Opinião

Donzília e Herculano, 52 anos de casados… Bodas de Argila

A Verdade

31-05-2021

“Porque eu sou filha de um moinho sempre a moer e de um eterno soldado, sempre a marchar… com muito orgulho destes dois!”

O meu pai, Herculano Resende Silva, nascido a 25 de Dezembro de 1943, em Cimo de Vila, Tendais – Cinfães, filho mais velho de 4 irmãos, desde os seus 10 anos, foi criado por um tio amável (António dos Santos), em troca de trabalho no campo. A minha mãe, Donzília Rocha Resende Silva, nascida a 30 de Maio de 1944, em Macieira, Tendais – Cinfães, é a quinta filha mais velha de 8 irmãos vivos, num total de 13. Com algumas zangas pelo meio e com a ida do meu pai para a tropa, namoraram cerca de 7 anos e vêm a casar-se, na Igreja de Santa Cristina de Tendais, a 31 de Maio de 1969.

Sem eira, nem beira, (o vestido de noiva da minha mãe foi alugado e os sapatos eram emprestados), partem para Lisboa, em busca de melhores condições de vida. Lá, a minha mãe trabalha numa fábrica de polpa de tomate (que, por isso, nunca gostou de tal na sua cozinha) e o meu pai, na fábrica do brito e do sabão… Moraram, numa barraca alugada, no Bairro Chinês e passado um ano, a 8 de Março nasce a Anabela, a filha mais velha, “que era muito linda” (como a minha mãe sempre me diz, quando fala nela) e que viria a falecer aos dois meses e meio, vítima da febre tifoide. Momento doloroso e pesado, que se vêm obrigados a ultrapassar... As pessoas da aldeia tentaram amenizar-lhes a dor, referindo que “Deus levou-a, porque é bom ter um anjinho no céu, a zelar por eles”. Ao que o meu pai sempre respondeu: “se fosse eu que mandasse, nunca Ele lá a agarrava”.

A 5 de Março de 1971, nasce a minha irmã Isabel e a 10 de Abril regressam à aldeia, porque o meu pai não se havia adaptado bem, na capital. Com 8 contos no bolso, vieram fazer terras de meias e de terços. Ou seja, tinham de entregar ao arrendatário das propriedades e dos animais, metade do lucro produzido. E nalguns casos, dois terços, do que produziam. Viveram num quarto/cozinha, anexo ao palheiro, do tio que criou o meu pai, grande parte do tempo, à luz da candeia, onde dizem: “só não nos chovia na cama”. Ali nasceram o meu irmão Adérito, a 14 de Abril de 1973 e a minha irmã Mila, a 9 de Dezembro de 1976. Mais tarde, quando os meus pais tiveram possibilidades, compraram a casa onde hoje vivem, deram-lhe um jeito e, sem contarem ter mais filhos, foi onde eu vim a nascer, a 10 de Agosto de 1984.

Ao longo do tempo, foram sempre adquirindo alguns terrenos e casas. Construíram um palheiro, em Catrapassa, de raiz, todo em pedra, à força de braços, sem a ajuda de máquinas, ou tratores. Compraram a casa da Corte Cabo e fizeram as obras, por fases, conforme as iam podendo pagar. Ainda me recordo, que esteve anos, com a casa-de-banho e os dois quartos prontos e no restante da casa, ainda em grosso, desfolhou-se lá o milho.

O meu querido paizinho, homem valente e determinado, honesto, reto e de bem-fazer, que sempre foi, e é, o seu corpo em nada, lhe deve obrigações…Carrega imenso trabalho árduo, muitos dias de suor e tantos km, ele suporta naquelas pernas… No Natal de 1964, fez a viagem, a pé, da estação de Mosteirô, a Cimo de Vila, sempre com uma mala de madeira, na mão esquerda e a direita ao ombro, devido a uma lesão, da clavícula, resultante da queda de um salto mortal, na tropa. Do posterior colete de gesso mal colocado, que se traduziu numa cirurgia, arrecadou problemas crónicos, no ombro direito. Há mais de 30 anos, inúmeras vezes, fez a pé, o trajeto de Cimo de Vila, ao Perneval, carregado com tubos às costas, para a rota, da canalização de água pública, que hoje abastece Cimo de Vila e o Lugar D’Além. Sempre foi como um galgo para andar, com as botas de soldado, que nunca conseguiu descalçar. E pelas terríveis dificuldades que teve ao longo da sua vida e devido às marcas do Ultramar, para mim é um eterno soldado, sempre a marchar.

