Artigo de Lúcia Resende.

“Tudo o que descrevo é o que ouço contar. De histórias antigas. Que fui ouvindo falar. E entre voltas e mais voltas, que só o mundo sabe dar. Desígnios do destino. E encruzilhadas da vida. Ao fado, ninguém pode faltar. Não existem coincidências. Nem nada é por acaso. E se alguém nos estiver destinado, até nós irá chegar…”

O amor! Tema dos trovadores e cancioneiros. Dos líricos e escritores. Dos poetas e eternos apaixonados. Em cantigas e musicalidade. Cartas de amor e desejos de paixão. Do amor proibido, ao platónico. Incandescente e fervoroso… É o mais sublime sentir. O mais aguçado mestre, de todos os sentimentos. Vivido e sentido, no desejo palpitante, do mais comum mortal… Pelo qual, derradeiro e verdadeiro, compensa a dolorosa valentia de por ele, se lutar. Valença plena, da dignidade de viver. E pelo qual, vale a pena morrer… Na, doce e penosa, sentença de amar…

Mas fora sempre o amor, o mesmo amor de sempre? Ou é o amor de hoje, diferente do antigamente?

Em sentimento e valor. Destemido e desaforado, me parece que, ao longo dos tempos, sempre por ele se viveu e governou. E sempre por ele se há de viver e reger.

Num futuro, que quem o vir, mo há de concordar, na sabedoria de quem já amou. E nessa busca incessante. Se tenta encontrar “o testo para a panela”. Ou o “belo par de jarras”. Porque sempre se disse que “quem acerta no casar, de nada lhe falta acertar.”

Porém, a liberdade manifesta de namorar, não era assim fácil, como nos dias de hoje o é, da liberdade desatinada, de quem se quer. E da liberdade que se tem, de amar.

Em tempos antigos, regras impostas, pela condição do melhor partido para casar. E da moça exemplar, se buscavam dois corações apaixonados. E tantas vezes, por terrenos ou outras valias… Bens supérfluos e materiais, a bela união impediam de dois jovens enamorados…

E eram as festas e romarias palco, para os pretendentes se encontrar. Onde iam as moças namoradeiras, apetrechadas de vestidinho ou roupa domingueira, para bem lhes parecer. E os rapazes, em idade de casar, na sua melhor farpela, ali as encontravam para lhes falar. Conversavam, a dois metros de distância, debaixo do olhar dos mais velhos, atentos ao respeito e à devoção da menina certa, para casar. E do par atinado, para se lhe arranjar.

Os bailes, feitos assim, de repente, numa eira ou caminho, bastava apenas um realejo pequenino, que dançadores e dançadeiras se arranjavam, num fôlego ladino… Delícia dos moços que ansiavam, com aquela cachopa dançar. E as donzelas sonhavam o seu par encontrar.

Para os bailes de festa, as moças não saíam sozinhas, sem alguém de confiança, que as pudesse acompanhar. Os rapazes, com mais liberdade e independência, fruto da sociedade patriarcal, iam em busca de um olho lhes poder piscar. Umas palavras lhes confessar. E o seu coração lhes arrebatar. Elas iam, com permissão do paizinho e com alguém, na missão de os vigiar. Porque menina certa e direita não pode ser falada. Nem a honra pode perder. Pois ao tornar-se desonrada, impedida seria, de uma vida casamenteira poder viver…

A ida à fonte, ou virar a água, era outro ponto de encontro. E tantas vezes, iria o caneco à fonte, sem necessidade de se servir. É que o amor falaria mais alto, que a sede e necessidade da água, desse frenesim, de ir e vir.

Nas desfolhadas, todos reunidos na eira, se lutava para se encontrar os reis das espigas, o chamado Milho Rei… Que a sorte trazia aos namoradeiros, para com aquela moça poder dançar. E a quem talvez, na face, ao de leve, pudesse um beijinho lhe dar. Ou até, porventura, namorar e casar…

E à saída da igreja, depois da missa ao domingo, era prezado o rapaz que pudesse a sua amada acompanhar. Acompanhá-la-ia somente à entrada do lugar. À porta de sua casa, não a poderia deixar. Nem tão pouco em casa entrar, exceto se já tivessem permissão para namorar. Ou em caso de namoro adiantado. Quem sabe noivado apalavrado. Com autorização para casar.

