Nas redes sociais são vários os fenómenos que se tornam virais, desde danças a desafios. Muitas vezes, esses desafios acarretam riscos para a saúde de quem os pratica. O pedopsiquiatra do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, João Caseiro, deixou algumas recomendações para os pais relativamente a este tema.

“Introdução acompanhada pelos adultos às redes sociais é a abordagem que nos traz uma maior segurança”

Nos últimos dias, veio a público o caso de um menino britânico de 12 anos, em coma desde abril, após ter aderido a um desafio que consistia em apertar o pescoço e suster a respiração até desmaiar por falta de oxigénio. Este exemplo não está isolado, pois há muitos outros desafios semelhantes que se tornaram virais em anos anteriores, como a “Baleia Azul” e a “Momo”.

Estes tipo de propostas “ganharam uma dimensão, por um lado, com a facilidade com que a informação passou a veicular-se hoje em dia e também é importante referir que a rede social TikTok tem uma forma quase viral de disseminar este tipo de desafios”.

O especialista não acredita que o “fenómeno das redes sociais possa ser contido através de legislação, de proibição, agora, falta, de facto, um quadro base que enquadre estas situações”. Contudo, o pedopsiquiatra recorda que, tal como o Facebook e outras redes sociais, o TikTok “já foi forçado a ter uma idade mínima” para a sua utilização.

Foto: S O C I A L . C U T/Unsplash

“Ainda assim, é uma rede social que coloca algumas dificuldades, precisamente por esta velocidade e pelo poder da imagem, são clipes curtos, que, de alguma forma, espalham comportamentos que os jovens tendem a repetir e que é uma forma de se integrarem numa determinada subcultura que os mesmos veem como desejável”, continua, referindo que não entende “como grandes blocos como a União Europeia não são capazes de exigir a uma empresa que tem uma aplicação informática que consiga bloquear este desafio em particular, quando já se sabe que, se calhar, ele já custou para cima de uma dezena de vidas”.

Sobre a atitude que os pais e educadores devem ter perante estas situações, João Caseiro defende que “passa sempre por uma psicoeducação de base” e por “supervisão”. ”Se eu proibir o meu filho de ter acesso a uma plataforma deste género, será que o estou a proteger? Eu tenho muita dúvida disso. Porque ele anda na escola. Se ele não tem acesso, se calhar, os colegas todos têm e até quando tiver vai estar muito mais desprotegido ou vai sentir aquilo como novidade, sendo um jovem que até tem alguma tendência a testar limites, acaba por ser mais perigoso”, declara.

Foto: S O C I A L . C U T/Unsplash

“Eu tenho dúvidas se, mesmo com 12 anos, os jovens que participaram neste desafio não compreendam o risco que têm. Mas, em primeiro lugar, são adolescentes. Muitos destes jovens nunca tiveram uma doença na vida, sempre foram pessoas muito saudáveis e que nunca tiveram de se confrontar com as limitações do seu corpo, com a perenidade do corpo, portanto, eles próprios se veem como quase imortais ou como muito resilientes ou resistentes e, depois, é aquela necessidade que não é a norma, ao contrário do que se pensou noutros momentos, mas há aqui também uma certa necessidade de desafio. Um desafio deste género, que não e provável, mas que até pode ter alguns riscos, surge como um desafio que pode ser encarado por alguns jovens como aliciante, sem que isto signifique que eles tenham uma doença, ou seja, é um comportamento que existe nesta idade e daí a necessidade de supervisão”, descreve.

No entanto, a supervisão, defende, “não é andar preocupado, angustiado em cima dos jovens, é realmente ter uma atitude de alguma supervisão – «mas, afinal, ele passa tanto tempo no telemóvel, no computador, o que é que ele está a ver?»”.

“Tem de passar muito pelo estabelecimento de confiança com as crianças. Saberem que, se tiverem dúvidas, se precisarem de ajuda, podem contar com o adulto e que terão um adulto compreensivo e com alguma flexibilidade para falar com eles e para, de alguma forma, os orientarem”, refere o especialista. Os limites “devem ser sempre o bom senso” e “tem de haver sempre aqui uma pedagogia que não é do curto prazo”, numa promoção de “um crescimento saudável, com a noção de que o mundo tem perigos”.

“Uma introdução acompanhada pelos adultos a estas questões das redes sociais, dos seus riscos, uma descoberta um bocadinho partilhada com a família é, se calhar, a abordagem que nos traz uma maior segurança e que diminui os riscos de acontecerem estas situações”, conclui.