Diz-se que a música pode ajudar a salvar vidas. Que leva o ser humano a outro estado, fora do mundo real. E, para Bráulio Gomes, natural de Marco de Canaveses, foi mesmo o “medicamento certo” para ajudar a ultrapassar uma depressão.

Desde que se lembra que a música sempre esteve presente. Dois irmãos tiveram aulas de música, quando Bráulio era ainda pequeno, e o seu sonho, apesar de nunca ter havido “grandes possibilidades para instrumentos musicais”, era aprender a tocar guitarra. Anos depois, quando um dos seus irmãos conseguiu comprar uma guitarra, foi Bráulio que lhe deu uso e começou “a tentar aprender sozinho”, aos 17 anos.

“Entretanto, a minha vida rolou muito”, conta ao Jornal A VERDADE. Depois de ter saído da universidade, onde aprendeu “muita música”, houve uma fase na sua vida em que tinha “graves crises de ansiedade”, sendo, mais tarde, diagnosticado com uma “depressão um bocado profunda”. Durante as fases mais críticas, a escrita e a composição eram as suas aliadas.

Com o diagnóstico, começou a fazer tratamento, começou “a melhorar” e decidiu “mudar muita coisa” na sua vida. Há cerca de um ano que já não fuma, começou a trabalhar por sua conta numa empresa em Paris e, em novembro de 2021, teve “um clique” e viajou para a República Checa, onde cantou nas ruas.

“Os temas das minhas músicas são assim um bocadinho ligados ao que passei. Sempre ia escrevendo, sempre ia compondo, mas estagnei um bocadinho porque, realmente, tinha a ideia de tocar para as pessoas. Mas a questão nem era propriamente a timidez ou o que quer que fosse, era que eu estava de alta forma contraído”, explica, referindo que essa foi uma das coisas que quis mudar e “a melhor opção” que encontrou foi ir tocar para as ruas.

Sorteou um destino e o escolhido foi Praga. Levou a sua fiel amiga ao ombro, a guitarra, e esteve lá durante quatro dias. “Só tive coragem para me sentar e tocar nos momentos finais da viagem, a cinco horas de me vir embora”, lembra. 

A partir daí, “foram sempre surgindo” novos destinos e ideias. Passou por Roma, Milão, Zurique, Genebra e Berna, sendo alguns dos próximos destinos a Eslovénia e a Alemanha e estando a cidade do Porto na sua lista de ambições. Como está em Paris, “é fácil viajar pela Europa”, mas conta que a pandemia tem cancelado algumas das suas viagens e até fez com que decidisse tomar a vacina contra a COVID-19 para facilitar o processo. A ideia é conciliar com o trabalho e não pretende que a música seja “uma fonte de rendimento”, uma vez que, quanto ao valor que consegue angariar enquanto está a tocar nas ruas, a primeira coleta “é para correr a rua e distribuir pelo pessoal da música” ou a sem-abrigos.

“O meu principal objetivo é chegar com as minhas músicas, com os meus originais, reconhecê-los de alguma forma e, com a própria música, o que escrevi ali, primeiro, é uma lição grande para mim. O que eu passei, escrevi aquilo para mim, mas, consoante escrevi para mim, pode ser para outras pessoas, por isso é que insisto em cantar em português e gosto de escrever em português, até porque é assim que me percebo e quero me dar a perceber e nunca tentei sequer escrever noutras línguas só para ter mais mediatismo ou algo assim do género. A ideia é só serem as minhas músicas. Eu sinto-me bem em as pessoas saberem a minha história, o que se passou comigo e o que se pode passar com as outras pessoas também”, remata.

“Foi o medicamento certo! Claro que tive ajuda de medicação mesmo, fármacos, mas a música foi mesmo aquele clique e foi muito importante para mim também confrontar-me”, refere. “A música pode ser um bom medicamento, pode ser uma boa fuga a este mundo meio manhoso que temos agora. Pelo menos para mim, enquanto estou na minha guitarra e a cantar no meu cantinho, parece que está tudo bem, mesmo quanto está tudo a arder cá fora”, conclui.

Pode ver alguns vídeos com originais e covers de Bráulio Gomes neste link e aqui.