Opinião

Desconfi(n)ar: à pandemia, exige-se fim.

A Verdade

11-04-2021

Leia a crónica de Jorge Filipe Pereira.

“Abre-te, Sésamo… dos cafés, dos restaurantes, da circulação sem restrições ao fim de semana, das escolas, dos ginásios, das escolas de condução, dos museus, e por aí fora…venha o mundo a nós de novo”.

Quem disse que as catástrofes se vestem em pele de cordeiro, provavelmente apela ao cepticismo crítico da arte da pastorícia: “até onde conseguiremos ir sem que se perca uma ovelha?”, “Até onde conseguiremos ir sem que se perca novamente um rebanho?” e “Até onde conseguiremos ir sem que precisemos de qualquer detrimento em relação a nós, a uma ovelha ou à totalidade do rebanho?”
A noção de deixar um rebanho à solta quase troça de si. Afinal, há sempre quem o persiga: seja quem paste, seja o predador, até por caminhos misteriosos. E qualquer ser, dependente de guia, que ouse pensar que não o é, provavelmente, fará asneira por ver-se, sobretudo, como individualista.

Vivemos numa situação em que a homonímia entre “vagas” e “vagas”, nos faz temer o início de uma nova e, em simultâneo, nos alimenta a procura de outra num lugar seguro… é mais ou menos isto ou, vendo o aumento da percentagem de vacinação, já podemos pensar novamente num desleixe coletivo que não nos faça restringir tanto o nosso apetite de vivência, e a próxima festa está à mesma distância da perda da próxima vida.
…Rufam os tambores neste cliché de escrita para avisar que isto ainda não acabou – e não vou utilizar exclamação, pois é minha e vossa obrigação banalizar qualquer frase que represente um aviso apenas com ponto.
Como podem ler, é bastante claro o que escrevo, mesmo que lhe tente colocar mística e falhando redondamente, - ou sem qualquer almejar de reivindicação de embaixador da noção, coisa bastante comum por entre vales de redes sociais – mas, às tentativas-erro, exige-se escassez; à pandemia, exige-se fim; a nós, exige-se o mínimo de estupidez.

Lentamente, iremos sentir o aroma do que tomávamos por banal, e acabaremos guerras amanhã, “lutando” hoje, bastando-nos simplesmente saber sair de casa com algum cuidado.

O rebanho, ao menor descuido, vai da clausura ao abate – o que, por si, já é mau -, vai da erva fresca à morte, vai do ser ou não ser, e eis que a questão não está apenas no guia, mas em quem tem bem assente em si a responsabilidade dos actos.

Alguém disse “ado, a-a-do, cada um no seu quadrado”. Não. Ado, a-a-do, todos no mesmo quadrado, procurando nunca mais chegar à zona vermelha.

Vá, desconfi(n)em lá.