O futebol é um mundo dominado, na sua grande maioria, por homens. Um desporto que, até há uns anos, era exclusivo ao sexo feminino mas que, atualmente, já conta com várias mulheres na área. Uma delas é Jéssica Faria, natural de Marco de Canaveses, que é apaixonada pelo desporto.

A jovem de 19 anos, em entrevista ao Jornal A VERDADE, recordou a “luta” para conseguir jogar futebol, uma vez que os seus pais “não gostavam ou não achavam piada ao facto de ter uma rapariga a jogar à bola”. Contudo, não desistiu e conseguiu ser jogadora federada. “O meu primeiro clube foi a AD Constance, ainda em futebol misto, devido à minha idade, algo que consegui depois de uma aposta com os meus pais. Já em futebol feminino, joguei na AR Tuías, o primeiro clube da terra a ter futebol feminino federado”, sublinhou.

Depois de vários anos como jogadora, já com o apoio da família, Jéssica Faria chegou ao escalão sénior. No entanto, por não conseguir conciliar os estudos com os treinos, uma vez que estuda em Coimbra, a jovem decidiu “pôr um fim” à sua carreira como futebolista, mas sempre com a ideia de fazer algo ligado ao futebol. “Desde pequena que via jogos de futebol na televisão, e a minha avó ainda hoje me diz, que eu gostava muito de imitar os árbitros a exibir cartões e a apitar faltas. Influenciada muito pelo meu melhor amigo, que é árbitro, mas também por um bichinho que existia dentro de mim desde miúda, decidi tirar o curso na A.F.P, associação que sempre está disponível para nós e nos ajuda em tudo aquilo que precisamos”, recordou.

Começou então uma nova fase na vida de Jéssica Faria, a de ser árbitra de futebol. “Somos avaliados várias vezes durante a época, com provas físicas e com testes que influenciam a nossa nota e o nosso percurso. É algo que requer muito trabalho e aprendizagem contínua. O que mais gosto em ser árbitra é o facto de criar laços de amizade tão fortes e bonitos, não só dentro da própria equipa de arbitragem mas também com os restantes colegas de profissão. Há pessoas que levamos para a vida, porque não estamos aqui para ser rivais uns dos outros, mas para nos ajudarmos mutuamente para sermos mais e melhores”, garantiu.

Porém, nem tudo “são rosas”, porque há também uma parte menos boa em ser árbitra de futebol, nomeadamente quando lê “notícias sobre agressões” aos seus colegas. “É algo bastante lamentável de acontecer e que gostaria de apelar a todos para serem mais humanos no que diz respeito a estas situações. No que diz respeito a insultos, é algo que nós já vamos preparados e temos de ter cabeça fria, algo que pode ser difícil em alguns momentos”, defendeu.

Recentemente, Jéssica Faria fez parte da equipa de arbitragem do jogo Portugal – Noruega sub-23 feminino. “Foi o jogo mais marcante da minha carreira, uma estreia a apitar seleções, algo que nunca pensei em conseguir tão cedo no mundo da arbitragem”, disse, acrescentando que “é tudo fruto do empenho e trabalho demonstrado perante a minha tutora e todos os meus colegas de equipa”.

Este jogo ficará “para sempre” na memória da jovem árbitra “não só por toda a logística e envolvência num jogo daquele patamar”, mas também “pela sensação de alegria” que sentiu quando entrou no relvado. “É, sem dúvida, dos momentos mais importantes, marcantes e arrepiantes na minha vida. Tenho, desde já, de agradecer à minha tutora, Ana Amorim, pela oportunidade, à Sara Alves, árbitra principal no jogo, pela confiança depositada em mim e pelo à vontade e encorajamento que me transmitiu durante a experiência, à AFP e à FPF pois, sem eles também não teria sido possível, e a todos os meus colegas, familiares e amigos e à restante equipa de arbitragem que constitui o jogo”, deixou o agradecimento.

Para o futuro, Jéssica Faria quer, “chegar à CF1 e, num futuro mais longínquo, chegar a árbitra internacional, algo que só vai ser possível com muito treino, trabalho, atitude, muita humildade e querer”, concluiu.