Alguns profissionais de saúde do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, entre médicos, enfermeiros, auxiliares de saúde e administrativos, manifestaram-se, na tarde desta terça-feira, dia 19 de julho, junto ao Hospital Padre Américo, em Penafiel, contra “doentes internados nos corredores do Serviço de Urgência”. A Administração afirma que “a realidade na urgência é uma realidade que muda todos os dias”.

“O cenário é literalmente de guerra. Estamos aqui reunidos, basicamente, pela existência de doentes internados nos corredores do Serviço de Urgência, o que nos tem dificultado o trabalho de forma a darmos resposta aos doentes urgentes”, afirmou a enfermeira Marta Sousa, referindo “toda a gente está indignada”, mas “há muita gente que não está presente com medo de represálias”.

“O Serviço de Urgência dispõe de duas enfermarias que foram criadas para conter doentes internados, uma delas tem oito doentes e a outra tem 10. Tudo o que excede esse número são doentes que estão internados nos corredores do Serviço de Urgência, corredores que servem de passagem para doentes urgentes”, explicou, indicando que essa situação “compromete o socorro”.

“Tem sido impossível prestar os cuidados, principalmente, com segurança. Estamos aqui, principalmente, para nos focarmos na segurança do doente, tanto os doentes que estão internados em macas nos corredores, como nos doentes que dão entrada no Serviço de Urgência e que são doentes urgentes”, acrescentou.

Segundo explicam os profissionais que se manifestaram, durante a tarde desta terça-feira, estavam cerca de 60 doentes nas urgências, sendo que “são 16 enfermeiros no turno diurno e 14 auxiliares”, o que consideram “inconcebível”.

“Eu falo por mim: Não sei se vou conseguir aguentar muito mais tempo a trabalhar por três ou quatro enfermeiros. Além de enfermeiros, somos seres humanos, os auxiliares são seres humanos, os administrativos são seres humanos e eu acho que isto vai ter consequência tanto para nós – não querendo focar em nós, que isso é o menos – e nos doentes que lá estão internados. A maioria deles são idosos, precisam de cuidados e que, além disso, estão doentes e tem sido inconcebível. Estamos esgotados”, concluiu.

A resposta que tem sido dada “tem sido muito escassa”: “Para o Conselho de Administração, isto é um pico. É um pico que tem sido crónico”.

Um dos auxiliares presentes referiu que pretende “ver melhores condições e segurança no Serviço de Urgência, que só o nome diz tudo e não é para internados”. “Já estou aqui há muitos anos e tem vindo a piorar muito. Chamem o pico do calor, do COVID, de outras situações, mas nestes 15 dias tem piorado muito e nós, para darmos o nosso melhor, saímos daqui exaustos”, comentou.

“Transportar doentes para outro lado, que não temos macas, muitas vezes, não temos cadeiras de rodas porque estão ocupadas com doentes a quem tivemos de ir dar banho a outro sítio que não no corredor e algumas situações ainda de doentes que podem ir ao banho assistido”, rematou.

Uma das trabalhadoras dos Serviços Administrativos referiu que, no início do turno, tinha sido “informada pelos colegas e pela diretora das Urgências que todos os familiares dos doentes internados iriam ser impedidos de os ver no dia de hoje”. “Passamos nos corredores e é as pessoas de idade a solicitar ajuda, que querem ir à casa de banho e que não existem profissionais de saúde suficientes para prestar esses cuidados e isto é diário e tem sido nos últimos anos este cenário e está cada vez pior. Era recorrente mais nos períodos de inverno, nos chamados picos do inverno, mas cada vez é mais recorrente e estamos no verão e é o que se está a verificar neste momento”, recordou.

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A médica Ana Reis acredita que, “neste momento, o ambiente que se vive é de cansaço extremo”. “Não é uma situação nova para nós. Já há muitos anos que vivemos esta sobrelotação e, neste momento, o que se sente é quase um desespero por não vermos que a situação se esteja a resolver. Até agora, havia uma certa força, sempre a acreditarmos que as soluções iriam aparecer e, neste momento, é um bocadinho o desânimo e o desespero que tomam conta das pessoas”, descreveu.

Esta situação “não é recorrente, esta situação é sustentada no tempo já há muitos anos”. “Falar em picos, confesso que até já quase que nos ofende. Ou seja, sabemos que há situações de picos, de facto, de afluência no Serviço Nacional de Saúde, mas a situação neste hospital é diferente. É uma situação em que o hospital está subdimensionado para a população que aqui existe e isto tem muito anos”, afirmou.

“Neste momento, estamos a enganar as pessoas. Estamos a dizer-lhes que estamos de portas abertas e a poder prestar-lhes todos os cuidados necessários para a sua situação. Estamos a falar de pessoas frágeis, doentes e das suas famílias, também elas frágeis e preocupadas com a situação. Estamos a dizer ‘Nós estamos aqui para resolver’ e estamos, nas nossas competências técnicas e científicas, mas não temos condições para exercer o nosso trabalho da melhor forma e é isso que nos preocupa neste momento. Não estão a ser dadas condições dignas a estes doentes”, descreveu.

“Vamos para casa com a sensação de que não fizemos nada por estas pessoas e isso não há dinheiro que pague”.

