Portugal está a atravessar uma crise de falta de medicamentos que se tem acentuado desde setembro de 2022. Perante a escassez existente na indústria farmacêutica, o Jornal A VERDADE esteve à conversa com Vanda Cardeal, diretora técnica de uma farmácia em Paredes.

Vanda Cardeal trabalha na indústria farmacêutica desde 2001 e reconhece que ao longos dos anos existiram “falhas pontuais de alguns medicamentos”. No entanto, e devido à COVID-19, a procura por fármacos aumentou e, a partir de setembro de 2022, a situação tornou-se “mais crítica” com medicamentos a faltar durantes “dias e meses. Alguns esgotam durantes meses, outros têm falhas de abastecimento durante alguns dias”, explica.

Quando questionada sobre os medicamentos em falta, elenca os destinados a “diabetes”, mas também “antibióticos, antigripais e anti-histamínicos”. Neste sentido, Vanda Cardeal tem se deparado na sua farmácia, à semelhança do resto de Portugal, da “falta de medicamentos quando os utentes chegam ao balcão”, o que descreve como “um grande desgaste para as equipas”.

Perante esta rutura, a diretora técnica considera que alguns dos motivos principais é que “os preços dos medicamentos em Portugal são baixos e nós importamos mais medicamentos do que exportamos o que faz com que a nossa balança não esteja equilibrada”.

Para além disso, partilha que o mercado farmacêutico português se encontra “muito dependente do externo” e que a situação é agravada porque os medicamentos “entravam em Portugal e havia uma exportação paralela para outros países”.

Neste sentido, Vanda Cardeal refere que o Infarmed “já tem isso controlado” e que se encontra a “monitorizar as farmácias e os armazenistas” de forma a que isso não aconteça e que os utentes em Portugal possam receber os medicamentos que necessitam.

As farmácias portuguesas também têm tentado encontrar “soluções” junto dos médicos e utentes para “substituir os medicamentos em falta por outra dosagem ou encontrar os princípios ativos em caixas isoladas”, no entanto, Vanda Cardeal afirma que “nem sempre é possível”.

Acrescentando que a indústria farmacêutica em Portugal é “boa, mas ainda não tem capacidade para fornecer o nosso mercado” e, por isso, a escassez tem provocado, por exemplo, deslocações dos utentes até Espanha para adquirir os fármacos necessários.

Outro ponto-chave que Vanda Cardeal elenca para colmatar a escassez de medicamentos é a diferença entre o medicamento original e o genérico, dando como exemplo os fármacos destinados aos diabetes. “Os medicamentos para os diabetes custam 40 euros, mas o utente só paga 4 euros. A partir do momento em que entram os genéricos no mercado o doente passa a pagar 25 euros por um original e 4 euros pelo genérico”.

Esta medida iria permitir que o utente decidi-se se pretende suportar o custo do original, e no caso de optar pelo genérico seria “mais baixo para o Estado e para o utente”. Ao mesmo tempo que, se existir um aumento do valor do medicamento fará “com que o Estado pague um pouco mais, e que o laboratório tenha mais competitividade em colocar o medicamento em Portugal”.

Neste sentido, Vanda Cardeal defende que o aumento do valor dos medicamentos “não fará muita diferença no orçamento das famílias, porque o Estado comparticipa num valor bastante bom e as pessoas estão salvaguardadas”.

Vanda Cardeal termina por afirmar que a falta de medicamentos tem provocado “um desgaste para os farmacêuticos, médicos e utentes”, mas que o “utente está em primeiro lugar” e, por isso, querem garantir que “lhes fornecem exatamente aquilo que ele necessita para que a sua saúde melhore”.