Opinião

Estar Longe de Onde se Está

A Verdade

28-03-2021

Crónica de Paulo Sousa, vencedor do Prémio de Criação Literária Adriano José Carvalho e Melo, com a obra «Cartazes com Sorrisos».

Não precisa de ser apenas a obrigação a acordar-nos, porque muitos e melhores propósitos estão para lá dessa linha traçada por algo que não a nossa vontade: suprimida, abalada e silenciada; mantida distante e ausente até que os momentos em que ela possa vigorar, finalmente, surjam. Muitas vezes é nesses momentos que, ironicamente, damos as boas vindas à ausência de vontade, como se esta fugisse de quem tanto a evitou durante tanto tempo, por algo que parece ter uma explicação lógica; mas não tem. As escolhas da nossa vida são mesmo assim, repletas de uma parte em prol da renúncia de outra. Não fosse esta uma definição digna do que é o sacrifício, com potencial para vigorar nos dicionários caso haja vontade para fazer essa escolha – já sabemos que isso é complicado.

É inevitável, em certos momentos da nossa vida, darmos por nós a questionar-nos acerca da mesma. É importante que o façamos, que estabeleçamos as coordenadas para um destino mais abstracto, descontrolado e longínquo. Por lá o desassossego só não afecta os adormecidos, e ainda bem, porque o mundo continua sem portas e nós continuamos a perder o tempo de uma vida à procura das chaves. É este tipo de espera que é constante em muitos de nós, uma espera até ser tarde demais. Olhar para trás e não ver nada, deveria ser uma futilidade causadora de arrependimento e não um motivo de orgulho. Talvez fizesse sentido questionarmos, constantemente, o que estamos a fazer e o que queremos: olhar de dentro para o esforço, o cansaço, a produção, a robotização dos afazeres, os lucros e a relevância do dinheiro. Um ciclo de ganhos e gastos, de ambição pela obtenção de bens e da falta de tempo.

Aparentamos ser desconhecedores da nossa própria espécie, desligados do sofrimento de muitos que partilham o mesmo código genético. A profundidade de cada ser humano não é um abismo, mas nem por isso nos queremos aproximar. O entendimento fica assim muito mais difícil; porque os sentimentos nem sempre estão semeados na pele, evidenciáveis como o som triste de alguém que toca melancolicamente um instrumento musical de cordas. O mesmo não acontece nos juízos de valor: poucos são, certamente, aqueles que olham para uma pessoa sem fazerem qualquer tipo de julgamento.

O vislumbre da vida humana pode ser severo e belo se a impaciência o permitir. Pode ser necessário desviar o olhar do topo da montanha que tanto queremos alcançar, para percebermos que ela não existe. É doloroso perceber que tudo o que há, à nossa volta, foi esquecido e ignorado em detrimento de um objectivo quimérico. Alguns de nós evidenciam a estranheza de fazer parecer que são precisas muitas vidas para percebermos que só temos uma. Vivemos no limite errado; no da nossa energia e capacidade: no limite do remorso, de ser tarde demais e de estarmos prestes a adormecer, num sono excessivamente profundo para sonharmos ou sequer para voltarmos a acordar.

Crónica de Paulo Sousa, vencedor do Prémio de Criação Literária Adriano José Carvalho e Melo, com a obra «Cartazes com Sorrisos».