Há 10 anos que a rotina de Albina Carneiro se mantém sempre a mesma. Todas as segundas-feiras sai de casa “muito cedinho”, às 06h30, para mais um dia de voluntariado no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto. “E se fosse mais perto, viria mais dias”, garante em entrevista ao Jornal A VERDADE.

Foi o cancro do marido que a fez tornar-se voluntária e querer “ajudar os outros. Quando me aposentei, vim inscrever-me, fiz a formação e ainda aqui estou”. No final, “tudo compensa, porque ficamos com o coração cheio”, afirma a voluntária.

Quando terminam as horas de voluntariado, sente-se “muito bem” e “grata” pelo que faz. “Quando chegam levamo-las aos sítios que têm de ir, mas quando chegam pela primeira vez é muito complicado”.

E as histórias que a marcaram foram “muitas” ao longo destes dez anos. “Algumas pessoas conseguem controlar-se, mas outras não. Não sei porquê, mas parece que têm medo da palavra IPO e entram em pânico. Nós tentamos ajudar, porque vêm pessoas de fora que não sabem nada. O nosso papel enquanto voluntários é dar um aconchego”, garante.

Durante toda a sua vida, a voluntária trabalhou com crianças, enquanto auxiliar de ação educativa. Agora, dedica-se “a pessoas de todas as idades, mas os idosos são muito engraçados e aprendemos muito com eles. Isto é uma lição de vida. Dá-se e aprende-se”, frisa.

Aquilo que hoje vê nos outros, é um reviver de todo o processo pelo qual já passou com o marido, mas o gostar de ajudar, para Albina Carneiro, “já nasce com a pessoa. O voluntariado começa em casa, quando ajudamos os nossos vizinhos também”.

E a voluntária segue à risca o que diz, já que na freguesia onde vive, Vila Boa do Bispo, é também voluntária na Fundação Santo António, Instituição Particular De  Solidariedade Social, todas as sextas-feiras.

Albina Carneiro começa e acaba a semana dedicada ao voluntariado e, apesar de “haver dias mais complicados, compensa porque isto dá-nos vida”. Uma experiência que aconselha a todas as pessoas. “Incentivo porque é sempre preciso. No entanto, as pessoas não querem fazer porque não é remunerado. As pessoas hoje não querem trabalhar de graça, isto é só para a alma”.

O pagamento chega na forma de agradecimento dos doentes que reconhecem o carinho prestado e “que não têm mais que nos fazer. Agradecem e é muito bom e gratificante ouvir”.

Os voluntários são precisos em “qualquer lado”, e o IPO não é exceção. “Somos mais de 500 voluntários e há muita gente boa, mas nem toda a gente consegue aguentar isto”. Mas como a voluntária costuma dizer a “o melhor dia da semana é a segunda-feira”, porque se sente “mais confortável”.

O IPO homenageia aqueles que ajudam os doentes de forma voluntária e apesar de “nunca pensar aguentar tantos anos” Albina Carneiro chega aos 10 anos de voluntariado. Mais 10 “se calhar já não vai ser”, mas enquanto “conseguir e me aceitarem vou continuar”, garante.

Aos 71 anos, saber que está a ajudar é a “maior recompensa” que pode receber e no final de tudo, “o importante é sentirmo-nos bem e felizes com aquilo que fazemos. É o melhor que se leva da vida”.