Conheça a história de Pedro Duarte, um jovem lousadense de 22 anos, que lutou para ter a liberdade de viver no género com o qual sempre se identificou, com o apoio da família e a ajuda da medicina.

São vários os motivos que conduzem a dúvidas de identidade, mas para algumas pessoas, as hesitações são certezas quando se veem ao espelho, a chamada transgeneridade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se de uma “incongruência de género acentuada e persistente entre o género vivido pelo indivíduo e aquele atribuído no nascimento”. Na gíria popular, pessoas transgéneras são aquelas que não se identificam com o sexo biológico com o qual nasceram, e que ainda vivem presas em tabus e preconceitos e motivam dificuldade de aceitação da própria identidade.

Quem sou eu? Uma questão que assombrava os dias de Pedro Duarte, “a pior sensação do mundo”, para quem vive num corpo que não lhe pertence. Olhar diariamente para o espelho e não gostar do que via era uma constante na sua vida, um sentimento que se acentuou com a entrada na adolescência. “O pior foi quando comecei a crescer, fui-me sentindo cada vez pior”, confessa Pedro.

Em criança (antes da transição de género)

Desde sempre percebeu que era diferente e que não se sentia bem no seu corpo, mas com a falta de informação daquela altura “nunca soube que era possível fazer essa transformação”. O que parecia “impossível” tornou-se uma certeza aos 16 anos quando conheceu uma história de transformação num programa de televisão e foi aí que teve “a certeza do que queria”. Um exemplo que lhe “salvou a vida” e que o fez “não desistir numa fase muito complicada”.

Apesar de ser “inesperada”, a decisão da transformação foi, desde logo, apoiada pela família que reagiu de uma forma “muito positiva. Para a minha mãe, a primeira a apoiar-me, não foi um choque, mas ao mesmo tempo que estava à espera, foi também inesperado”

Após a primeira cirurgia (mastectomia)

O processo de transição começa com uma avaliação psicológica, “procedimentos habituais até começar a transformação”, que, inicialmente, lhe provocou a “mudança de voz e o crescimento da barba”, resultado da testosterona que Pedro tomava “mensalmente”. Apesar de um início difícil, principalmente para a avó, a mudança de nome, Pedro é hoje “um orgulho” para a família. O nome Pedro já estava escolhido há algum tempo, mas a escolha de Duarte contou com a ajuda das amigas. Há dois anos realizou a primeira cirurgia, a mastectomia, o início de um processo que “ainda continua”.

Quando iniciou a transição, e apesar de ter praticado andebol , futebol e  basquetebol, Pedro Duarte considerava-se sedentário, também porque “nunca tinha encontrado” algo que o motivasse. Triste com o peso que tinha e sem uma alimentação cuidada, decidiu inscrever-se  no ginásio e foi aí que conheceu a realidade do bodybuilding. Hoje, é o primeiro a transsexual a entrar no mundo do fisioculturismo e soma o objetivo de entrar na competição.

Apesar de um preconceito quase desvanecido, Pedro Duarte revelou que, durante o percurso escolar, passou “por maus momentos”, pautados por situações de bullying que impediram a conclusão da escolaridade. “Estou neste momento a completar o 12º ano, porque não terminei a escolaridade. Sofri muito na escola e nunca consegui acabar”, partilha ao Jornal A VERDADE.

O jovem acredita poder vir a ser uma fonte de inspiração para outras pessoas que partilham a mesma luta. “Não desistam. As pessoas têm de nos aceitar como nós somos” é a mensagem que deixa a todos os que lutam pela sua identidade e pelos sonhos que “só são impossíveis até serem alcançados”.