Opinião

Fraco Asseio do Mundo

A Verdade

22-05-2021

Crónica de Paulo Sousa, vencedor do Prémio de Criação Literária Adriano José Carvalho e Melo, com a obra «Cartazes com Sorrisos».

A fugaz existência de Vladimir Kuzov permite reflexões únicas, inspiradas nas suas observações. A sua intermitência entre ser e não ser, cimenta o secretismo com que um ser tido como irreal contempla a realidade contida no mundo. E este é o mundo derradeiro, aquele que nos importa, que nos faz sentir a dor, a alegria, a tristeza e tudo o resto; o mundo onde nascem todos os mundos fictícios e as hipóteses de realidades paralelas. Face a este esclarecimento revelador da nossa possessão de vários mundos, é imperativo que se compreenda que o terceiro planeta a contar do Sol é tão real como Vladimir Kuzov e que não há distinções entre isso e os unicórnios na imaginação das crianças. Em que outro mundo existiriam unicórnios senão neste, de onde são originárias as palavras que imprudentemente vou digitando.

Sempre que o meu pensamento esbate contra as observações que me são emprestadas por uma sombra, a natureza muda a sua forma e atinge-me com uma pancada que me provoca dor e que me acorda – momentaneamente -, evidenciando perante mim a realidade vislumbrada por um ser irreal.

Uma mãe e a sua filha estão no carro e aproxima-se a hora de jantar. A mãe é adulta e a filha é uma adolescente perto da idade adulta. A fome vai apertando, bem como o tempo que encurta a distância para uns compromissos banais. Por força da pressa – uma doença em voga no nosso século – elas decidem ir buscar o jantar a uma famosa cadeia de comida rápida, onde nem precisam sair do carro para fazer o pedido. Aquele cheiro que cava um buraco maior no apetite de ambas, não impede uma breve discussão acerca do local onde vão parar o carro para rapidamente devorarem a sua refeição.

A única certeza que tenho, para já, é que a cadeia de restaurantes em causa não paga aos clientes para estes publicitarem a sua marca, espalhando as embalagens pelo chão em quantidades no mínimo lamentáveis para quem deve ter a consciência e a noção daquilo que a poluição provoca e qual o destino do planeta se os nossos hábitos não mudarem e não se tornarem mais ecológicos. Vladimir Kuzov concorda com esta interpretação e no momento em que vê o carro da mãe e da filha a estacionar, pensa exactamente no quão injustificável é, aquela zona da cidade estar repleta de lixo.

As duas de quem já falamos, não fugiram ao típico comportamento de muitos outros. Como se os maus hábitos fossem contagiantes, também elas decidiram atirar com as embalagens da comida pela janela fora, rumo ao chão. Embora hajam caixotes do lixo e pontos de reciclagem a poucos metros do local, há uma permanência doentia destas práticas. Se disse que a pressa era uma doença, também o é a preguiça: visto que podem ser as únicas culpadas para que se suceda o que aqui está relatado.

Embora isso seja pouco usual, a quietude ausentou-se um pouco de Vladimir Kuzov. A sua expressão alterou-se, enquanto era dominado pelo seu extinto. Se há o direito de qualquer pessoa poluir as ruas e todos os cantos do mundo que é de todos, então talvez tenhamos o direito de retaliar e poluir a propriedade dessas pessoas. Dominado por tal congeminação, atirou para o interior do carro das duas mulheres todo o lixo que tinha acabado de chegar ao chão, afirmando aos gritos que era possuidor dos mesmos direitos que elas.

Por vezes confundo-me se foi Vladimir Kuzov ou eu próprio a realizar tal acto de revolta espontânea. Independentemente de tais dilemas, devemos abrandar. Esta pressa constante, desde a comida rápida ao arremesso para o solo daquilo que achamos não ter tempo para colocar nos sítios apropriados para o lixo, pode ser a nascente de um rio de arrependimentos. Isto é um paradoxo: tanta pressa para chegar mais depressa a uma altura em que só nos resta parar e onde tudo o mais, para além da sobrevivência, começará a parecer irrelevante, fruto de todo o mal que foi feito.

Crónica de Paulo Sousa, vencedor do Prémio de Criação Literária Adriano José Carvalho e Melo, com a obra «Cartazes com Sorrisos».