O colapso da Ponte Hintze Ribeiro arrastou para a morte 53 passageiros de um autocarro e seis pessoas que seguiam em três automóveis. Não houve um único sobrevivente. Mas, junto à entrada do monumento, enquanto os olhos se perdem no curso de água, Arlindo Lopes garante que não guarda rancor à natureza.
“O rio não foi o culpado”, afirma perentoriamente. “Quem foram culpados foram os humanos. Isso está mais que documentado”. Para este familiar, a maior mágoa que carrega, a par da saudade, é o profundo sentimento de injustiça perante a ausência de responsabilização criminal.
A indignação de Arlindo é palpável e reflete a ferida aberta de uma tragédia que marcou o país: “Se os documentos estavam lá, se os mergulhadores tinham os documentos, os pilares estavam descalços, as provas existiam, como é que não se fez prova? Eu acho que os verdadeiros culpados foram encontrados. Não foram foi culpabilizados”, desabafa.
De facto, a via judicial não trouxe o desfecho esperado pelas famílias. Mais de cinco anos após a queda, em outubro de 2006, o Tribunal de Castelo de Paiva absolveu quatro engenheiros da extinta Junta Autónoma de Estradas (JAE) e dois técnicos de uma empresa projetista, acusados pelo Ministério Público de negligência e violação das regras técnicas. A justificação do tribunal baseou-se no facto de que, na época das inspeções da JAE à ponte, não existiam regras técnicas que enquadrassem rigidamente a atuação dos peritos. A Associação dos Familiares das Vítimas ainda recorreu para o Tribunal da Relação, mas a decisão absolutória acabou por ser confirmada.
Hoje, 25 anos passados, os tribunais fecharam os processos e a maioria das famílias encontrou outras formas de viver o seu luto. Mas, na margem de Castelo de Paiva, enquanto a ponte nova sustenta o trânsito do presente, duas famílias continuam a ser o elo inquebrável com o passado, garantindo que as 59 almas de Entre-os-Rios nunca caiam no esquecimento.