A minha querida mãezinha, muito trabalho ela carrega naquele corpo. Nas mãos. À cabeça. E nas costas, que agora, lamentavelmente, lhe falham… Tanto trabalho envergou durante o dia, que se prolongava noite dentro… Frequentemente, a lavar ou costurar roupas, para vestir aos filhos, no dia seguinte. Imensas vezes, eu ia fazer-lhe companhia, à casa do forno, enquanto ela peneirava a farinha, para no outro dia, cozer o pão. E depois, ainda ela tinha de me carregar ao colo, no regresso a casa, por eu ter adormecido. Tantas vezes, a vi encher os salpicões, as moiras de sangue e as farinhotas ou a fazer os típicos Doces Tradicionais das Júlias, para ela (e gratuitamente, para quem lhe pedia) até altas horas da madrugada. Tenho muito presente na minha memória, as idas constantes, com a minha mãe, a Barrondes, ao moinho… Ela, para lá, carregada com o saco do milho à cabeça e na volta, carregada com a farinha moída. E como sempre foi uma força sobrenatural de trabalho, por isso, lhe chamo um moinho, sempre a moer.

Os meus pais sempre trabalharam de sol a sol. Desde o primeiro raio do amanhecer, até ao anoitecer. Não foi fácil alimentar seis bocas, onde nunca se passou fome, mas nada era para estragar. Não foi fácil viver do esforço, do trabalho árduo, do campo. Não foi fácil cada episódio de doença. Não foi fácil lidar com o temperamento do meu pai. Não foi fácil ultrapassar a amargura de quem lhes paga o bem que fizeram, com a maldade, a falta de educação e de respeito. E não tem sido fácil a saúde falhar e a idade pesar, quando tudo o resto está estabilizado e há dinheiro e tempo de sobra.

Tudo o que, hoje, têm, alcançaram e construíram, é fruto do seu imenso trabalho e suor. Que penosamente me recordo, tão bem, de os ver, com os lenços da mão, de pano, a limpar o rosto transpirado, pelo esforço do trabalho do campo, debaixo dos raios tórridos do sol. E, com esses mesmos lenços, os vi enxugar as lágrimas, das discussões e/ou dos dissabores da vida. A eles, nada lhes caiu do céu. Nada lhes foi facilitado. Não tiveram ajudas monetárias de ninguém, nem heranças que os pudessem auxiliar. Tudo foi feito, conforme as suas posses financeiras e consoante podiam pagar. Nunca pediram empréstimos! E nunca se endividaram.

Os meus pais construíram mesmo muito… Partiram do zero e sempre com base na honestidade, integridade e retidão. Atualmente, têm 4 filhos, criados com valores e princípios e 6 netos. Ajudaram-me a tirar um curso superior. Têm, boas ou fracas, grandes ou pequenas, antigas ou renovadas, 4 casas. Uma dúzia de terrenos e o seu pezinho de meia. Hoje, ambos com 77 anos de idade, com custo, mas por gosto, ainda se dedicam à agricultura. Têm animais e teimam em continuar com uma arte, outrora o seu sustento, agora um entretenimento. “Trabalhei tanto para ter isto e custa-me ver as coisas ser deixadas a monte” – dizem-me amiúde… Sempre foram pessoas de trabalho e não sabem estar quietos, ou sem fazer nada. Foram (e são) pessoas do bem. Éticas e morais. Muito generosas e bondosas. Sem nunca, mas nunca, prejudicar o outro...

Neste preciso dia, celebram 52 anos de união e de vida em comum, que o amor soube alicerçar, de forma a resistir às contrariedades, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. De forma a resistir às nuvens negras, que ensombraram os céus luzidios. De forma a suportar as pesadas cruzes, que tiveram de ser carregadas. De forma a tolerar as amarguras da vida, que tiveram de ser ultrapassadas. Num percurso, cheio de pedras no caminho, mas onde as provas de amor, de tolerância e de resistência… da existência do perdão, de lutas e vitórias, provou a existência de Deus, na vida deles.

Os meus pais são pessoas raras... De rara beleza e humildade. De sentimentos raros, de bondade e do bem, de luta, coragem e força de vontade. E a superação das suas batalhas, ensina-me a enfrentar com bravura as tempestades e a ter olhos sensíveis para a beleza e perfume, que a vida traz, a cada dia. Porque eu sou filha de um moinho, sempre a moer e de um soldado, sempre a marchar… com muito orgulho destes dois!

Lúcia Resende

Texto: Lúcia Resende