Foi entre os melhores culturistas do mundo que Pedro da Cunha conquistou o quinto lugar no concurso mundial Mr. Universe WABBA, que decorreu no Palácio de Congressos de Tarragona, em Espanha. Estar no Top 5 da ‘liga dos campeões’ do culturismo, entre atletas de várias nacionalidades, foi “fenomenal. Estamos a falar de uma prova de renome e muito difícil. Éramos vários e ser finalista foi fantástico, para quem já tem uma carreira longa e com a vida agitada como eu”, afirma Pedro da Cunha em entrevista ao Jornal A VERDADE.

O gosto pela área vem “desde miúdo”, altura em que via “os ídolos” na televisão, como Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone e “achava aquilo fantástico. Víamos os heróis da Marvel, aquela sensação de poder e de força e pensávamos ‘adorava ser assim’”, recorda.

Foto: Facebook Pedro da Cunha

Os primeiros passos foram dados numa garagem e a partir daí começou a crescer o sonho. “Comecei a ler revistas que vinham de Espanha, um país com muito mais tradição do que nós e dizia nessa mesma garagem ‘um dia vou ser eu’. Fui e já levo uns anos disto”, afirma com orgulho.

Os treinos de musculação já eram feitos há alguns anos, mas a “coragem” de se aventurar em palco surgiu há cerca de 10 anos, na Taça Carlos Rebolo, a primeira prova como culturista. “Quando felizmente a tive foi fenomenal e um dos momentos mais marcantes da minha vida. Aqui estou e continuo a pisar palcos e a competir com saúde”.

Em todo este percurso, Pedro teve ao seu lado a mulher “que tem sido fantástica e uma guerreira. Nestes últimos tempos tem sido o meu grande suporte, porque foi ela que cuidou da nossa filha, para quem é tudo novo. Ela pode não se lembrar mas vai ver as fotos do dia em que o pai foi o quinto melhor do mundo e ela estava lá”.

Foto: Facebook Pedro da Cunha

“Para chegar ao patamar em que estou agora é preciso consistência”

Chegar ao Top 5 dos melhores do mundo foi resultado de “boa alimentação, mais de 20 anos de musculação, disciplina”. Mas para Pedro da Cunha a palavra-chave é “consistência. Mesmo naqueles dias em que não nos apetece, temos de o fazer”. Gostar é também outro ingrediente importante, porque o culturismo é um desporto que se vive 24 horas por dia. “Na alimentação, no descanso e nem sempre é fácil. No meu caso, tenho uma vida profissional muito agitada, o descanso é pouco mas em tudo o que diz respeito à dieta, suplementação, ao treino, está sempre tudo muito controlado, porque só assim é que se chega ao nível que cheguei”, garante.

A rotina alimentar do culturista,“é muito básica, tendo em conta a vida profissional”. Fazem parte fontes de proteína (peixe e carne), suplementação, fontes de hidratos (arroz, farinha de arroz), legumes e fontes de vitaminas. “Antes das provas trabalhamos a manipulação da água. A ingestão de água é muito controlada, para conseguirmos chegar à prova sem retenção de água no corpo. Além da gordura, queremos que a água subcutânea desapareça e que fique apenas a água intramuscular. Depois fazemos o carb up. O arroz continua a ser a base, e a carne de vaca, frango e peixe, mas há uma fase em que, em duas ou três refeições, uso fontes de açúcares, como o gelado, bolachas, marmelada, a frutose (banana) e utilizo a farinha de arroz novamente. Felizmente, este ano, correu muito bem, porque consegui chegar cheio à prova e muito seco”.

Uma rotina alimentar que, para Pedro “não é um sacrifício e faço isto por gosto. Claro que na parte final custa, porque estamos num défice calórico muito complicado e a energia já não é a mesma. Mas tem de se gostar do processo. Vamos ter de comer quando não temos fome e vamos ter fome e não poder comer porque temos de estar em défice calórico na fase final, para ficarmos completamente secos para competir. Mas no final vale a pena para conseguir viver aquilo tudo.” 

Foto: Facebook Pedro da Cunha

Culturismo, preconceito e apoios

Se há uns anos o culturismo estava envolvido em vários preconceitos, hoje “as figuras de referência para as pessoas, e que servem de inspiração, são todas figuras ligadas ao culturismo. Portanto, nunca poderá ser um parente pobre, será sempre a figura máxima e tem, felizmente, crescido imenso”. Uma mudança que Pedro considera “muito positiva, até pelo que o culturismo, o ex-libris do fitness mundial, pode trazer para a nossa realidade”.

Quanto ao que pode trazer, o culturista aponta para a mudança de mentalidades relativamente às mulheres. “Nesta área é admirável o trabalho delas. São mulheres com uma capacidade mental fora do normal. E, por isso, as pessoas têm de perceber o sacrifício que estas pessoas fazem para ir a estas provas e representar o nosso país sem ajudas”.

O crescimento na modalidade tem-se verificado a vários níveis, exceto no que aos apoios diz respeito. “É um desporto com poucos apoios, não comparável com outros países e não é barato. Neste momento, é um desporto com cariz de utilidade pública, reconhecido, mas quando vamos competir temos de pagar tudo”.

Por isso, o culturista apela às entidades, “que deviam apoiar, como por exemplo, as federações. Deveriam ser as primeiras a conseguir apoios estatais para apoiar os atletas fora de Portugal, como acontece nos outros países”.

Foto: Facebook Pedro da Cunha

“Ser campeão é um dos meus objetivos”

Em 2021, Pedro Cunha sagrou-se campeão nacional e o objetivo futuro é conquistar o título a nível mundial. “Estou tão bem, cheguei ao meu auge e acredito que, no próximo ano, vou conseguir ter mais qualidade e mais maturidade muscular para conseguir atacar novamente a ‘liga dos campões’”

O culturismo tem-lhe proporcionado “anos fantásticos” e, por isso, é “muito especial. Poucos atletas terão uma paixão tão grande pelo culturismo como eu. Além de ser culturista, já formei vários atletas e conheço as motivações de cada um. Infelizmente, muitas vezes, a motivação é apenas o ego, mas no meu caso é amor.O culturismo deu-me tudo”, garante.

Pedro da Cunha tem uma vida dedicada ao fitness, uma vez que é proprietário do ginásio Wolf Gym em Penafiel, e à modalidade como atleta e como coach. “Esta disciplina ajudou-me a ser um homem melhor, a crescer e a ser mais resiliente”.

Apesar de faltarem cinco anos para alcançar a meta a que se propôs, retirar-se da modalidade, o “estilo de vida será para manter sempre, porque estarmos felizes é o mais importante”.