A igualdade de sexos, a nível de salários e também de oportunidades, é, cada vez mais, uma realidade e também uma reivindicação. Um direito que tem ganho forças nas últimas décadas, mas que, antigamente, não era tão bem visto. Contudo, Marina Granja sempre o defendeu.

Foi a primeira mulher a pertencer a um executivo municipal, em Cinfães, e também a primeira mulher no concelho a tirar a carta. Hoje, com 86 anos, recorda os “tempos idos” e todas as suas experiências. “Iniciei a minha caminhada política logo após o 25 de Abril de 1974. Abracei-a porque senti, dentro de mim, qualquer coisa que me dizia ‘se os homens podem andar na rua a cantar o Grândola Vila Morena, se podem mostar a sua vontade, porque é que nós, mulheres, não podemos fazer o mesmo?’. Resolvi acompanhá-los, talvez tivesse sido um escândalo, mas fazendo o meu exame de consciência, acredito que foi o inverso, que fui um exemplo para a libertação da mulher”, afirmou, em conversa com o Jornal A VERDADE.

Professora de profissão, Marina Granja acredita que, depois de si, “muitas mais mulheres se sentiram livres, porque, na altura, a mulher só tinha deveres: de ser uma boa dona de casa, uma boa mãe, uma boa esposa. Nós podemos ser tudo isso, mas podemos ser muito mais. Podemos conjugar isso tudo com o facto de sermos boas profissionais”.

“Adotou” Cinfães como a sua terra em 1954 e nunca mais de lá saiu. “Orgulho-me porque, com todos os defeitos e qualidades, dei o meu melhor, abracei todas as causas em que estive envolvida e abracei todos os desafios, acrescentando que “se voltasse atrás teria feito o mesmo, não me arrependo”, frisou.

Marina Granja foi, inicialmente, vereadora da Comissão Instaladora, pós 25 de Abril. Tinha cerca de 30 anos quando se envolveu na política, tomando, de seguida, o cargo de vereadora e, mais tarde, de vice-presidente. Permaneceu em funções na autarquia de Cinfães até 2005. “Fui a única mulher durante muito tempo, tudo o que era desafios eu gostava, se os homens tinham, as mulheres também podiam ter. Todos nós somos seres humanos, todos temos a massa encefálica, temos de ver como a vamos aproveitar. Tudo o que fiz, nunca estive à espera de outros e não faço nada por vaidade, ou por ostentação, faço porque gosto e porque sinto que é necessário”, sublinhou.

Era “sempre a primeira a chegar e a última a sair”, o que acredita ser um ponto a favor. “Dedicava-me de alma e coração e queria ser um exemplo para os colaboradores”, defendeu. Das várias conquistas que teve durante o seu tempo na autarquia, Marina Granja destaca a construção da EB 2,3 de Souselo. “Havia uma guerra muito grande entre as freguesias, foi justo e nada ilegal. Tinha conhecimento, como ninguém dos alunos que tínhamos aqui, da situação geográfica da freguesia, que nenhuma mais outra tinha. Orgulho-me de tudo, mas essa é a obra que mais orgulho me dá”, admitiu.

A cinfanense garante que os anos passados na Câmara Municipal de Cinfães “foram muito” gratificantes. “Aprendi muito, adorei a política e os homens respeitavam-me muito”, disse, garantindo nunca ter sentido descriminação. “Hoje agradeço a confiança que depositavam em mim, foi isso que contribuiu para a minha riqueza pessoal e para os conhecimentos que tenho. Aqui não há sexos, aqui há seres humanos e os seres humanos têm que raciocinar, cada um pôr-se no seu lugar e defender a sua dama, com educação e com respeito. Respeito e lealdade são os bens essenciais para que ninguém se sinta discriminado”, constatou.

Marina Granja reconhece que foi uma mulher à frente do seu tempo e afirma: “orgulho-me de ter sido assim e não mudava nada no meu trajeto”.