“Vivido na memória, do tempo vivo, de quem viveu um Carnaval, destes em vida… Deixo um Viva aos Compadres e Comadres, que bons tempos o puderam viver. E também a todos os que apenas em memórias contadas, se ficam de o merecer…”

O Carnaval vivido em Tendais, já não o é mais. Já não se reproduz nos moldes desses tempos antigos. Na alegria genuína, brava e corajosa, de tanta juventude, que por lá viveu, sem muito mais que houvesse outrora para se entreter. E tão aprazivelmente, usufruía destes jogos e brincadeiras, porque se “é Carnaval, ninguém leva a mal”. E como era o Carnaval antigamente, em Tendais? Do que me debrucei em descobrir, em vários relatos, podemos referir três aspetos: os “Mascres” (os Mascarados), jogar ao Carnaval e correr a Comadre e o Compadre.

Os “Mascres” (homens e mulheres) vestiam-se a rigor, com vestes antigas e muitas vezes esfarrapadas. Frequentemente eles disfarçavam-se de moçoilas, de peitos volumosos e traseiros grandes e desajeitados, feitos pelo enchimento de várias peças de roupa, ou umas palhas ajeitadas na (im)perfeição. Andavam, em grupo, de porta em porta. Em brincadeiras, procuravam por uma pinguinha de vinho e algo para mastigar. As caras eram tapadas com meias de vidro, ou máscaras de papelão. Todos primavam pela mudez, articulando raras palavras ou sons desajustados, para que a sua identidade não fosse descoberta. E como tal, sem se saber quem era o “Máscre”, era a altura perfeita para aquela vingançazinha, que estivesse em dívida a alguém…

O “jogar ao Carnaval” era pautado por uma evidente disputa de género. Molhar alguém do sexo oposto era uma das atividades mais usuais. As raparigas lestras e vivaças, tinham engenho e artes matreiras, para contornar os temíveis rapazes, que lhes ganhavam em força e destreza físicas. Uma emboscada ou aguardar em pontos estratégicos (como subir a árvores e silenciosamente esperar aquele moço, que sabiam iria passar) era uma das formas de lhes poder dar um banho de água gelada, em pleno inverno, tantas vezes de neve, na freguesia de Tendais. Era a abertura de uma “guerra” ou a vingança ao que já lhe havia sido feito. A alegria e o contentamento de tal partida era motivo de regozijo e vaidade. Mas elas “cá se fazem, cá se pagam” e não se tardaria pela demora. O “pago na mesma moeda” era certeiro, nem que para isso se tivessem de se juntar uns quantos (ou quantas) mais. Mas ficar sem dar resposta… é que nem pensar! E assim se criavam as rivalidades entre eles e elas, de modo a refastelar o ego ou a restabelecer o orgulho, de quem “não se deixava ficar por menos”. Que se não fosse nesse ano, no seguinte era vingança que se servia, em prato frio.

Pelo que dizem, há várias décadas atrás, as moças de Macieira eram muito valentes e temidas. Eram muitas, com idades idênticas e contavam sempre com o apoio das mulheres mais velhas. E até mesmo com os homens, quando moços de outras aldeias instigavam de as ir desafiar. Como aconteceu, uma altura com os rapazes de Quinhão, em que foram todos corridos da aldeia…

Também era hábito enfarruscarem-se uns aos outros. Na fuligem, tradicional e recorrente, das casas antigas, onde o fumo cirandava por toda a habitação. Nas “prombeiras” dos fornos a lenha e das panelas de ferro ao lume, graciosamente eram esfregadas as mãos, que serviriam para maquilhar os opositores. E quantos mais enfarruscados, melhor. Apanhar e segurar a “vítima” para esse fim, era uma borga. E o aspeto final, com toda a cara, em nuances pretas, era a galhofa total.

Nos bailes, enrolavam os pares com fitas de Carnaval. Na saída da missa, ao domingo, os rapazes tinham a mania de atirar “provilhos” (fitinhas de papel) ao cabelo das moças, saídas da igreja. Os mais aventureiros e espevitados faziam umas “caudas de coelho” em arame e penduravam-nas na roupa delas. Um regozijo de riso, para com a infeliz contemplada. Mas elas também lhes faziam o mesmo. E os alvos ficavam marcados, pois “não se perdia pela demora”.

