mas não sabia, em concreto, como voltar no dia seguinte. Supostamente, na estação de comboios de Lviv, tinha o centro de refugiados. Era a partir desse local, na manhã do dia 14 de abril, que iria incorporar a equipa de resgate no transporte de autocarros entre a cidade de Lviv e Medyka. 

Cheguei a Lviv às 01h30 da madrugada, seis horas e meia para fazer 90km de comboio! Controlo, mais controlo e novamente controlo! 

Fui revistado, encostado à parede, novamente revistado por militares ucranianos, que, mesmo verificando, no meu uniforme, a bandeira da Cruz Vermelha e a bandeira de Portugal, desconfiavam de tudo e todos, não estivessem eles num país em guerra. 

O meu passaporte ficou retido durante duas horas até terem a confirmação que a minha missão era ajuda internacional humanitária e nada tinha a ver com guerra ou qualquer ataque pessoal ao povo ucraniano. Foram horas de tensão, confesso. 

À chegada a Lviv, na estação, fui novamente acordado por militares ucranianos, que desta vez e, ao contrário da abordagem dentro do comboio, tiveram um comportamento bem mais calmo, sereno e, no fim da abordagem, um deles ainda me pediu algo curioso: se não me importava de trocar a bandeira de Portugal que tinha ao peito pela bandeira dele referente à Ucrânia. Foi como um prémio para mim ter aceite o convite para entrar na Ucrânia.

Fiquei a dormir numa residencial local, sombria, a cerca de um quilómetro da estação de comboios. Não dormi absolutamente nada, a ansiedade tomava conta de mim, apenas queria rapidamente que fosse de manhã para me sentir novamente útil na minha missão.

Às 07h30 já estava no campo de refugiados às portas da estação de Lviv, onde fui abordado por membros da equipa da Cruz Vermelha ucraniana que rapidamente me enquadraram nos autocarros. Fiquei “responsável”, juntamente com uma enfermeira ucraniana, por um desses autocarros que iria fazer o transporte de Lviv para Medyka. Tristeza, cansaço, pouca simpatia eram sinais claros de todos aqueles que, um a um, entravam no autocarro.

Após iniciar a nossa deslocação, o choro de crianças era uma constante e os vómitos uma realidade! Que viagem! 10 em 10 min – paragem obrigatória. O avanço do autocarro era feito mediante autorização dos militares. 

Três horas depois, chegámos perto de Medyka. Os autocarros paravam todos numa estação de serviço e ali aguardavam por autorização para se aproximarem do controlo de fronteiras. 

Em conversa com a enfermeira responsável do meu autocarro, fiquei a perceber que iríamos esperar ali naquele local entre três a cinco horas. Aí, percebi que a nossa missão tinha terminado.

Foi então que decidi avançar a pé até à fronteira – eram cerca de sete quilómetros -, auxiliando, assim, aqueles que precisassem de uma “mão amiga” no transporte de malas ou animais de estimação.

A experiência de Ricardo Afonso “ficará para a vida” e o objetivo é regressar à Polónia para continuar a ajudar, no que puder, o povo ucraniano. “Tudo isto se deve à força, motivação e coragem que o grupo de amigos ‘A família do Etoo’ me faz chegar todos os dias em acreditar em mim”, concluiu.