Não só a ligação familiar une António José e Cristiano Cunha. Pai e filho carregam o andor da Majestosa Procissão da Romaria da Senhora Aparecida desde os 18 anos, respetivamente. 

Foi por uma promessa que António José, de 55 anos, entrou na tradição. “Fui tirar a carta e disse para mim ‘se conseguir vou pegar no andor da nossa senhora’”

E, assim foi. Desde 1987, há precisamente 35 anos, que se agarra “à fé pela Nossa Senhora, para conseguir chegar ao fim da procissão”, recorda em entrevista ao Jornal A VERDADE.

Tem ido todos os anos, exceto naqueles que “a pandemia não permitiu e num ano em que fui operado. Mas sempre que a Nossa Senhora saiu fui sempre no andor”, conta. 

António José vai “debaixo do andor” num lugar que se mantém “desde sempre. Às vezes, as pessoas vão e marcam, põem um pano, mas eu digo que é escusado marcar, porque é o meu lugar”.

Depois de 35 anos a manter a promessa, o que sente é sempre o mesmo: “leveza. Acabo a procissão com a consciência tranquila e parece que nossa senhora me ajuda”

Apesar de todo o peso carregado, António José garante que “quem vai por gosto e fé, nunca fica cansado. Parece um peso insuportável, mas chegamos à hora e dizemos que estamos aqui prontos. Temos de ir com amor, senão não vale a pena ir”.

Este ano, por motivos de saúde, não vai cumprir a promessa e é “triste estar presente e não poder ajudar. Mas o futuro é continuar“.

António José reconhece que é “importante que os mais jovens continuem as tradições, porque é triste vê-las acabar”. E, muitas vezes, são os filhos que continuam essa vontade, como é o seu caso. “Para mim é um orgulho. Ele vê que o pai que vai com fé”.

Cristiano Cunha seguiu as pisadas do pai, e com 18 anos, a mesma idade que o progenitor, começou a carregar o andor. “Comecei porque o meu pai já ia há muitos anos. Dizia que iam ser os últimos anos e que não havia gente para o substituir a ele e a quem ia debaixo do andor. O colega ia à frente e disse-lhe que cedia o lugar quando saísse, porque era o mais velho”, conta.

Foi aí que António José sugeriu ao filho que entrasse na tradição e, apesar de achar que “ainda não era altura para isso, surgiu a oportunidade” e Cristiano decidiu “entrar na experiência”.

Nesse primeiro ano, o jovem de 30 anos foi para “o meio do andor”, atrás do pai, e confessa ter vivido uma experiência “um pouco complicada. No início custou um bocadinho porque é desconfortável. Mas é gratificante e uma grande emoção”.

Sendo um filho da terra, Cristiano Cunha acredita viver uma “emoção diferente”, numa procissão com um percurso “complicado”, mas que se continua por uma questão de “fé. É pela emoção, alegria e espírito das coisas não acabarem, que continuamos”, conta.

São “vários” os jovens que entram para o grupo que carrega o andor, mas “ainda faz falta malta jovem para carregar o andor e sentir o peso da emoção que se carrega, da responsabilidade”.

Tal como o pai, Cristiano Cunha não vai carregar o andor, este ano, mas “de uma forma ou de outra estou presente. Aliás, este ano sou festeiro”.