Opinião

Viagem pela serra

A Verdade

10-06-2021

Artigo de opinião de Lúcia Resende.

Nessa serra, sublime, de altos e baixos. Rochedos e rochas. Entrecortadas por fendas e vegetação densa, mas miúda, prossigo os meus passos, ofegantes e custosos, por entre chamiças e paus, deitados e partidos, nas ondas desse monte. Contemplo a plenitude dessa vista, longa e imensa, até onde os meus olhos conseguem chegar, em silêncio de multidão, mas nas vozes da minha memória e do meu passado, por ali percorrido.

E nesse atingir sublime, de respiração pura e livre de preocupações, dos rodopios e corrupios, do dia-a-dia e da conjuntura que pesa na alma e no coração, avanço firme, convicta do que está para trás e do que há, ainda, a percorrer. Os animais lá vão parando e rapando as miudezas que brotam do solo, outrora mais fértil e recheado de pasto adensado. E subindo e andando, conforme as indicações que lhes damos, ouço-lhes os guizinhos e o trepidar dos arbustos partidos, à nossa passagem. E de cada giesta e urze, que tento, e tenho de desviar, procuro reconhecer as passadas do antigamente...

Não encontro semelhanças com o antes. E tanto me lembro desses bons tempos, do antigamente, que já só os antigos, se recordam... da alegria, convívio e jovialidade. Da vigia do gado, até ao Perneval… e das idas ao Alqueve buscar erva, nos carros das vacas... das pessoas, com quem íamos e que por lá se encontravam. E deixa saudades... Muitas! Em nada, está o monte parecido... Cheio de paus e chamiças. Ausente de passagens! Sem os caminhos notados, ou os carreiros marcados... Já não se notam as três poças que procurei, em Alfanar. Não vi os carreirinhos, outrora marcados... E já não se passa pelos caminhos dos carros de vacas... A beleza e encanto dessa serra ainda se mantém... Mas, a serra vive em solidão, da gente humana.

Subo mais um pouco, a custo, do declive a pique, em subida íngreme e difícil de alcançar. Depois, de chegar ao Monte dos Frangos, sento-me, ali recostada, a uma pedra, arredondada, de formas pouco singulares, e chego-me, para debaixo da sombra dessa urze, tombada, pela força do peso, da verdura que desponta e floresce, sem ninguém a mandar. Tomo fôlego. Inspiro e expiro e deleito-me da paisagem que observo. Relembro-me dos tempos idos.

As vindas e idas, naqueles trajetos. Nessa serra, que me viu crescer. E onde, tantas vezes passei… Que, hoje, já não me conhece os passos. Nem eu lhe conheço o trajeto, os penedos e as rochas. Onde, tantos trilhos, ali percorri. Miúda, criança. Cheia de energia… No encalce dos meus pais. Dos familiares. E com os animais. Que, agora, revivo esses tempos, ao respirar, o ar puro da serra. Os cheiros do monte. E no contemplar da sua beleza e emoção. Para, assim, recordar. Reviver muito... E, para sempre, guardar na minha memória e no meu doce coração!

Lúcia Resende