Paredes

Investigadora percorreu Paredes "à descoberta" da influência dos brasileiros torna-viagem

Ana Regina Ramos

07-06-2021

Alda Neto investigou durante duas décadas a influência dos brasileiros torna-viagem em Paredes. Estudo deu origem a uma rota que está a ser promovida pelo município e a um livro que vai ser apresentado este mês.

Alda Neto é natural de Paredes e professora de História. Durante 20 anos, estudou a influência dos brasileiros torna-viagem na região, mais propriamente em Paredes. As conclusões do estudo deram origem a uma rota por várias freguesias que está a ser promovida pelo município e a um livro que vai ser apresentado no dia 19 de junho.

"Tudo começa há 20 anos, quando é preciso escolher um tema de seminário para conclusão de curso e o desafio é lançado não para o concelho de Paredes, mas para a Maia. Foram trabalhadas três freguesias apenas. O trabalho foi feito e o bichinho ficou", conta ao Jornal A VERDADE.

Depois, quando concorreu ao Mestrado em História da Arte em Portugal, o tema que escolheu foi relacionado com as casas dos brasileiros torna-viagem, sendo Paredes o concelho no qual iria aprofundar mais o estudo. "Sou descendente de emigrantes brasileiros torna-viagem e franceses e, no fundo, há ali todo um contexto familiar que empurrava para a emigração", acrescenta, referindo que sobre o assunto há poucos estudos e os que existem são mais a nível geral.

Mas quem são os brasileiros torna-viagem?

Os brasileiros torna-viagem são homens e mulheres que "partem para o Brasil na segunda metade do século XIX" (contudo, este processo "já se vinha a verificar quase desde a descoberta do Brasil"), "enriquecem - só um pequenino número - e regressam". Ao regressar, voltam para as suas terras e, sobretudo, na região do Vale do Sousa, "há dezenas de exemplares quer de casas, igrejas, escolas, estradas, teatros" associados a estes emigrantes, bem como na região do Minho.

"São um marco na história do concelho de Paredes. De alguma forma, o concelho de Paredes não teria sobrevivido ou não teria progredido ao longo da última metade do século XIX e da primeira metade do século XX sem estes brasileiros torna-viagem, que estão presentes em inúmeras organizações, instituições e espaços do concelho", sublinha a investigadora.

Casa da Cultura de Paredes

O conselheiro José Guilherme Pacheco, cujo bicentenário do seu nascimento se comemora este ano; Adriano Moreira de Castro, natural de Louredo, presidente da comissão municipal administrativa de Paredes em 1912, ajudou a construir uma escola e "um grande ativista do Partido Republicano e na área da educação"; o barão de Cete; e o comendador António Pereira Inácio são alguns dos exemplos de brasileiros torna-viagem que foram "grandes contribuintes para a construção e proteção, por exemplo, da Misericórdia, das escolas e da educação".

A investigação

Alda Neto conta que aquilo que foi descobrindo ao longo destes anos foi com "trabalho de campo". Algumas informações obteve através daquilo que conhecia como paredense, outras a partir da memória de algumas pessoas da comunidade e da investigação nos jornais - porque "a maior parte da investigação centra-se nos periódicos" -, mas também indo pelo concelho "à descoberta".

Durante este período de tempo, fez o inventário de mais de 20 de exemplares associados a estes brasileiros torna-viagem e descobriu várias influências destes tanto em Paredes, como noutros concelhos da região (Penafiel, Felgueiras, etc.), trabalho que foi conjugando com o seu emprego como professora de História. Algumas dessas influências são, hoje em dia, edifícios conhecidos, como é o caso da Biblioteca Municipal de Paredes e da Casa da Cultura de Paredes, mas outras personificam-se em edifícios que estão devolutos.

Há uma rota para conhecer estas influências dos brasileiros torna-viagem

No âmbito do projeto "Caminhar pelo Património", uma iniciativa da Câmara Municipal de Paredes, surgiu, em associação com os Amigos da Cultura de Paredes, as juntas de freguesia e com os proprietários das casas, a criação de uma rota dos brasileiros torna-viagem, que pretende percorrer as várias freguesias do concelho que possuem exemplares da influência destes migrantes e que é, no fundo, "um produto final" do estudo realizado por Alda Neto.

