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Castelo de Paiva
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Entre-os-Rios, 25 anos depois: As águas não apagam a memória, nem a fé das duas famílias que resistem

Vinte e cinco anos após a trágica queda da ponte Hintze Ribeiro, em Castelo de Paiva, o tempo parece ter acalmado tudo, menos a saudade.

Redação

Poucos metros abaixo do memorial erguido para homenagear as vítimas, o rio Douro — onde ainda jazem os corpos de 36 pessoas que nunca chegaram a ser resgatadas — desliza sem pressas em direção ao mar. Corre indiferente às memórias de quem viveu a tragédia daquela noite fatídica de 4 de março de 2001. No entanto, na margem, a fé e a lembrança recusam-se a ser arrastadas pela corrente.

Hoje, no monumento “Anjo de Portugal”, situado junto à ponte reconstruída que liga Entre-os-Rios (Penafiel) a Castelo de Paiva (Aveiro), a multidão que outrora ali se juntava deu lugar ao silêncio, quebrado apenas pela voz de duas famílias que, religiosamente, ali se reúnem todos os meses para rezar o terço.

A dor de quem não teve um corpo para chorar

Arlindo Lopes é um dos rostos desta resistência emocional. Naquele trágico colapso, perdeu três familiares: o irmão, a cunhada e um sobrinho de apenas quatro anos de idade, que viajavam no autocarro que foi engolido pelas águas turvas do Douro. Chega de manhã cedo ao memorial evocativo das vítimas, acompanhado por duas irmãs. Desta vez, carregam um ramo de flores. O gesto tem um propósito especial: assinalar o aniversário do irmão falecido, que teria completado 63 anos no passado dia 11 de fevereiro.

Para Arlindo, a romaria mensal aos últimos domingos de cada mês é o que lhe traz alguma paz de espírito. “Nós infelizmente não conseguimos recuperar qualquer uma das vítimas e virmos cá rezar o terço é um momento espiritual de manter viva a memória dos nossos familiares e temos a possibilidade de pôr uma vela, ou uma flor fresca”, partilha, emocionado.

No interior da pequena capela, inaugurada em 2003 na base do monumento, moram as fotografias e os nomes das 59 pessoas que perderam a vida. Mas se outrora o espaço se enchia de luto partilhado, hoje a realidade é mais solitária. “Neste momento já só continuámos duas famílias. No início eram muitas. Eram para aí 10 ou mais famílias. Estava sempre tudo cheio”, recorda Arlindo Lopes.

Uma promessa de mãe num "túmulo" de água

A oração coletiva, que não dura mais do que meia hora, é dirigida por Rosa Rodrigues, de 64 anos. A dor que a move é a perda de um filho, e o terço que desfia há um quarto de século é, no fundo, o cumprimento de uma vontade do próprio.

Rosa explica o motivo que a faz regressar, mês após mês, ao longo de 25 anos: “Pouco tempo antes de acontecer isto ele dizia-me - ‘oh mãe porque é que não rezamos o terço à noite?’ - e então, como ele gostava, eu continuei”. E a promessa é para manter: “Enquanto pudermos e vier alguém, a gente vem sempre. Quando deixar de vir, eu também não venho sozinha”.

A seu lado está Flávia Pinto, de 36 anos, a filha mais nova. Tinha apenas 10 anos quando a ponte caiu, mas guarda marcas indeléveis do trauma familiar, descrevendo os dias que se seguiram como “momentos muito dolorosos e muitas noites de sofrimento”.

Para Flávia, acompanhar a mãe nesta oração é a forma de honrar o irmão mais velho e todos os que ali pereceram. “Basicamente é isso, é honrar quem sofreu aqui tanto, que tanto passou. É o único sítio que temos de culto, visto que o corpo do meu irmão não apareceu. Por isso, é o único sítio onde podemos vir e rezar um bocadinho por ele”, confessa. No final de cada oração, o coração divide-se: sente "um bocadinho mais de tranquilidade, mas também muita saudade e muita tristeza", pois o local obriga-a a reviver os horrores de há 25 anos.

A impunidade: "O rio não foi o culpado"

O colapso da Ponte Hintze Ribeiro arrastou para a morte 53 passageiros de um autocarro e seis pessoas que seguiam em três automóveis. Não houve um único sobrevivente. Mas, junto à entrada do monumento, enquanto os olhos se perdem no curso de água, Arlindo Lopes garante que não guarda rancor à natureza.

“O rio não foi o culpado”, afirma perentoriamente. “Quem foram culpados foram os humanos. Isso está mais que documentado”. Para este familiar, a maior mágoa que carrega, a par da saudade, é o profundo sentimento de injustiça perante a ausência de responsabilização criminal.

A indignação de Arlindo é palpável e reflete a ferida aberta de uma tragédia que marcou o país: “Se os documentos estavam lá, se os mergulhadores tinham os documentos, os pilares estavam descalços, as provas existiam, como é que não se fez prova? Eu acho que os verdadeiros culpados foram encontrados. Não foram foi culpabilizados”, desabafa.

De facto, a via judicial não trouxe o desfecho esperado pelas famílias. Mais de cinco anos após a queda, em outubro de 2006, o Tribunal de Castelo de Paiva absolveu quatro engenheiros da extinta Junta Autónoma de Estradas (JAE) e dois técnicos de uma empresa projetista, acusados pelo Ministério Público de negligência e violação das regras técnicas. A justificação do tribunal baseou-se no facto de que, na época das inspeções da JAE à ponte, não existiam regras técnicas que enquadrassem rigidamente a atuação dos peritos. A Associação dos Familiares das Vítimas ainda recorreu para o Tribunal da Relação, mas a decisão absolutória acabou por ser confirmada.

Hoje, 25 anos passados, os tribunais fecharam os processos e a maioria das famílias encontrou outras formas de viver o seu luto. Mas, na margem de Castelo de Paiva, enquanto a ponte nova sustenta o trânsito do presente, duas famílias continuam a ser o elo inquebrável com o passado, garantindo que as 59 almas de Entre-os-Rios nunca caiam no esquecimento.