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Penafiel
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Aviso: Se não tem maias na porta, o Carrapato vai entrar-lhe no quarto. O grupo da Velha d’Eiteiro explica

Em Duas Igrejas, Penafiel, há um grupo de 12 amigos que decidiu declarar guerra à seriedade da vida. Entre caldos de "velha", prejuízos de 47 euros e giestas arrancadas "a olho", Celestino Sousa e Hélder Dias revelam como o riso é a única arma eficaz para manter as casas de pijama seco e a memória da terra viva.

Mais do que uma simples brincadeira de balneário ou um passatempo para as redes sociais, o trabalho deste grupo tornou-se o pulmão de uma tradição que ameaçava sufocar sob o peso da modernidade. Num tempo em que as superstições dão lugar aos algoritmos, a 'Serragem da Velha d'Eiteiro' assume a missão de resgatar o folclore local, usando o teatro de rua e a paródia para garantir que as novas gerações não percam o norte, nem o pijama. Com a noite das Maias a bater à porta, fomos perceber como é que o humor se transformou na ferramenta de preservação histórica mais eficaz do concelho.

A génese "divina" e o sucesso do prejuízo

Tudo começou num momento de iluminação no início do século XXI. O cenário não foi um café da freguesia, mas, sim, uma igreja em Vigo, Espanha. Celestino Sousa recorda que estavam a ensaiar o "Aleluia" para o casamento de um dos membros que, farto de viver "amantizado", decidiu casar-se "na lei de Deus". Entre notas musicais e a ausência de um membro gago, surgiu a ideia: reeditar a Serragem da Velha, tradição que parecia esquecida em Penafiel.

A primeira edição oficial arrancou em 2020. O resultado? "Um grande sucesso: só tivemos 47 euros de prejuízo", recorda Celestino. O grupo, que não faz angariação de fundos e paga quase tudo do próprio bolso, viu a iniciativa ganhar proporções inesperadas, coincidindo com o início da pandemia. Com o seu humor negro característico, Celestino atira: "A ideia inicial era partilhar uma doença mundial, as pessoas estavam a precisar de ir para casa, havia demasiadas festas e a mortalidade estava baixa".

Geografia do grupo e o mistério de Bustelo

Embora a maioria seja natural de Duas Igrejas, o grupo tem ramificações curiosas. Há um "retornado" de Bustelo que, segundo Celestino, "não é natural de lado nenhum, é uma coisa incerta que só vista ao vivo, mas que se veste muito bem". Questionados sobre se o grupo é exclusivamente masculino, a resposta é um "mais ou menos" enigmático.

Se pudessem mudar o lema da freguesia, trocariam a Sopa Seca pela "Terra de Homens Bonitos e Inteligentes", mas com um pormenor inclusivo: "Punhamos um H com um H grande, para incluir as mulheres", sugere Celestino, antes de rematar com uma das suas pérolas: "As mulheres só casam com os homens que as fazem chorar, não com os que as fazem rir".

A filosofia do "erro" e a marca "Eiteiro"

O grupo recusa o rótulo de atores profissionais. Aliás, o segredo do sucesso nos vídeos que publicam é precisamente o improviso. "Pensamos no cenário e nas cenas, mas as falas surgem ali. Gravamos uma ou duas vezes no máximo. Se gravarmos mais, sentimos que ficamos mecânicos", explica Hélder Dias. Para eles, a essência está no erro.

A escolha do lugar também não é ao acaso. O Eiteiro (nome que recupera a forma como os mais velhos chamavam ao Outeiro) é o cenário ideal: espigueiros, eiras e um fontanário que servem de museu vivo. "É no Outeiro porque é especial, mas também porque temos as panelas e as couves à porta. Se tivéssemos de andar de carro com tudo, não tínhamos hipótese", admite o pragmático Celestino.

Missão de hoje: Maias vs. Carrapato

Neste 30 de abril, a missão é outra: as Maias. Celestino, o teórico do grupo, explica a mística: "Há a parte bíblica, em que o rei Herodes manda pôr as maias para encontrar a Sagrada Família e a aldeia amanhece toda coberta de giesta. E há a parte pagã, de celebrar o fim do inverno e trazer fertilidade aos terrenos". Mas, há também quem precise de "banhos de maias" para afastar os maus espíritos que trazem agarrados.

Mas, o grande trunfo para chegar aos mais novos é o Carrapato. A superstição é clara: quem não colocar giesta amarela na porta, recebe a visita do Carrapato, que lhe faz xixi na cama. "E não é um xixi qualquer", avisa Celestino, "passa o edredom, vai até ao colchão. É um colchão para o lixo!". Na dúvida, o lema de Duas Igrejas impera: "Mal não faz". Entre o Tinder, que "dá menos trabalho para arranjar namoro", e as Maias, o grupo prefere manter o ritual que outrora criava encontros e namoros à porta de casa.

A seletividade na giesta e os "Anjos"

Na hora de apanhar a giesta, os estilos chocam. Celestino é impulsivo e "pega no que vier à mão". Já Hélder Dias assume-se como um esteta da natureza: "Sou muito seletivo nas Maias. Têm de ser homogéneas e bem amarelas. No resto da vida aceito o que vier, mas nas Maias sou exigente", diz com humor.

Para alimentar a multidão esperada, o menu mantém a tradição da "Velha": Caldo e Carne de Porca. "Podia dizer que já tínhamos as tigelas compradas até 2026, mas não. Damos continuidade ao trabalho, o nome está feito, o bar é no mesmo sítio", explicam. O cartaz musical conta com os Anjos da Vista Alegre. "São os nossos anjos, mas não vão ser nada baratos, temos de faturar muito no bar", ironizam os organizadores.

O futuro e o pedido de silêncio

Empresários e gestores de dia, "maluqueiros" de noite, o grupo de 12 amigos vê na geração mais nova a força para continuar. A geração dos 25 anos já está integrada e "cobra" a realização das iniciativas. Se tivessem de eleger o "Carrapato" real? O nome é consensual: Rui Santos (o Rui Miguel), o que faz muito desporto ou, como diz o Hélder, "pelo menos mete muitas coisas no Instagram".

Para hoje, além da diversão, deixam um apelo invulgar. Mais do que angariação de fundos (que só fazem através de t-shirts e de uma caminhada anual), o que pedem é brio: "Precisamos mais de silêncio do que de dinheiro. Se as pessoas fizerem silêncio durante o teatro, vai ser brutal". No final, se não houver um novo prejuízo de 47 euros e se as camas de Duas Igrejas amanhecerem secas, o grupo poderá dizer que a missão foi cumprida.