Igreja de Louredo

Em Louredo, "onde se encontra um dos mais belos exemplares da emigração portuguesa para o Brasil em termos arquitetónicos, que é a Castrália - a partir de onde tudo se vai construir -", existe o Trilho de Louredo da Serra desde 2018.

Com início e fim no Parque de Lazer de Miragaia ou, alternativamente, na igreja de São Cristóvão, o trilho enquadra-se no âmbito ambiental/cultural, do tipo circular. A distância é de 8,45 km, pode ser percorrida em qualquer altura do ano e o seu nível de dificuldade é moderado.

A Casa da Castrália é um edifício "de grandes dimensões", "com telhados demasiado inclinados para esta região, o que demonstra influências, por exemplo, do norte da Europa", mandado construir por Adriano Moreira de Castro, no início do século XX. Tinha água canalizada e aquecimento central, "algo extraordinário para a época". "É nesta casa onde, por exemplo, se vão fazer grandes reuniões do Partido Republicano, entre 1910 e 1920", indica Alda Neto, referindo que este edifício acaba por ser "o plasmar de todo o percurso de Adriano Moreira de Castro", uma vez que, na sua sala de jantar, mandou representar o estado do Pará, para onde emigrou.

Casa da Castrália

Para já, existe ainda o Trilho de Baltar, que também faz parte do projeto “Caminhar pelo Património”, na rota dos brasileiros de torna-viagem, e insere-se na Serra do Muro, estando ainda em fase experimental. Com início e fim no Largo Pereira Inácio, no edifício da antiga câmara, tem quase 10 quilómetros e um grau de dificuldade moderado.

O objetivo é "divulgar não só o espólio dos brasileiros torna-viagem, como também todo o espólio arquitetónico natural existente nas freguesias".

"Esperamos agora que, nos próximos tempos, o COVID-19 nos permita retomar estes trilhos, ou seja, dar a conhecer às pessoas quem são os brasileiros torna-viagem, o que eles fizeram. Afinal, eles não são tão maus, nem tão preguiçosos como Camilo Castelo Branco lhes chama; eles são homens como nós, são homens que, um dia, quiseram trazer o sucesso, o progresso às suas aldeias e trabalharam para o conseguir", acrescentou.

Um próximo passo será no dia 19 de junho, pelas 17h30, o lançamento do seu livro sobre as casas dos brasileiros de torna-viagem, na Biblioteca Municipal de Paredes. Alda Neto conta que teve o apoio de diversas entidades, como por exemplo os Amigos da Cultura de Paredes, a Câmara Municipal de Paredes, as juntas de freguesia, os proprietários das casas destes brasileiros, a Irmandade da Misericórdia e o CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade, entre outros.

Galo, símbolo da rota dos brasileiros torna-viagem em Louredo

"Gostava que o património começasse a ser mais valorizado"

O envolvimento da comunidade também é um fator que destaca ao longo do processo da divulgação da rota, pois, por exemplo, quando decorreu o trilho experimental de Louredo, recorda que se sentiu o "orgulho" e o interesse das pessoas em ter todo aquele espólio na freguesia.

"Há muito ainda a fazer" e a ambição da docente, que está a terminar o Doutoramento em Estudos do Património, é "ter tempo para ver o Vale do Sousa todo". "Mas, sobretudo, a comunidade tem que começar a olhar para as casas, para os brasileiros com outros olhos, ou seja, são homens que, um dia, saíram de uma terra sem nada e quiseram regressar e dar-lhes alguma coisa. Gostava que o património começasse a ser mais valorizado, que a comunidade olhasse para ele, olhasse mais para dentro de si e não tanto para fora", conclui, acrescentando que "é preciso que as pessoas gostem da sua freguesia, gostem do seu concelho, gostem da terra onde nasceram".

Miradouro em Louredo com as iniciais de Adriano Moreira de Castro