Por estes dias, se passar junto ao Sameiro, em Penafiel, não ficará indiferente às 'montras' de cebolas expostas pela Avenida Gaspar Baltar. Produtores locais, de vários lugares, reúnem-se para dar vida à Feira de S. Bartolomeu, vulgarmente conhecida por Feira das Cebolas.
Este ano o evento comemora 283 anos de tradição de comercialização da cebola de Penafiel e muitos são aqueles que esperam por esta altura do ano para a comprar e outros para a vender, como é o caso da D. Adozinda Vieira.
Há 40 anos que a penafidelense, natural de Casais Novos (S. Martinho de Recesinhos), faz parte desta feira e na passagem pela banca desta vendedora encontramos "um bocadinho de tudo, como batatas, tomates e feijão", mas o destaque vai para a 'rainha' do evento: a cebola.

A que vende é "macia", ou já não tivesse ganho um prémio no Concurso das Cebolas por esse mesmo motivo. "Não está muito vistosa", diz-nos a D. Adozinda, mas garante que "está boa", até por gasta "muito dinheiro em sulfato, senão não cresce nada". Para além disso, procura "não regar à tarde com o sol, só de manhã pela fresca".
Enquanto os clientes vão passando e apreciando os cabos de cebola que tem estendidos em cima do plástico, a vendedora de fala das vendas e lembra que "as pessoas vão ao que é mais barato", mas não tem dúvidas de que estas "têm outro valor". Motivo que leva "outras pessoas a procurarem-na. Há quem se habitue à nossa cebola e já nos procure, porque sabem que é boa, vêm diretos cá. Alguns vêm de longe. Ainda na terça feira esteve cá um senhor de Baião que comprou mais de 100 kg de cebolas. Tenho fregueses de anos", diz orgulhosamente.
Adozinda Vieira recorda a infância e a família que trabalhava na agricultura. Em pequenina serviu num lavrador e com 12 anos saiu da escola e foi trabalhar, "não havia outra escolha". Depois esteve na casa de um senhor, em Meinedo (Lousada), também a trabalhar na terra. Entretanto, casou e começou a trabalhar em malhas. "O marido foi para a tropa e eu cá ganhava uns trocos nisso. Quando ele veio fomos morar para S. Martinho e uns amigos iludiram-no a começar na terra e pronto cá estamos".

Quarenta anos depois, a penafidelense ainda se lembra do primeiro ano em que participou na Feira das Cebolas. "O meu filho ia fazer a primeira comunhão e eu fiz a feira para lhe poder dar uma roupinha. Nas lavouras nunca ganhávamos grandes dinheiros e criar oito filhos não era fácil", recorda.
Como nos diz, vai-se dedicando para "ter de fazer alguma coisa", mas é uma área "difícil". Acorda "todos os dias cedinho" para tratar do campo. Tem de "regar, semear tudo ... é muita coisa. Todos os dias tenho este compromisso".
Aos 71 anos "já não é fácil" manter esta atividade e "já não há lá quem faça o que eu faço sozinha", garante D. Adozinda que vai contando com alguma ajuda dos filhos. "Eles e os netos ajudam ... quando são as batatas ajudam a apanhar, as cebolas ajudam a carregá-las, mas encabei isto tudo sozinha. Tive uma filha que encabou meia dúzia de cabos das pequeninas, que já tinha em molhinhos, mas o resto fui eu".

No entanto continua a "gostar" de estar na feira, embora as filhas lhe peçam para "deixar", porque trabalha "muito sozinha". Mas é uma "distração. Não me imagino a parar, enquanto deus me der saúde. Quando não poder deixo".
A tradição e o gosto irá manter-se na família, uma vez que um dos netos - com 18 anos - "é muito trabalhador e gosta disto. Ele quer continuar e até quer comprar um trator. Vou passar-lhe tudo. Fico muito feliz", diz a avó.
A feira das cebolas é uma feira com 283 anos de tradição, que acontece inserida na AGRIVAL, que este ano decorre de 23 de agosto a 1 de setembro, no Pavilhão de Feiras e Exposições de Penafiel.