Para além de se jogar o Carnaval, corria-se o Compadre e a Comadre. O Compadre era feito pelas raparigas e a Comadre pelos rapazes. Uma cruz de pau, com enchimento de palha, de modo a reproduzir o corpo masculino e feminino, era exteriormente, decorado com papeis coloridos, “os mais bonitos que se tivesse na altura” ou na eventual ausência de papéis, com pedaços de tecido. Em Marcelim, no domingo antes do Carnaval havia o desfile da Comadre e do Compadre, para os dar a conhecer. Viva a Comadre! Viva o Compadre! Viva!… eram recorrentes de, por esta altura, se ouvir. Em Macieira, supõe-se que seria muito antes do fim-de-semana de Carnaval. E havia um dia dedicado à Comadre e outro ao Compadre.

Eles queriam apanhar o Compadre e elas, a Comadre. Os moços escondiam a Comadre. E as moças escondiam o Compadre. Os palheiros, os canastros, as cortes dos animais e o interior das habitações eram os locais mais habituais. Sempre com muita atenção e cautela, para que os irmãos/ irmãs não se apercebessem de tal. Os fornos a lenha, os tabuleiros de amassar o pão, a salgadeira e os sótãos foram muitas vezes o esconderijo da Comadre e do Compadre. E dando-se a possibilidade do local ser descoberto, o mais sigilosamente possível, e quase sempre de noite, era feita a mudança de esconderijo. Ganhava o jogo do Carnaval, quem conseguisse apanhar e rasgar o seu congénere primeiro. Se estes não fossem encontrados e rasgados ou alguma parte deles ficasse intacta, eram queimados no Dia de Carnaval.

Convenhamos que, pelo lógico motivo de força corporal, eram maioritariamente os rapazes a ganhar o jogo de Carnaval. Mas também acontecia o contrário. Era um desgosto para eles e grande júbilo para elas. No dia de Carnaval, todos da aldeia assistiam à leitura do Testamento deles e delas. Em frases a rimar, com sátira e ironia, cheias de troça e malandrices à mistura…

Aqui ficam alguns exemplos que foram usados, em tempos antigos, na freguesia de Tendais:

– Macieira, há mais de 60 anos atrás, leitura do Testamento:

“Por herdeiro e testamenteiro…

– Ao (…) que é um rapaz encorpado, deixamos-lhe um fato de fazenda azulado.

– Ao (…) por ele ainda não namorar, deixamos-lhe um terço para ele rezar.

– Ao (…) por andar a aprender sapateiro, deixamos-lhe o carro elétrico para ir buscar a sola ao Mosteiro.

– Ao (…) por ele ser um figurão, deixamos-lhe uma carteira, sem nem um tostão.”

– Marcelim, 1991, leitura do Testamento, para elas:

“Agora vou começar que o Carnaval é curto, deixaste queimar a comadre, ficastes todas de luto…

– À minha comadre (…) por ela abrir o caminho, deixo-lhe uma cesta de castanhas, para ela assar no S. Martinho.

– À minha comadre (…), isto agora é que vai ser, deixo-lhe um saquinho de ração, para ela poder crescer.

– À minha comadre (…) que está a passar de moda, deixo-lhe um vestidinho branco, para ela levar para a cova.

– Às minhas comadres casadas que ajudaram à brincadeira, deixo-lhes uma gaitinha lisinha, para tocar a vida inteira.

Muito mais deixaria, se me soubesses estimar. Mas vós não o fizeste, que me deixaste queimar…”

E assim era comemorado o “Entruido”, por terras de Tendais. Comia-se o arrozinho, com o salpicão cozido. Muitas vezes também o “bantrulho” (o estômago do porco) de quem tivesse feito a matança, uns tempinhos antes do Carnaval. O frio gelava os corpos. Mas a azáfama desta época aquecia-os, nas brincadeiras que os entretinham e as risadas de quem se metia ao barulho e dali não saía “sem pagar”

Típico de rivalidades entre rapazes e raparigas. Entre borgas inocentes. Corrupios alegres. Do contentamento inocente de gentes simples, singelas e de borga. Vivido na memória, do tempo vivo, de quem viveu um Carnaval, destes em vida… Deixo um Viva aos Compadres e Comadres, que bons tempos o puderam viver. E também a todos os que apenas em memórias contadas, se ficam de o merecer…

(Texto escrito, com base nos testemunhos de Donzília Resende, Maria Emília Mouta, Isabel Silva Rocha, José Resende e Helena Figueiredo.

Autor das fotografias: Alfredo Figueiredo)

Lúcia Resende