Em namoro assumido. Com consentimento da família. As famílias entre si, se visitavam. Trocas de produtos realizavam. E a casa de ambos, já se podia frequentar.

Mas sem ficarem a sós, o casal de namorados. Não vá, antes do casamento, algo se dar…

Em tempo da obrigatoriedade da tropa… Usavam-se os telegramas e aerogramas. E no Natal, os postais. Ou as fotografias dos oficiais. Estas eram a maneira das saudades dos amados se apaziguar. A eles, lhes permitia saber, que à sua chegada, a amada o aguardava. A elas, sossegando-lhes o coração, de que o seu amado bem se encontrava…

Quando a distância se fazia impedimento. Por longe se viver. Pela ida à tropa, ou para a cidade trabalhar. Eram as cartas, o meio utilizado para se namorar… Em trocas e juras de amor eterno. E saudades a palpitar. Sempre com tento nas palavras e muito cuidadinho. Sem sentimentos evidentes. Pensamentos pecaminosos. Ou sem atrevimento maior, como um simples beijinho. Isso seria o bastante para a moça logo ficar, impedida de lhe responder. Era visto como sinal de desrespeito, insolência e imoralidade. E a mão de donzela direita, tal moço não é digno de a merecer.

As cartas eram delicadamente dobradas. Em envelope bem fechado. Viajavam, de mão em mão, por alguém de confiança e desse amor, aliado. Ou através dos carteiros, fosse a cavalo, ou a pé, percorriam terras e terrinhas. Ansiosamente, aguardados, pelos corações apaixonados. Por vezes, cortadas em biquinhos, para parecerem mais bonitas, as cartas levavam as intenções do coração. Embrulhadas em prata fina, para as ornamentar. Era mestria dos mais românticos. Dos que mais tempo teriam. E de quem sabia trabalhar à mão.

Como presentes, à namorada, no intuito de casar, os namorados ofereciam o que o dinheiro lhes permitia comprar. Uma saia plissada, a moda das modas, por aquela ocasião. Talvez um anel. Ou um cordão. Umas arcadas de ouro. Ou esmalte, em forma de coração. Mas o que nunca poderia faltar e todos os rapazes iam comprar… eram as amêndoas da Páscoa, como doce sinal, do seu amor e devoção.

A liberdade era manifestamente mais desprendida nas cidades, comparativamente às aldeias, do interior. No mundo citadino havia mais permissão. Um beijinho na face não era desrespeitador. Habitual cumprimento, já era permitido no amor. E a total evidência do papel da mulher, em crescente emancipação.

Hoje, com mais igualdade de direitos, entre homens e mulheres. Em mais liberdade, se pode namorar. E seja amor, do antigamente ou nos dias de hoje, o sublime sentir, do mais intenso sentimento, ainda se mantém. E ao mais comum dos mortais, fará vergar. Estarão em desuso as cartas de amor. A permissão para namorar. E a autorização para casar. Mas o que nunca cairá em desuso, será a arte de amar. Na procura incessante do amor, mesmo depois de falhar. Porque, o amor sempre irá vencer… Quanto mais não seja o amor próprio. E a felicidade se merecer…

E destes tempos antigos, por Tendais vividos, eu não tenho memória, nem eu os conheci. Sou de uma geração mais recente. E tão mais diferente. Tudo o que descrevo é o que ouço contar. De histórias antigas. Que fui ouvindo falar. E entre voltas e mais voltas, que só o mundo sabe dar. Desígnios do destino. E encruzilhadas da vida. Ao fado, ninguém pode faltar. Não existem coincidências. Nem nada é por acaso. E se alguém nos estiver destinado, até nós irá chegar…

(Texto escrito com base nas histórias de namoro dos meus pais, Donzília e Herculano. E nos relatos de dois irmãos, da minha mãe: Adélia Resende e Anastácio Resende… Histórias díspares. E diferentes fados. Onde os três encontraram a sua alma gémea. Casamentos felizes. E todos com mais de 50 anos, de casados).

Lúcia Resende