No início de 2023 foi revelado que a depressão e ansiedade tem vindo a aumentar nos jovens e que o número de ocorrências cresceu em 52,8% entre os dez e os 19 anos. Assim, os psicólogos têm tido um papel fundamental no controlo das crises de ansiedade, agressões e tentativas de suicídio presentes na sociedade.

Neste sentido, o Jornal A VERDADE ouviu a opinião da psicóloga clínica Fátima Nunes que alertou para o aumento do comportamento aditivo associado às tecnologias e, sobretudo, às apostas que têm criado “gastos altíssimos”.

Fátima Nunes é psicóloga há mais de 20 anos e tem vindo a especializar-se como psicoterapeuta na área dos adultos. Ao longo dos anos tem sentido um “aumento da dependência” relacionada com as tecnologias e os jogos.

A psicóloga descreve este comportamento como “bastante preocupante”, porque num espaço curto de tempo observou que “temos uma série de casos de adolescentes que estão a fazer apostas a dinheiro com valores altos, enquanto os pais pensam que eles estão a jogar no computador”, explica.

Partilha que em alguns casos, os valores ultrapassam os dez mil euros e que tudo começa com “coisas simples do futebol e apostas de cinquenta cêntimos”. Fátima Nunes alerta também para a diversidade e acesso fácil a sites de apostas o que contribuiu para que os jovens fiquem “completamente viciados, o que leva a consequências na saúde mental”.

Um dos pontos que deixa Fátima Nunes particularmente preocupada é deparar-se com adolescentes que “não comem para terem dinheiro para apostar. Há miúdos que levam as mesadas e não comem nada para apostar, os pais não fazem a mínima ideia que eles deixaram de comer e que depois pedem dinheiro emprestado”, concluindo que o “vício já está presente naquele filho, mas os pais não se apercebem”.

A psicoterapeuta menciona, ainda, que tem sentido uma “falta de socialização” nos jovens, por exemplo, no que toca aos estudos, há tendência para “faltarem as aulas ou realizarem apostas, através dos telemóveis, dentro da sala de aula”. Atualmente, Fátima Nunes tem observado que “se antes tínhamos uma necessidade de estar com os amigos e ir conversar, agora até podem querer sair, mas estão cada um no seu telemóvel e a falar sobre jogos ou apostas”.

Referindo ainda o facto da sociedade querer, cada vez mais, atingir os “padrões das redes sociais, tentar alcançar aquele patamar”, o que acaba por originar “muita frustração e dependência de ver mais e querer mais” e leva as pessoas a desenvolver “ansiedade, depressão e sentimentos de revolta”.  

Assim, Fátima Nunes reitera que a dependência das tecnologias e redes sociais é um comportamento comum a toda a sociedade. “As crianças e adultos estão dependentes, quando se esquecem do telemóvel nota-se uma ansiedade nessa pessoa e não é porque alguém lhe pode telefonar, é porque depois não vai poder ir à rede social ou aquele jogo”, esclarece.

Acrescentando que os familiares têm de estar “atentos às tecnologias e perceber o que os filhos fazem lá. Retirá-los desta rede e perceber o tempo que estão agarrados ao telemóvel”. Considera que apesar do “cansaço, os pais devem tirar bocadinhos em que façam atividades que sejam do interesse da família” para contrariar esta tendência e de forma a que os filhos não construam uma “família tecnológica”.

Por isso, de forma “doseada”, é necessário que os pais procurem “perceber o que eles fazem, dialogar e demonstrar interesse”, ao mesmo tempo, que lhes “permitem crescerem sozinhos”.

Atualmente, “há pais a ficar com cartões de crédito estourados. A perder patrimónios”, destaca Fátima Nunes, terminando por dizer que é preciso “luz vermelha” para este problema “gravíssimo” da saúde mental, porque “se não for feito nada, isto vai ficar muito pior”.

No ano passado, o INEM reencaminhou para o Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise (CAPIC) 20.614 chamadas, das quais 8920 motivaram a intervenção de psicólogos, segundo o Jornal de Notícias.