Ana Claudia de Almeida1

Ana Cristina Ferreira tem 32 anos, vive em Marco de Canaveses e integra a equipa do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra (CNC-UC) que divulgou um estudo a dar conta que a carbamazepina, um fármaco usado no tratamento da epilepsia, pode ser uma terapia promissora para a doença de Machado-Joseph.

Esta patologia, também conhecida como ataxia espinocerebelosa do tipo 3, é uma doença neurodegenerativa hereditária sem cura, causada por uma alteração num gene. Essa alteração origina uma forma mutada da proteína ataxina-3 que tende a acumular em forma de agregados no cérebro, conduzindo também a disfunção e morte neuronal. A doença provoca problemas na marcha, no equilíbrio, na fala, na deglutição, nos movimentos oculares e ainda no sono.

Em entrevista ao Jornal A VERDADE, a investigadora explicou o que a levou a ingressar na área da investigação científica, contando um pouco do seu percurso académico. Licenciou-se em Genética e Biotecnologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), fez o mestrado em Biotecnologia Farmacêutica na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC) e o doutoramento em Ciências Farmacêuticas no mesmo estabelecimento de ensino.

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“Durante a minha licenciatura, tive contacto com diversas temáticas da área da Biologia, Biotecnologia, Genética Humana, entre outras, que me levaram a despertar o interesse pela investigação científica. Neste período, tive uma primeira oportunidade de integrar um grupo de investigação através de uma bolsa de integração à investigação, financiada pela Fundação para Ciência e Tecnologia (FCT)”, começou por contar.

Após esta primeira experiência, e já a frequentar o mestrado, a jovem desenvolveu o seu projeto de tese num grupo de investigação do Centro de Neurociências e Biologia Celular em Coimbra. “Aí comecei a estudar a doença de Machado-Joseph. O doutoramento foi para mim um caminho natural, que me permitiu continuar a estudar e a trabalhar numa área tão interessante e desafiante como esta. Poder contribuir com um novo conhecimento sobre uma doença neurodegenerativa rara, tão debilitante, e atualmente sem cura, foi a minha maior motivação para enveredar por esta área”, revelou.

O facto de fazer parte da equipa de investigação liderada por Luís Pereira de Almeida, docente da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC), foi “um enorme privilégio” para Ana Cristina Ferreira. “Este é um grupo que estuda a doença de Machado-Joseph há mais de uma década e cuja contribuição científica tem tido um enorme impacto na área. O nosso foco é, por um lado, conhecer os mecanismos moleculares que ocorrem na doença e, por outro, testar diversas abordagens terapêuticas em modelos celulares e animais da doença. Cada avanço e ‘descoberta’ é um passo em frente na tentativa de alcançar uma terapia que possa parar ou atrasar a progressão da doença. No entanto, este é um caminho longo, que requer muitos passos de avaliação de eficácia e segurança, até chegar efetivamente aos doentes”, explicou.

Para a jovem investigadora, a validação deste estudo pelos pares científicos e a consequente publicação em revistas científicas “foi um importante reconhecimento para o nosso grupo de investigação e também a nível individual. É no fundo o ‘cartão de visita’ do meu percurso académico e profissional”. Futuramente, o objetivo a nível profissional “será contribuir para a translação dessa investigação científica para a prática clínica, na chegada de novas opções terapêuticas para os doentes”.

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Ana Cristina Ferreira revelou ainda que, quando era mais nova, apesar de ainda não saber exatamente como o concretizar, sempre idealizou um futuro profissional que lhe permitisse estar em constante aprendizagem e evolução, a ser desafiada diariamente. “E a investigação é exatamente isso! Um caminho nem sempre linear ou fácil, mas cujo propósito ‘maior’ leva a transformar todos esses desafios em novas oportunidades de conhecimento e avanços científicos”, enalteceu.

No que respeita à COVID-19 e à importância da investigação para a descoberta de soluções para colocar um ponto final na pandemia, Ana Cristina Ferreira considera que, apesar da época difícil causada pela doença, é, ao mesmo tempo, uma “época extraordinária do ponto de vista científico. Face a um desafio tão exigente como este, é inédita a união e mobilização global nos variados setores da saúde, investigação científica, indústria farmacêutica e entidades reguladoras, que permitiram um avanço tão célere e eficaz no combate à pandemia. Na base de uma das principais ferramentas de combate à COVID-19, a vacina, estão presentes desenvolvimentos científicos que levaram anos a ser alcançados. Foi graças a essa investigação prévia, e ao esforço científico coletivo, que foi possível desenvolver tão rapidamente uma vacina contra a COVID-19”, explicou.

De acordo com a investigadora, também em Portugal houve uma “rápida mobilização e resposta às necessidades do momento em que, por exemplo, as universidades e centros de investigação, incluindo o nosso, colocaram à disposição da comunidade os seus recursos humanos, equipamentos e expertise para desenvolver métodos de deteção do SARS-CoV-2 e colaborar na rápida e abrangente testagem em lares e escolas. Estes são exemplos que reforçam a importância da ciência na resolução de problemas de saúde pública, nesta e nas mais diversas doenças”, concluiu.