Celebramos hoje, dia 20 de Março, o segundo Dia Mundial do Rewilding. Estamos agora numa era, denominada de Antropoceno, em que há menos vida selvagem no nosso planeta do que em qualquer outro momento na história da raça humana, sendo urgente encontrar soluções para lhe dar resposta e inverter este declínio de biodiversidade e a crise climática que lhe está associada. O rewilding, i.e. renaturalização, é um caminho necessário para reverter os sucessivos erros do passado. É um caminho de esperança, um caminho que apresenta soluções e que procura criar um mundo mais selvagem.

por Pedro Prata, líder de equipa da Rewilding Portugal

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O cheiro das flores na Primavera, um bando de andorinhas que passa, a tranquilidade de uma floresta verde e fresca, o bater das ondas na areia, o nosso sentimento de pequenez e insignificância perante uma vista desafogada do topo de uma montanha. A paisagem natural do nosso país é bela, maravilhosa, autêntica e, sobretudo, inspiradora, um palco onde os atores, os seres vivos, dão espetáculo.

Numa época de desafios ambientais e sociais, com alterações climáticas, declínio de biodiversidade, poluição e redução de oportunidades para as economias rurais, existe apenas uma solução, que é inovadora e compreensiva na sua génese, e que consegue dar resposta efetiva a esta nova realidade global com que nos deparamos: o rewilding, o restauro de ecossistemas. Este é aliás considerado um dos desafios mais relevantes a nível ambiental para a humanidade, o que levou a Organização das Nações Unidas a declarar esta década como a Década do Restauro de Ecossistemas, de 2021 a 2030, e sendo este restauro um dos três pilares da nova estratégia de biodiversidade aprovada pela Comissão Europeia.

Portugal é um dos países que mais vai enfrentar os efeitos das alterações climáticas, mas grande parte da solução está mesmo no restauro de ecossistemas, que tem a capacidade de mitigar estes efeitos, fixando carbono, adaptar a paisagem a eventos extremos mais frequentes, e criar oportunidades para a vida selvagem prosperar, não esquecendo as pessoas e as comunidades locais. 

É aqui que o ser humano deve ser humilde o suficiente para confiar na capacidade intrínseca da natureza, de se autorregenerar e gerir a si própria se lhe forem dadas as condições essenciais para tal. E é a esse processo de trazer a natureza de volta, que chamamos renaturalização ou rewilding.

É preciso desafiarmos as nossas noções de como um ecossistema deve ser, dado o elevado grau de degradação a que estamos atualmente sujeitos, tendo já o seu estado original ficado esquecido num passado remoto e longínquo. Ler as crónicas romanas ou medievais é ser transportado para um Portugal diferente, mais selvagem, com uma grande abundância e diversidade de seres vivos. Onde “cavalos selvagens são abundantes”, “rios fervilham com peixe”, “aves tiram o azul ao céu” e “árvores centenárias são as rainhas da floresta”. Muitas espécies extintas localmente ou com uma distribuição muito reduzida estão a regressar de forma natural a outros locais da Península Ibérica e da Europa, basta que sejam criadas as condições para tal. Mamíferos como o castor, a cabra-montês, o veado, o cavalo selvagem; aves como o quebra-ossos ou a águia-rabalva; peixes como o esturjão, o salmão, a truta e, o sável.

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Em Portugal, a acentuada curva de diminuição de espécies selvagens (Portugal é aliás o décimo país com o pior estado de conservação de espécies conhecido em toda a União Europeia, segundo o relatório de 2020 da Agência Europeia para o Ambiente) é bem visível a qualquer pessoa que se dê ao esforço de observar as nossas áreas protegidas e as espécies que saltam à vista, seja pela sua raridade ou pela sua inexistência. Muito disto também se deve claro ao estado degradado em que estas mesmas áreas protegidas se encontram atualmente, a precisar urgentemente de um olhar e uma gestão diferentes, que permitam que estas sirvam efetivamente a missão para a qual surgiram: a conservação de ecossistemas e de vida selvagem.

O homem ter de servir como substituto da própria natureza na gestão de ecossistemas, que deviam funcionar em autogestão de forma funcional e completa acarreta custos que podiam ser poupados e redirecionados para outras ações negligenciadas. Limpar linhas de água, porque não existem castores, subsidiar rebanhos de cabras domésticas para gestão de faixas de combustível porque não existem cabras-montesas, caçar javali porque não existem predadores suficientes como o lobo-ibérico, alimentar aves necrófagas de forma artificial, porque não há vida suficiente na paisagem para que tal aconteça naturalmente… Tudo isto sabendo que, recuperando ecossistemas completos e funcionais, todas estas repostas estariam dadas naturalmente e sem necessidade de intervenção, cabendo-nos a nós deixar apenas a natureza seguir o seu caminho. É preciso garantir que todos os ciclos de vida estão novamente completos. Apenas assim poderemos recuperar níveis de biodiversidade que outrora eram regra e que agora são exceção.

O próprio progresso económico está claramente dependente de boas práticas de conservação de natureza no presente e projetadas no futuro, com grande parte das atividades económicas a estarem neste momento ameaçados pelo declínio da natureza. Afinal a sustentabilidade económica não pode, mesmo nunca, andar a longo prazo desassociada de uma sustentabilidade ambiental efetiva e que resulte. Além disso, este restauro da natureza é também ele gerador de novas oportunidades económicas para os territórios, nomeadamente aqueles mais marginalizados e rurais. O turismo de natureza é um bom exemplo, traz vida de volta, gera rendimentos e enraíza o orgulho das comunidades locais. Muitos são os casos de sucesso por essa Europa fora: o urso-pardo no norte de Espanha, que tem trazido população de volta às aldeias outrora abandonadas e isoladas; a águia-rabalva na orla costeira da Escócia que tem gerado 3 milhões de libras por ano em atividades de birdwatching; ou ainda o caso do bisonte europeu, que na Roménia está a tornar as suas vilas e aldeias mais remotas um dos destinos mais procurados da Europa neste segmento de turismo, depois de décadas de esquecimento e declínio.

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Neste Dia do Rewilding, celebramos essas demais formas de vida, mas importa referir que estas não se compadecem com a sua simples evocação. É necessário que as sociedades humanas entendam o quão interdependentes estamos todos neste albergue planetário que gira à volta do sol. Precisamos de ser humildes para reconhecer erros, assim como para encarar com otimismo a oportunidade histórica que se apresenta para não apenas elegermos e celebrarmos datas comemorativas todos os anos, mas antes estabelecermos o compromisso para com as gerações futuras de lhes proporcionar um mundo mais abundante de vida selvagem, assim como um habitat humano que possa ser beneficiado pela qualidade da natureza envolvente.

Não basta proteger aquilo que ainda não foi destruído. Está na hora de restaurar em larga escala o nosso património natural. Trazer de volta a este grande palco natural, os seus atores que há muito desapareceram, para que voltem a desempenhar o seu papel. Há mais do que fatalismo no estado atual da natureza e dos seus processos. Há esperança, há oportunidade e há principalmente cada vez mais vontade de promover abundância, biodiversidade, restauro e recuperação.

Neste Dia do Rewilding, está na hora de reconhecer que chegou o momento de trazer a vida selvagem de volta, de tornar o nosso país e o nosso planeta mais selvagens e abundantes em biodiversidade. Rewilding é isso mesmo… É esperança, é imaginar um mundo onde o ser humano e a vida selvagem coexistem em harmonia. Um mundo onde a natureza tem mais espaço, tem mais tempo. Um mundo mais selvagem.