Perturbações da linguagem, alteração da memória, comportamentos inadequados foram os primeiros sinais do início da demência da mãe de Maria Pinto e “o início da nossa cruz”, confessa em entrevista ao Jornal A VERDADE. 

A demência, maioritariamente Doença de Alzheimer (DA), afeta mais de 57 milhões de pessoas em todo mundo e caracteriza-se pela morte de células cerebrais. Uma realidade que Maria Pinto conheceu bem de perto durante 12 anos.

Embora não se apresente como cuidadora, reconhece que sempre foi “uma filha muito presente. A vida permitiu-nos ter pessoas não familiares a cuidar dela, mas todos os filhos estiveram presentes diariamente”, conta.

A doença foi diagnosticada quando a mãe, “uma mulher muito autónoma, apegada à família e ao lar”,  tinha 78 anos. “Foi algo repentino”, recorda. As mudanças começaram a ser sentidas num verão “muito atípico. Percebemos que a nossa mãe estava com um olhar muito fixo e um semblante triste. Começamos a notar uma certa irritabilidade nela”, recorda a filha. 

Preocupados com a mãe, os filhos resolveram levá-la a um médico (psiquiatra) “para perceber se estava tudo bem. Dado o avançar da idade, foi um pensamento preventivo. Fizeram-lhe testes e respondeu a tudo. O médico disse que estava bem, mas um pouco triste, então receitou-lhe um medicamento (antidepressivo) para ficar mais alegre”.

Passaram 15 dias e, esperando resultados positivos, os filhos viriam o oposto acontecer: “Começou a ter comportamentos inadequados, um discurso que não era dela. Aí começou a nossa cruz”, confessa Maria Pinto. Seguiram-se idas a várias clínicas e saía de todas elas “com receitas de medicação. Iam alterando e diziam que era uma depressão. Até que resolvemos levá-la a uma neurologista amiga. Desconfiaram de várias doenças, despistaram tudo”.

Um processo que teve início em setembro e fim em janeiro, com a confirmação do diagnóstico: “uma doença degenerativa”. O amor pela mãe “não se mede”, mas conviver com a doença “foi terrível. Deixamos de ter a nossa mãe, aquela que nos protege, que nos dá um conselho. Diria que a nossa mãe morreu duas vezes. Foi complicado”.

Depois de 12 anos a conviver de perto com a doença, Maria Pinto confessa que ficou “com mazelas. Sinto muito a falta dela. A minha mãe sempre foi uma pessoa muito afável e a doença não alterou o que ela era. Era mulher de beijos, de abraços e manteve sempre isso”.

Os últimos dois anos da mãe foram passados num lar, onde a filha passava todas as tardes. “Colocava música a tocar e ela adorava e cantava. Acredito que a minha mãe foi feliz na doença. Vivia no mundo dela, mas acho que se sentia feliz”.

Viver com uma demência é “perturbador para a pessoa”, mas Maria Pinto enaltece também o papel do cuidador, “que precisa de muita ajuda, mas não há”.

Hoje, 21 de setembro, assinala-se o Dia Mundial da Doença de Alzheimer e Dia Nacional de Consciencialização da Doença de Alzheimer e Maria Pinto deixa uma mensagem de esperança a todos aqueles que vivem uma realidade semelhante à que viveu no passado: “tenham muita coragem e força”.