Mónica Lima, uma professora de Filosofia com formação teatral, assume-se como responsável pelo projeto de teatro na Escola Secundária do Marco de Canaveses, com os alunos de uma turma do  11.º ano do curso de Línguas e Humanidades.

“Iniciamos um projeto de grupo de teatro, mas que vai muito para além disso, temos performance racional de interpretação abstrata de textos e de textos musicais”, começou por explicar a professora, em entrevista ao Jornal A VERDADE.

A concretização do projeto é, segundo a professora, “enriquecedor e um fator de desenvolvimento” no sentido de emancipação de alguns problemas, assim como, “ajuda na resolução do conflito” e “nas dificuldades da vida”

O projeto tinha como data de início o primeiro período, no entanto, o contexto pandémico obrigou ao adiamento da data e à existência de alterações relativamente ao plano primeiramente pensado. “O objetivo era abrir a escola toda, mas depois a direção, e muito bem, muito cuidadosa com a segurança dos seus alunos, especificou-me que eu só podia trabalhar com uma turma, para não haver bolhas diferentes”, explicou Mónica Lima.

Foi então que lançou o desafio a uma turma de 11.º ano, tendo juntado um total de oito alunas que decidiram abraçar o projeto. Um ano que se afirma como “difícil” para as integrantes do grupo teatral, que observaram dificuldades provocada pela pandemia. “Todas as minhas alunas adoeceram, factualmente, eu adoeci, factualmente, não temos ninguém, tivemos de ser nós a arranjar os figurinos, o cenário, tudo, elas ajudaram-me a fazer tudo”, disse.

Primeiramente, a formação do grupo não previa a constituição exclusiva de um grupo feminino “a turma que me foi atribuída tinha mais mulheres do que homens, que é a realidade das línguas e humanidades e, de facto, os rapazes não mostraram tanta disponibilidade para trabalhar”, conclui a professora.

Um grupo constituído por oito alunas, à qual a encenação e escrita do texto está sobre a responsabilidade da professora Mónica, referem que não foi rápida a integração no mundo do teatro, mas a aceitação do desafio provocou mudanças positivas no seu modo de vida.

“Não tinha contacto com a parte do teatro, mas realmente propus-me a este desafio, a esta oportunidade, e acabei por me surpreender, acabei por perceber que ganhei outra sensibilidade para determinados aspetos”, afirma Francisca Martins, aluna do 11º ano.

A primeira aula de teatro despertou logo algo de diferente na aluna. “A nossa primeira aula foi muito emocional, tivemos logo uma ligação muito forte umas com as outras e foi curioso, porque já nos conhecíamos há cerca de um ano e ainda não tínhamos tido aquela proximidade. O teatro fez-nos isso, olhar para o nosso próximo, neste caso, para as minhas colegas, de outra forma”, disse Francisca, acrescentando que “o grupo de teatro é capaz de fortalecer os laços, desenvolvendo a pessoa nos pontos expressivo e afetivo, o que assume repercussões significativas no que diz respeito ao aspeto cognitivo”.  

Apesar de ter uma vida ocupada, Francisca garante “não se arrepender” de ter abraçado projeto. “Não me arrependo, mesmo tendo uma vida ocupada e ter muitas responsabilidades, tenho total disponibilidade para o teatro. Sem dúvida, nos anos seguintes, mesmo que se possa complicar a gestão do tempo, tenho todo o orgulho e prazer em fazer parte, porque realmente é uma vertente totalmente diferente daquilo que estou habituada e que as minhas colegas estavam habituadas, mas penso que é muito enriquecedor e sobretudo acho que nos fez crescer muito”, conclui a Francisca.

Por outro lado, a professora Mónica lamenta o facto dos portugueses não darem “a devida importância” à cultura, “o que faz com que as alunas apresentem um pensamento errado relativamente ao teatro. Todas elas, antes de contactar com o teatro, achavam que era uma coisa fácil. Não é, o trabalho que nós fazemos na área é uma coisa muito difícil, elas perceberam que é uma coisa muito complexa.  Representar um personagem é algo que dá um trabalho extremo, profundo e é muito complexo e muito abstrato. Foi preciso partir muita pedra, foi preciso um trabalho muito exigente da minha parte para que elas conseguissem”, explicou Mónica Lima.

Laura, também aluna integrante do projeto, admite que foi “difícil” a sua entrada no grupo. “No início, nem sequer me abri à oportunidade que a professora me deu, acho que foi um bocado de receio e medo, mas no fim, com a insistência da professora e das colegas, consegui abrir-me ao teatro e consegui aprender a expressar melhor os meus sentimentos”, disse.

Na próxima terça-feira, dia 7 de junho, o grupo de teatro vai atuar no Emergente – Centro Cultural, em Marco de Canaveses, pelas 21h00, numa peça intitulada “A Estreia”. “É uma peça que trata de metalinguagem do teatro, uma peça dentro de outra peça, dentro de outra peça, e é de facto uma doação para o público no sentido de nós somos o grupo, nós estamos a estrear e é a primeira apresentação”, concluiu a professora.

Texto redigido com o apoio de Sara Ribeiro, aluna estagiária da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro