Os avanços recentes na área da saúde têm permitido, como tem vindo já ser deveras exposto e debatido, o aumento da esperança média de vida. No entanto, nunca é demais reforçar a velha ideia de que mais do que quantidade, importa é a qualidade. Várias questões poderão ser levantadas a partir daqui, muitas delas precipitadas pelo obscurantismo que continua a assombrar a palavra “envelhecer”.

Na esfera da cognição, à semelhança do que acontece noutros domínios, sabemos que o envelhecimento é caracterizado por alterações significativas. Mas saberemos nós onde é que se situa a transição entre aquelas que são normativas e as que são “patológicas” e merecem preocupação?

Os serviços de saúde começam agora a ser procurados por pessoas que, com o avançar da idade, vêm desflorar um dos medos mais profundos do ser humano – o medo de perder o “sentimento de si”, como tão bem António Damásio definiu numa das suas obras mais conhecidas.

Atentam no fogão que ficou ligado, no compromisso que ficou esquecido, na palavra “presa” que teimava em não sair, na confusão acerca do dia da semana… No seu conjunto, estes sintomas podem ser tanto um sinal de alerta como uma evolução normativa no ciclo vital e é nessa incerteza que todos nós por vezes nos perdemos.

Começamos por afirmar que é expectável que haja um declínio cognitivo no decorrer do processo de envelhecimento e enquanto experiência individual, seja modelado por fatores como a educação e a experiência profissional, fatores emocionais e de personalidade, pelo estado de saúde e estilo de vida, entre outros. No dia a dia, pode manifestar-se, por exemplo, pela maior necessidade de apontar datas de consultas em fazer listas de compras, pela dificuldade em realizar tarefas em simultâneo ou em aprender grandes quantidades de informação nova. Contudo, estas alterações são facilmente compensadas, não devendo interferir significativamente naquilo que é o desempenho das tarefas do quotidiano da pessoa na capacidade da pessoa para ser autónoma no seu dia a dia.

É precisamente aqui que ocorre o ponto de viragem.

Muitas vezes estas dificuldades, pelo padrão e gravidade que adquirem, começam a limitar a capacidade da pessoa para realizar as suas tarefas habituais, tornando-a mais dependente na gestão dos medicamentos, na realização de compras, nos pagamentos e utilização eficaz do dinheiro e até na realização de refeições.

Perante o confronto com estas dificuldades, é de todo benéfico para a pessoa a consulta de um profissional de saúde especializado. Através da análise da história clínica e com o recurso aos necessários meios de diagnóstico, este poderá auxiliar na deliberação sobre o caráter normativo ou patológico destas alterações.

A estimulação cognitiva tem apresentado resultados bastantes promissores na otimização do desempenho e compensação das dificuldades decorrentes quer do processo de envelhecimento normativo quer de fases iniciais de processos demenciais. Planos personalizados e baseados nas potencialidades e fragilidades da pessoa podem ser desenvolvidos por profissionais habilitados. No entanto, há estratégias simples que podem ser realizadas autonomamente no dia a dia, como ler um livro, fazer sudoku ou palavras cruzadas. Além disso, outras ações podem ter impacto no funcionamento cognitivo, tais como fazer exercício físico, ter uma alimentação saudável, evitar consumo de álcool e de tabaco.

Em suma, o envelhecimento é uma fase do desenvolvimento vital que não é sinónimo de doença. No entanto, pela maior vulnerabilidade associada, é necessário estar atento aos sintomas de alerta. Um acompanhamento atento permite uma detecção precoce dos processos patológicos e, consequentemente, intervenções mais eficazes. Qualidade na quantidade depende de todos nós!

Artigo de Opinião de Ana Rita Vasconcelos e Helena Moreira, psicólogas clínicas