Dois médicos do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa são autores de uma investigação sobre esquizofrenia que foi premiada recentemente pela Janssen.

Manuel Gonçalves Pinho, investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto/CINTESIS e médico interno no CHTS, é o primeiro autor do trabalho premiado. João Pedro Ribeiro (médico especialista no CHTS), Lia Fernandes e Alberto Freitas (professores da FMUP/[email protected]) também assinam o estudo.

Os investigadores receberam o Prémio RWE 2022 da Janssen Neuroscience, na categoria “Séries Clínicas” por um trabalho sobre reinternamentos por esquizofrenia em Portugal, “Hospitalizations Readmission Rates in Patients with Schizophrenia: a Nationwide Analysis”, que foi apresentado em Lisboa, no VII Fórum de Neurociências Janssen, em maio.

Este estudo utilizou “dados administrativos para gerar evidências em saúde” e surgiu após a publicação do primeiro estudo nacional sobre o mapeamento epidemiológico da esquizofrenia em Portugal, que acabou por colocar a questão dos reinternamentos. “Quando os doentes são internados mais do que uma vez, para nós, médicos, diz-nos que ou houve uma falência do tratamento, ou uma descompensação da doença. E um dos indicadores de boa qualidade e de tratamento dos doentes é avaliarmos estes reinternamentos”, comentou Manuel Gonçalves Pinho ao Jornal A VERDADE.

“Em Portugal, não se sabia também esta taxa de reinternamento. O nosso estudo, no fundo, teve como alvo determinar as taxas de reinternamento a um determinado período”, acrescentou.

Foram analisados mais de 25 mil episódios de hospitalização por esquizofrenia de um total de mais de 14 mil doentes, num período de oito anos, nos hospitais públicos portugueses. Ao todo, 3.378 doentes, ou seja, 23,7%, foram reinternados no período de um ano, ou seja, cerca de um quarto dos pacientes. Até 90 dias após a alta, 14,1% dos doentes tiveram de regressar ao hospital. No espaço de um mês, foram readmitidos 8,6%. Mais de 2% foram hospitalizados novamente nos cinco dias que se seguiram à alta.

As readmissões nos hospitais portugueses foram mais frequentes no sexo masculino, onde também se verificaram os períodos mais curtos entre novos internamentos, informa também o site de notícias da Universidade do Porto.

Foram analisados os reinternamentos por esquizofrenia a cinco, 30 e 90 dias e um ano, sendo que “quanto mais precoce for o reinternamento, pior”. “Em Portugal, temos uma taxa de reinternamento a um ano, ou seja, ao final de um ano depois de o doente ter alta, cerca de um quarto dos doentes acaba por voltar a ser internado”, explicou o investigador, indicando que este valor se encontra “um pouco na linha dos outros países da Europa”.

É um número que “deve fazer refletir também a reintegração do doente nos cuidados pós-alta”. “Damos alta ao doente do internamento, mas, como é lógico, o doente continua a vida dele fora do hospital e nós, cá em Portugal, infelizmente, não temos grande capacidade comunitária de reintegrar os doentes, principalmente, os doentes com doença mental grave e os apoios que existem são poucos. Caracterizar isto permite-nos ter números para dizer que, de facto, é importante investir nesta parte”, constata.

Foto: CINTESIS

Sobre a aposta na saúde mental em Portugal, Manuel Gonçalves Pinho destacou o Programa Nacional de Saúde Mental e uma “aposta maior na psiquiatria comunitária”. No entanto, sublinha que também são necessários “esforços dentro da comunidade para que isso aconteça” e mais “investimentos nos apoios da comunidade”, ou seja, ajudar a reintegrar o doente, a ter “um trabalho adequado às capacidades e estar incluído na sociedade”, tal como é feito com outras doenças.

O primeiro autor do trabalho refere ainda a importância da “educação para a saúde”. “Se as pessoas não souberem o que é uma doença grave como a esquizofrenia, como a doença bipolar, vão ao contexto cultural e social procurar referências para a doença e isso tanto é mau para a psiquiatria, como é para as outras especialidades”, indica, referindo que isso contribui para o “estigma da doença”. Assim, é necessário “informar o que é a esquizofrenia”, que pressupõe “episódios psicóticos, sensação de alteração da realidade e alucinações”.

Este é o segundo ano que a equipa recebe este prémio, sendo que a primeira vez foi precisamente com o trabalho nacional sobre o mapeamento da esquizofrenia. “Ficamos contentes! É o reconhecimento do trabalho científico que é feito por mote próprio dos investigadores. O reconhecimento, muitas vezes por entidades como a Janssen, motiva-nos também a trabalhar e a gerar evidências que depois podem ajudar os doentes e os clínicos a adequar os tratamentos e os recursos da melhor forma. Recebemos com muito orgulho este prémio e incentiva-nos a trabalhar mais”, remata.