Das locomotivas a vapor ao comboio a diesel, António Matos, natural de Meinedo, Lousada, acompanhou diversas fases deste meio de transporte. Foi chefe de estação em vários locais e um apaixonado por comboios e tudo o que fosse relacionado com a ferrovia.

Deixou o trabalho que tinha numa fábrica de tintas como escriturário, para se dedicar à ferrovia, com cerca de 20 anos, “um bocado influenciado” pelo pai, que era funcionário da CP – Comboios de Portugal, acredita a filha Ana Maria Matos.

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Começou por ser fator de terceira e foi subindo de categoria até chegar a chefe de estação. Passou por várias: Meinedo, Caíde, Barca de Alva, Freixo de Numão, Paredes, Porto Campanhã, entre outras. E deixou a sua marca. “Ele vivia intensamente a profissão que tinha. Vibrava mesmo com aquilo”, explica a filha, adiantando que tinha também uma “paixão pelos jardins das estações e ganhou o prémio do Melhor Jardim da Estação de Caíde”.

Foi também o formador de fator da primeira turma de mulheres, em Campanhã. “Atualmente, essas senhoras já são reformadas”, conta, referindo que o pai “vivia muito o trabalho, era muito dedicado”.

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A função de António Matos era dar a partida aos comboios, abrir a bilheteira, numa altura em que funcionavam durante a noite e, por isso, realizava turnos. Para Ana Maria Matos, “não era um problema”, pois foi “habituada assim”. “Quando nasci, o meu pai já era ferroviário”, lembra, afirmando que até entrar na escola acompanhava sempre os pais, mas, depois, costumava ficar em casa dos seus avós nas alturas em que a mãe ia com o pai.

Além disso, Ana Maria Matos “adorava os comboios” e até diz que foi em Arcos de Baúlhe que aprendeu a andar. “Quando o meu pai estava no Freixo de Numão, estava sempre ansiosa por começar as férias para ir para lá”, recorda, dizendo que a viagem “demorava quase um dia”.

“Adoro o Alto Douro. Não sei se foi pelo meu pai lá estar, se for fazer um passeio de comboio, adoro fazer aquela viagem da Régua ao Pocinho. Gostava imenso daquilo”, comenta.

Em família, também eram várias as viagens que fazia. Durante “alguns anos”, o pai organizava com um colega chefe de estação de Vargelas um passeio de comboio para ir ver as amendoeiras em flor, com um piquenique e um convívio.

António Matos teve de se reformar antes dos 60 anos “por questões de saúde” e “foi um desgosto tremendo para ele”. Durante algum tempo, como vive perto da linha de comboio, assim que ouvia o som, se fosse fora do horário, já questionava o que estaria de errado. Ana Maria Matos refere que o pai não conseguia ‘desligar’ daquele que foi o seu trabalho durante tantos anos e que ainda sabia “os horários todos de cor” e “o nome das estações”.

Hoje em dia, aos 90 anos, ainda “gosta de falar de comboios” e diz que “gostava que as coisas circulassem com segurança, gostava muito da limpeza das linhas e tinha um grande gosto pelo jardim da estação”. “Tinha muita vaidade na estação”, sublinha António Matos. A filha comenta ainda que o pai era “muito dedicado” e “exigente” mesmo com a limpeza das linhas.