“Acredito que foi o Vasco que me escolheu como mãe”. Foi esta uma das principais frases ditas por Rosa Maria Soares, na entrevista cedida ao Jornal A VERDADE, no âmbito do Dia Internacional da Síndrome de Down, que se assinala esta segunda-feira, dia 21 de março.

Rosa Maria Soares é mãe de Vasco, um jovem de 27 anos que, para além de ter Trissomia 21, tem também Autismo. Educadora de Infância de profissão, a viver em Marco de Canaveses e hoje com 61 anos, afirma que o seu maior medo “não é morrer, é saber com quem o vou deixar”.

Esta mãe só descobriu que o seu filho tinha Síndrome de Down após o nascimento. “Na altura estava a trabalhar com meninos com Trissomia 21 em Penha Longa. Quando o Vasco nasceu, não notei logo, porque eles nascem rechonchudos e coradinhos, mas havia determinadas expressões que ele fazia e que me faziam lembrar os meus alunos. A médica depois veio ter comigo e explicou-me”, recordou.

O primeiro momento foi “muito difícil”, uma vez que defende que “nunca se está à espera, porque temos sempre muitos sonhos para o primeiro filho e eu sou muito sonhadora. Foi um balde de água fria”.

Contudo, Rosa Maria Soares encara este momento da sua vida como “um desafio” e garante: “acredito que não somos nós que os escolhemos, são eles que nos escolhem. Eles têm de vir ao mundo e o Vasco escolheu-me a mim”.

A partir do momento em que o Vasco nasceu, a vida de Rosa Maria Soares e a do seu marido “mudou radicalmente”, principalmente porque o seu filho tem 92% de incapacidade, “é totalmente dependente”.

“As pessoas olham, há preconceito. Quando ia ao pediatra, vemos os outros meninos sem problemas e, naquela altura, sentia uma revolta muito grande. Sentia-me ali sozinha, no meio daquelas crianças e daquelas mães”, recordou.

Nos dias de hoje, Rosa Maria Soares ainda trabalha e Vasco passa os seus dias na Apadimp – Associação de Pais e Amigos dos Diminuídos Mentais de Penafiel. “Já está lá desde os 12 anos. Funciona como um centro de dia, mas ele tem de estar em algum sítio porque eu trabalho e, neste momento, estou sozinha, porque fiquei sem o meu marido em agosto”, relembrou, pesarosa, acrescentando que Vasco “sentiu muito as perdas, porque estava em casa no momento em que o pai faleceu, porque foi de ataque cardíaco, e também quando a minha mãe faleceu. É difícil para o cérebro dele entender isso, mas eu faço questão de o levar ao cemitério”.

Considero uma missão que Deus me deu.

“Todos os dias choro, todos os dias rio e todos os dias canto. Há um bocadinho para tudo. Apesar de já não termos vida própria, porque temos de os levar para todo o lado, não trocava a minha vida por nada”, garantiu a educadora de infância.

Rosa Maria Soares faz de tudo para que o seu filho tenha “uma vida o mais perto do normal possível”, apesar de ter os seus rituais e estes terem de ser cumpridos escrupulosamente. “Anda sempre com dois carrinhos, menos quando vai para a escola. Precisa de mim para tomar banho e para se vestir, mas come sozinho muito bem, com faca e garfo. Não come na mesa comigo e com o meu pai, tem um sítio próprio para comer, no seu quarto. No final da refeição vai colocar a sua louça na cozinha, tem de ser ele”, descreveu.

Vasco “não verbaliza” o que sente pela sua mãe, mas há momentos durante o dia em que Rosa Maria Soares não tem dúvidas do amor que o seu filho sente por ela. “Dorme sempre agarrado a mim, faz questão de que eu esteja à beira dele. Não duvido do amor que ele tem por mim”, garantiu.

E é exatamente por este amor que sente pelo seu filho, que esta mãe teme pelo futuro. “Ele tem noção que as pessoas partem. Durante o fim de semana, se eu fechar os olhos um bocadinho e ele reparar, vem logo abri-los. Ele pensa que eu também já morri, porque já assistiu à partida de muita gente. Ele sabe que as pessoas desaparecem e diz-me muitas vezes que eu também vou morrer e que ele vai ficar sozinho. Se me der uma dor de cabeça mais forte, entro logo em pânico. A minha grande preocupação é com quem ele vai ficar quando eu for embora. Embora tenha alguns familiares, esta incerteza é muito dolorosa. Tenho de começar a preparar o futuro dele. Não sabemos quem vai primeiro. Se ele for à minha frente, eu não sei como vou viver sem ele. Por outro lado, se eu partir e ele ficar, quem é que vai fazer o que eu faço? Gostaria de deixar o Vasco na instituição, na parte da residência, mas não sei”, disse, emocionada.

Apesar de todo este receio, Vasco é um “menino muito alegre” e “adora cantar e dançar. Ele é de uma pureza incrível. Veio ao mundo para nos ensinar, ele tem-me ensinado tanta coisa… Ele vai comigo para todo o lado e eu já não me dou sem ele e cada vez estamos mais presos um ao outro”.

No final da entrevista, Rosa Maria Soares respondeu a uma pergunta considerada “difícil”: “Se soubesse durante a gestação que o seu filho tinha Síndrome de Down, abortava?”.

A resposta foi rápida e direta: “Sou contra o aborto. E isto é uma deficiência que se tolera, mas mesmo assim eu não me sentia bem com a minha consciência em abortar. Livrava-me de um problema mas tinha outro, a minha paz. Estou em paz porque o meu filho é uma prenda, não é para toda a gente”.

Por fim, a mãe do jovem Vasco deixou uma mensagem a todas as mães que também têm filhos com Trissomia 21: “tentem levar a vida com alegria, embora a tristeza também apareça. Vejam como uma dádiva, porque nada é por acaso”, concluiu.