Em relação à Administração, os manifestantes sentem que “tentam fazer coisas mas sempre sem ideias estruturadas” e com “soluções tampão”. Defendem, por isso, que é necessário “acabar de pensar nisto, de facto, como um pico” e “pensar em soluções de estrutura”. “Não é de um dia para o outro, claro que não é, mas em algum dia vamos ter de começar”, finalizou.

CHTS garantiu que “isto não é uma situação que acontece sempre”

Em declarações ao Jornal A VERDADE, o presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, Carlos Alberto, garantiu que “isto não é uma situação que acontece sempre” e que “a realidade na Urgência é uma realidade que muda todos os dias”.

Explicou, por isso, que, durante os últimos dias, “é preciso não esquecer que o país todo passou por uma onda de calor com uma temperatura altíssima, o que descompensou muita gente, trouxe muita gente às urgências e isso foi realmente um panorama fora do normal”.

Além disso, as ambulâncias dos bombeiros “têm estado afetas ao combate aos incêndios”, o que significa que há “doentes aqui à espera de ser transferidos para outros sítios, para ir para casa, para ir para hospitalização domiciliária”. Para tentar minimizar esse problema, reataram “o trabalho com empresas privadas de transporte”, que “estão já a assegurar transportes de doentes para outros sítios para agilizar todo o processo”.

O responsável relatou ainda que, ao longo do ano, têm “sempre 70 doentes em diferentes hospitais, da Trofa, em Vila Real, em Alfena, em Paredes, em Marco de Canaveses”, mas que “os próprios hospitais privados não têm camas livres e, portanto, não têm disponibilizado vagas para colocar doentes”.

“A acrescer a tudo isto, a empresa com quem estamos a trabalhar para fazer ressonâncias magnéticas – porque nós ainda não temos o equipamento da ressonância magnética a funcionar, vai entrar depois das férias – teve uma avaria no equipamento, o que fez com que os doentes ficassem cá mais tempo, não libertaram as camas, etc.”, continuou.

“Houve aqui um conjunto de circunstâncias, a maior parte delas que nem sequer tem nada a ver com o hospital. Tem a ver com operadores privados que têm as suas situações e as suas contingências, como acontece normalmente em atividades deste tipo todos os dias e, portanto, acumulou”.

“Tínhamos ontem 60 doentes, de facto, é pesado, é desagradável, é desconfortável. Hoje, já só estão 23 e eu quero acreditar que vamos conseguir reduzir ainda mais nos próximos dias”, declarou, sustentando que a diminuição foi devida ao “transporte de doentes”, a colocarem camas extra nos serviços de internamento, entre outros.

Carlos Alberto admitiu que o serviço de urgência é “o serviço mais difícil” que há no hospital e onde têm, “de facto, ao longo do tempo, tido situações que são desconfortáveis, que são exigentes para os profissionais, etc.. e, desse ponto de vista, não há como esconder, há que reconhecer o esforço”.

“A urgência é, como todos sabem, o sítio de maior afluência das pessoas, onde, não tendo outra alternativa, é para onde vêm e nós, hospital, com a nossa dimensão, com uma população tão grande para servir e uma área tão grande, não podemos fechar as portas, não podemos deixar as pessoas por atender, temos de atendê-las todas. Um dos lemas do SNS é que ninguém fica para trás. E nós não podemos deixar ninguém ficar para trás, não só não queremos deixar ninguém ficar para trás na urgência, como também não queremos deixar ficar ninguém para trás no resto, que é a questão das consultas, das cirurgias, etc.”, clarificou.

Acerca da dimensão deste hospital de Penafiel, o presidente reconheceu que, junto com o Amadora-Sintra, “é o hospital do país com maior população e com maior área para servir, agora, também é verdade que não era normal, nunca foi normal”. “Por isso é que não concordo com as afirmações que foram feitas ontem, nunca foi normal que nós, nesta altura do verão, tivéssemos um número de pessoas na urgência que temos tido nos últimos tempos, porque o número de pessoas que estão a vir à urgência agora é um número que era só habitual termos na altura da gripe, nos períodos da gripe, no inverno”, atestou.

Está “em curso um projeto para ampliação da urgência”. A candidatura de “quase dois milhões de euros” está aprovada, mas o concurso ficou “deserto porque nenhum construtor apareceu” com proposta em valor que se enquadrasse no valor proposto. Foi, então, aberto um novo concurso “com um valor superior e, portanto, tem atrasado processo, porque isso, de facto, vai ser feito, é um projeto que está em curso no sentido de ampliar a urgência e dar melhores condições para acolher ali os doentes”.

O presidente do Conselho de Administração do CHTS lembrou ainda que, “à custa do esforço dos profissionais” têm conseguido que as urgências não fechassem, “ao contrário de outros sítios”, e que o hospital está “praticamente sem listas de espera quer para consultas, quer para cirurgia, o que significa uma melhoria na prestação de cuidados”.

Em termos de reforço de recursos, “recentemente, foi autorizada a contratação” de mais de 20 médicos, que, “nas próximas semanas, vão entrar ao serviço”.

“A autonomia que supostamente vai ser dada aos conselhos de administração dos hospitais com a aprovação do estatuto do SNS vai permitir, espero eu, também que possamos ser mais ágeis na contratação de profissionais porque nós temos lugares no quadro disponíveis, temos o quadro de pessoal aprovado com lugares no quadro disponíveis para novos profissionais. Agora, temos sempre o processo de autorização que tem de aparecer, vamos ver agora se com a disponibilização desta autonomia podemos também contratar”, comentou.