Ana Rocha vive na freguesia de Bem Viver, em Marco de Canaveses, tem 74 anos, cinco filhos, onze netos e três bisnetos e possui como lema de vida “parar é morrer”, logo, nunca para.

Viveu durante 34 anos numa casa e vive há mais de 20 num apartamento, mas o seu “suspiro” é voltar a ter uma casa. Contudo, reconhece o privilégio de ser a única pessoa nos apartamentos com um terraço, que lhe permite “juntar a família”. Ainda vê algumas casas, mas sabe que a idade não permite.

Ficou viúva com 46 anos e não quis voltar a casar por causa dos filhos e porque não se vê “a dormir com outro homem”. Ana Rocha recorda o marido com “muito carinho, saudade e como um homem trabalhador e cuidador”

Nessa altura, viu-se obrigada a ter “muita força”, porque teve que “lutar muito”, com cinco filhos “não era fácil de viver” e precisava de os “sustentar”. Fazia almoços para casamentos, batizados e comunhões e trabalhava no seu campo e no campo dos outros, às vezes recebia dinheiro outras vezes levava uma “tigela de feijão ou uma saca de batatas para casa, como era antigamente”. As filhas tinham que fazer o almoço, enquanto a mãe trabalhava.

Na verdade, Ana foi “mãe duas vezes”, começou a cuidar da sua neta Isabel quando tinha dois anos. “Ai foi maravilhoso, porque fiquei sozinha na maré, fiquei sem o marido, depois eu ia buscá-la à mãe e ela vinha toda contente, lá dormia comigo e foi ficando”, relembra. Acrescenta que a neta “apegou-se muito a mim, chama-me avó, mas sente que sou a mãe dela”. A mãe de Isabel “caminhou para a Espanha, França…” e a avó fez “tudo aquilo que pode”.

Ajudar os outros é uma característica sua. Cuidou durante nove anos de uma senhora e, agora, cuida do filho dessa mesma senhora há 16 anos. Confessa que faz o bem pelos outros e recebe o retorno: “foi uma boa ajuda que me apareceu, que me aliviou, porque eu com a reforma que tenho eu vou para perto, só para pagar as despesas da casa não chega, este senhor dá-me a reforma dele”.

Ficou mais “presa, mas está tudo bem”. Continua a manter a sua rotina, “levanto-me cedo, vou ao campo, já estava a pôr uma cebola no tacho para fazer o refogado para adiantar o almoço, arrumo… faço assim o meu trabalhinho. Às sextas-feiras limpo a Igreja e o Salão Paroquial”, diz que há “sempre o que fazer”.

Apenas com dez anos de diferença entre o cuidador e a pessoa cuidada, Ana refere que é uma “grande responsabilidade” e está consciente de que o Sr. Luís ainda “lhe pode dar muito trabalho”, mas foi um compromisso que assumiu.

A logística dentro de casa também “não é fácil”, já que tem dois quartos, um deles reservado para o Luís e o outro para si e para a sua neta Isabel. Aos fins de semana quando chega o namorado da neta, fica a dormir no sofá da sala.

A mulher de 74 anos precisa de se manter ativa. O sofá não é para si, “o sofá é só para dormir, não gosto muito” e diz aflita que “se me dissessem, não vais para o campo hoje, eu não sei o que ia ser de mim, eu aqui metida dentro destas duas paredes o dia inteiro, deus me livre… a gente tem sempre o que fazer” e destaca que “gosto de ir, de falar, conversar um bocado, gosto muito e gosto de ir ajudar”.

Ana Rocha deixa uma mensagem às pessoas da sua idade, que se encontram ou estão perto da reforma, para que, se tiverem saúde, não fiquem “alapados no sofá” já que “parar é morrer”

Texto redigido com o apoio de Daniela Lenchyna.