Com apenas dois anos e meio, “Joana” – nome fictício – foi diagnosticada com um cancro cerebral e tudo mudou na vida da criança e da mãe que ficou “sem chão”.

Assinala-se esta terça-feira, 15 de fevereiro, o Dia Internacional da Criança com Cancro, criado pela Childhood Cancer International, que tem como objetivo ajudar todas as crianças vítimas desta doença no acesso a melhores tratamentos e medicamentos, bem como dar apoio às suas famílias e amigos.

“Cancro” e “crianças” são dois conceitos que parecem distantes, mas, de acordo com a Ordem dos Enfermeiros, é “a principal causa de morte nas crianças após o primeiro ano de vida”. Em Portugal, são diagnosticados, “em média, 350 novos casos por ano”. Os tipos de cancro mais frequentes nas crianças são leucemias, tumores do Sistema Nervoso Central e linfomas.

Foi a 2 de fevereiro 2017 que “Joana”, com quase três anos, conheceu bem de perto essa realidade, depois de um diagnóstico de Histiocitose de Células de Langerhans (Granuloma Eosinofílico), um cancro cerebral que atinge funções do sistema nervoso, como a fala. 

“Ela tinha muitas dores de cabeça terrivelmente intensas, chegando mesmo a atirar-se contra as paredes enquanto estava a dormir”, revela a mãe da criança em entrevista ao Jornal A Verdade, que assistia diariamente ao sofrimento da filha. Foram vários os médicos a quem recorreu, mas todos lhe davam a mesma resposta: “diziam sempre que não era nada de grave, que podia ser uma dor de dentes ou mimo”, conta.

Durante o mês e meio de uma “procura intensa” por respostas, o estado de saúde de “Joana” foi agravando. “Como usava fraldas, comecei a perceber uma redução imensa da urina, ao ponto de passar um dia com a mesma fralda”, confidencia a mãe de “Joana” que revela ainda que a filha “não comia, não bebia, não fazia as necessidades fisiológicas normalmente e tinha dificuldades em andar”.

Com a menina “caída nos braços e já sem conseguir chorar”, a mãe não se conformou com as respostas que os médicos lhe davam e recusou-se a sair do hospital sem uma solução. Mais tarde, um resultado “não muito bom” de um TAC, veio a comprovar que o instinto maternal não estava errado. “Tiraram-me o tapete do chão”, descreve assim o momento em que recebeu a notícia do diagnóstico.

Seguiram-se momentos de “tristeza” e de tratamentos durante cerca de dois anos, com “altos e baixos, mas, felizmente, a menina está a recuperar”, partilha com alegria a mãe, acrescentando que ainda hoje a perda do cabelo que teve durante os tratamentos “é um trauma que está a tentar ultrapassar”

Inicialmente, as idas ao IPO eram diárias, mas, com o decorrer dos tratamentos de quimioterapia, “as visitas foram reduzindo gradualmente”, uma fase “muito complicada” e que envolveu um desgaste financeiro e psicológico “muito grande”: “Chorava durante a noite porque não o podia fazer em frente à minha filha”.

A dor foi “atenuada” com a ajuda de “alguns familiares” e o apoio oncológico suportado pela Casa Ronald McDonald, do Porto, que acolhe gratuitamente os familiares mais carenciados das crianças que se deslocam da sua residência habitual para tratamento no Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ) e no Instituto Português de Oncologia (I.P.O) do Porto.

Passaram cinco anos e, apesar das “sequelas” deixadas pela doença, “Joana” foi recuperando e está “quase uma menina normal”. Apenas continua sob vigilância, porque vão surgindo “outras questões como problemas na alimentação e alergias estranhas”. Na escola, “Joana” partilha “sem mágoa” a sua história com os amigos, que, no início, lhe foram fazendo “algumas perguntas” sobre a doença e a quem a menina responde: “Eu passei a doença, mas consegui vencer”.

Como nos conta a mãe, “Joana” revela uma grande maturidade para uma criança de sete anos e, por isso, sempre falou abertamente sobre a doença com a filha. “Eu falei-lhe francamente de tudo o que se estava a passar. Não fui brusca, falei de uma forma que entendesse. Sempre soube tudo o que tinha e colaborava muito”, confessa.

Como a história desta família existem muitas outras. É precisamente para essas famílias, que partilham a mesma dor, que a mãe de “Joana” deixa o seu testemunho: “Um dia perguntei a uma médica – como vai ser a vida da minha filha amanhã? Vai conseguir ir à escola e brincar com outros meninos? E ela respondeu: mãe, o ontem já passou, viva o hoje intensamente e amanhã logo se vê”.