Diana Sampaio é intérprete de Língua Gestual Portuguesa há 10 anos e até aos dias de hoje não se arrepende da profissão que escolheu, “pelo contrário”, afirma em entrevista ao Jornal A VERDADE. 

Quando escolheu o curso de língua gestual “não sabia o que era” e mesmo sendo um mundo “desconhecido, em 2009, achei que era algo fora da caixa e interessante”.  Hoje, é uma das vozes que alerta para a importância da língua gestual e destaca a evolução que tem vindo a acontecer. “Tem havido uma maior sensibilização para com as pessoas que não ouvem e a forma que poderemos comunicar com elas. Mas se perguntarmos a alguém na rua se sabe o que é a língua gestual e a importância que tem, ninguém vai saber dizer”, afirma.

Um desconhecimento que, para Diana Sampaio, provém de alguns mitos e expressões usadas erradamente. “Primeiro, nunca podemos dizer linguagem gestual, mas sim língua gestual, porque se trata de uma língua visual e, tal como as línguas orais, obedece às regras gramaticais, cultura e identidade, motivo pelo qual o gesto acontece; segundo, a expressão ‘surdo-mudo’ é errada, a partir do momento que a pessoa emite som através das cordas vocais, não interessa se é um som mais ou menos percetível ao nosso ouvido”, explica a intérprete.

Se em 2009, quando começou a estudar a língua gestual, “ninguém sabia o que era, atualmente, tem sido moda falar em inclusão. Para mim as modas podem ser perigosas, porque é preciso perceber se depois vai-se continuar a ter este cuidado com a comunidade surda”, alerta.

Atualmente existem, 120 mil pessoas surdas em Portugal

A experiência de 10 anos permite-lhe afirmar que “os surdos não são uma comunidade marginalizada, são sim uma comunidade que a sociedade ouvinte não tem interesse em conhecer ou desconhece por completo”.

Razão pela qual adverte para a importância desta comunicação na primeira infância. “Em cada estabelecimento, exista ou não alguém surdo, toda a comunidade envolvente deve perceber de que forma deve comunicar com aquela pessoa e não obrigá-la a contrariar a sua natureza, ou seja, se a pessoa não ouve, não vou falar mais alto à espera que me perceba. Tenho de perceber de que forma posso transmitir a minha mensagem para que ela compreenda aquilo que estou a dizer. Isto ainda não acontece e ainda há poucos sítios com esta sensibilidade”, sublinha.

Diana Sampaio Acreditando na mudança que pode vir a acontecer, Diana Sampaio aponta para a “formação, informação e sensibilização da sociedade para com a comunidade surda”, como veículos para a transformação.

Uma aprendizagem mais fácil na idade mais precoce. “Entre uma criança surda e uma ouvinte, a comunicação torna-se mais fácil,  porque não existem pré-conceitos erradamente adquiridos. Contrariamente ao que acontece com os adultos, porque não há esse conhecimento básico e importante para saber como agir perante alguém que não houve. Nesse aspeto há um trabalho a fazer”.

Da televisão à formação, Diana Sampaio já trabalhou como intérprete em vários contextos diferentes, mas em todos eles há um denominador comum: “só trabalho na área porque acredito na mensagem que estou a passar, não só para a comunidade surda. Ao trabalhar desta forma, a comunidade ouvinte está a perceber que para além do que vê, existe alguém que precisa de perceber a mensagem que está a ser transmitida. Tenho de passar toda a informação de forma fidedigna para que a comunidade que me está a assistir consiga perceber na íntegra aquilo que está a ser transmitido”.

A intérprete de Lousada reconhece que é “ótimo procurarmos e explorarmos outras culturas”, mas é “necessário começar por Portugal. Enquanto não percebermos que a nossa terceira língua oficial é a língua gestual portuguesa e não a valorizarmos, muita coisa tem de continuar a evoluir nesse sentido, apesar que muito já foi feito e está a ser feito, felizmente”.

Diana Sampaio termina o alerta com a mensagem de que “temos de ser proativos e trabalhar, todos os dias, em prol daquele objetivo. Não é preciso uma data para nos lembrarmos que a comunidade existe”.

O Dia Internacional das Línguas Gestuais celebra-se anualmente a 23 de setembro, e procura apoiar e proteger a identidade linguística e a diversidade cultural de todos os surdos, assim como de outros utilizadores de língua gestual.