Opinião

Que é feito dessa gente?

A Verdade

06-06-2021

"Que é feito de toda essa gente e desses tempos idos? Que tempos idos, não voltam mais. E não mais voltam a ser. Porque, hoje, já não o são. Que dessa gente, e desse tempo, já poucos sabem dele. E poucos para contar, cá estão."

Que é feito dessa gente, que vivia num quarto-cozinha, envolvida por uma debandada de filhos e ali se deitavam, numa espécie de cama, feita de palha? Que, leite não tinham, e de água e farinha se amamentava, os que ali nasciam…

Que é feito dos pés descalços e das longas épocas de inverno e duras camadas de neve? Que pouco mais tinham, que a veste do corpo, do dia de trabalho e uma muda de roupa de sair, para lavar e secar, para o dia da missa…

Que é feito dos lenços de merino, das blusas de colarinho rodado e das saias plissadas? Que mais não eram que a moda, das modas, de gente sem moda, mas que à moda delas faziam, a moda que se podia…

Que é feito dos homens de braços fortes, robustos e musculados, pelo duro trabalho do campo? Dos eternos namoradeiros, na janela ou na fonte, que cobiçavam as moças, para ser seu par, naquele bailarico, ali arranjado…

Que é feito das mulheres com carregos, à cabeça, de casa-em-casa, até às feiras ou à estação, por caminhos percorridos, em troca de doces e azeite, venda de milho e feijão? Que eram elas o transporte de outrora, por vales e planícies, montes e serras, para produzir o sustento e criação…

Que é feito da água de manteiga de manhã, das gemas batidas para dar força e das sopas de manteiga? Das papas de milho, do feijão com couves, das habituais painças e de uma sardinha para dois? Que não havendo mais o que fazer e sem dinheiro para outras coisas ter, assim satisfaziam a fome, dos que tinham de criar…

Que é feito da pinga de vinho verde, feita no lagar, que depois originava a aguardente? Que era a pinga da pujança e valentia dos homens. Cura para a dor de dentes e para as maleitas musculares, da lavoura, em dias árduos e ásperos…

Que é feito do pão de trigo, que nas mesas não existia, senão na noite de Natal? Que era escondido, das mãos hábeis, daqueles que, em ânsia o viam como um manjar, rei da quadra natalícia, usado para os formigos tradicionais...

Que é feito da gente que cortava mundos e fundos, sem que estrada houvesse, sem sinalização que existisse, num destemido ir e vir? Que nessas idas e vindas, nelas se tocava o realejo, se dançava uma musiquinha, se calejavam os pés, de socas velhas ou mesmo descalços, fosse inverno ou verão...

Que é feito das histórias que contavam, que assustavam ou animavam; das doenças talhadas e das crendices impostas? Que delas, tanto havia a retirar. Tanto a aprender. E tudo se acreditava e se fazia, desde que a saúde fosse para vir...

Que é feito da escolha da palha, de quem fazia a trança, convertida em chapéus, em cestas e cestaria, em abanadores e candeias? Mulheres de dedos sagazes, numa perfeição trabalhada, em fazer e costurar…

Que é feito dos moinhos que moíam a farinha, fruto do milho trabalhado a meias ou de terços, alimento, para o pão de milho, muitas vezes, reinante da refeição? Que, pouco mais havendo, com um caldo, se misturava. Ou por baixo duma sardinha, era mantença e valia, para sustento de mais um dia…

Que é feito das cegadas e da malha do milho e do centeio? Onde elas se exibiam trabalhadeiras, com merendas recheadas e os seus cânticos entoados, em ecos e sintonia… E eles mostravam a força e destreza de jovens aptos e trabalhadores, em jeito de um bom partido, para casar…

Que é feito dos Doces das Júlias, do pão leve, das cavacas e dos merlindes? Os doces da Páscoa, vendidos de feira em feira, que deliciavam quem os comprava, a par de uma xícara de café. À cabeça, eram levados, por entre montes e vales, e a pé seguiam, que dessas viagens, se tornaram famosos e populares…

Que é feito dos dias da vessada, lavradas por quem percebia, com vacas vistosas e chamadas por quem sabia? Ali, cavadas as leivas por gentes vindas de várias aldeias, pagas, por uma sortida merendinha e pela humilde troca, de favores e serviços…

Que é feito da vigia do gado, dos apupos para as portas lhes abrir e da responsabilidade coletiva aos animais, dos lobos proteger? Que por entre cães de guarda, que eram de todos e de ninguém, o trajeto pelo Montemuro, acima e abaixo, em jornada se fazia…

Que é feito das juntas formidáveis, de vacas e dos carros carregados com erva seca, mato verde ou centeio em braçados? Que de majestosas carradas, pelos lugares se passavam, com vacas esmeradas e bem tratadas. Que todo e cada trabalho, por elas era puxado e nelas, se tinha brio e vaidade…

Que é feito das desfolhadas, no meio das eiras, à procura dos reis das espigas, que a sorte lhes trazia? Que por eles ansiavam, os eternos namorados, para com aquela cachopa dançar, que no coração lhe pulsava e a quem queria namorar...

Que é feito da reza do terço em família, ao redor da fogueira acesa e dos pedidos a Santa Bárbara, quando trovejava? Dessa crença, tão crente e reigada, refúgio e proteção para todos, em constante dedicação, do dia-a-dia.

Que é feito do Carnaval, do Compadre e da Comadre, dos rivais moços e moças, e das travessuras de S. João? Quantos assim padeceram, molhas as apanharam, ou se enfarruscaram, nas mãos de temíveis adversários. E pela moçarada jovem, tantas travessuras, à porta, encontraram…

Que é feito do pão que se partilhava e que, generosamente, se emprestava, a título de moeda de troca? Dessa simplicidade de uma malga de caldo de feijão e couves. Ou de umas sopas de leite… Que tanto eram, para quem nada tinha. E tão pouco seria, para quem, mais queria dar.

Que é feito dessa gente tão humilde e prestativa, que outrora se desfazia em trabalho duro e áspero? Que dessa dureza, se lhes cobria o rosto em suor e a pele se lhes tingia de negrura. Mas em cantigas e danças, logo esquecia e se refugiava, da aspereza, desse dia…

Que é feito dessa humanidade ágil e pronta para o outro? Feita do terreno fértil de lavoura, de todos os que ali acudiam, em união, em interajuda e em partilha, quando tão pouco havia a partilhar, mas tanto a doar…

Que é feito de toda essa gente e desses tempos idos? Que tempos idos, não voltam mais. E não mais voltam a ser. Porque, hoje, já não o são. Que dessa gente, e desse tempo, já poucos sabem dele. E poucos para contar, cá estão.

E muitos dos que cá vivem ou passam, não sabem, nem ideia têm como eram esses tempos idos… E, apenas, então, restam memórias. Sobretudo boas lembranças, do que é feito dessas gentes, que só na nossa memória, permanecem e sempre ficarão.

Do tanto que nos contavam. De tanto que nos inspiravam. E muito, nos orgulhavam!

Que em linhas resumidas, faço registo, dos tempos outrora, que diziam “tempos duros, mas que eram tempos felizes” e tempos bons, de coração!

(texto escrito, com base nas histórias do meu querido avô, Antero Resende. E nos relatos, da doce “tia” Lucinda. À memória de ambos, o dedico! Assim, como a todos e muitos mais, de tempos idos, com quem convivi, muito aprendi e nunca esquecerei…)

Texto: Lúcia Resende

(autor de algumas imagens: Alfredo Figueiredo)